Com os primeiros dias frios do ano, sempre me lembro de como era a infância há cerca de trinta anos, em uma cidade ainda não tão desenvolvida, dividida entre a vida urbana e os dias passados no interior, perto dos avós, tios e primos.
Nas manhãs de cerração espessa, daquelas que escondiam a paisagem e abafavam os sons, o fogão a lenha era uma das primeiras coisas a despertar. Sobre a chapa quente, a chaleira começava a chiar anunciando a água do chimarrão, enquanto o pinhão tostava lentamente espalhando aquele cheiro que parecia aquecer até a alma.
Depois, quando o sol surgia tímido e a grama começava a secar do orvalho, vinha a rotina simples das casas do interior: comida feita no fogão a lenha, cheiro de madeira queimando, crianças atrouxadas em casacos indo para a escola, voltando para almoçar e logo depois correndo para brincar enquanto os pais trabalhavam. Entre uma brincadeira e outra, ajudávamos nas tarefas da casa, fazíamos os deveres da escola e aprendíamos, sem perceber, o valor das pequenas responsabilidades.
À tarde, havia as frutas da estação — especialmente a bergamota, descascada devagar, espalhando perfume pelas mãos e pela casa. À noite, o banho rápido, quase uma coragem diante das gotículas frias. Depois vinha a sopa, o pão, o mate compartilhado ao redor da mesa, a televisão ligada baixinho, o salame, o queijo, os jogos de carta e as histórias contadas sem pressa.
O que se perdeu talvez não tenha sido o frio, porque ele voltou. Talvez tenha sido outra coisa.
E ainda bem que muita coisa mudou. Hoje há mais conforto. As mães e avós já não precisam lavar roupa em tanque de pedra com água gelada puxada do poço em baldes pesados. O fogão a lenha deu lugar ao ar-condicionado — que, ironicamente, já ouvi dizerem até poder ser considerado um problema ambiental. Reflexos do nosso tempo, das nossas escolhas e da cultura que construímos.
Ainda existe a bergamota. Mas falta, muitas vezes, o aroma dela misturado à fumaça do fogão, ao cheiro do orvalho, ao silêncio das madrugadas frias.
Mesmo para quem não gosta do inverno, existe algo nele que nos obriga a diminuir o ritmo. O frio pede recolhimento, presença próxima, silêncio, conversa, pausa. Talvez por isso ele nos faça lembrar tanto de quem fomos.
E talvez esteja justamente aí a graça de viver o frio na Serra Gaúcha.
Mesmo com as dificuldades que ele traz — os dias mais duros, o desconforto, a vontade de permanecer encolhido — o inverno ainda nos oferece algo precioso: a oportunidade de voltar para perto. Perto da mesa, da família, das conversas demoradas, do calor humano que realmente importa.
É tempo de fortalecer o corpo com as frutas da estação, de dividir o chimarrão, de desacelerar um pouco e perceber que nem todo calor vem do sol. Alguns vêm da presença, da memória, do cuidado e dos encontros simples que aquecem a vida.
E então, quase sem perceber, o frio passa.
Mas aquilo que ele desperta em nós… deveria permanecer.