Durante anos, milhares de pessoas seguem suas rotinas, trabalham, mantêm relações e cumprem obrigações sem que nada, à primeira vista, pareça fora do lugar. Ainda assim, por trás dessa aparência de funcionamento regular, há um sofrimento persistente, silencioso e frequentemente naturalizado: a distimia, atualmente denominada Transtorno Depressivo Persistente. Diferente da depressão maior, marcada por crises intensas e bem delimitadas, a distimia se apresenta como um mal-estar contínuo, que se infiltra no cotidiano e passa, muitas vezes, a ser confundido com traços de personalidade, sobriedade excessiva ou simples cansaço de viver.
No Brasil, embora não existam dados oficiais amplamente divulgados que especifiquem exclusivamente a prevalência da distimia, estudos epidemiológicos mais amplos sobre transtornos depressivos indicam que esses quadros são relevantes. Segundo estimativas do Global Burden of Disease Study 2017, cerca de 1,04% da população brasileira apresentou distimia, dentro de um grupo maior de transtornos depressivos que atinge aproximadamente 3,3% da população. Esses transtornos ocupam posições de destaque entre as causas de incapacidade no país, com impacto significativo na qualidade de vida e no funcionamento cotidiano da população adulta. Globalmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 300 milhões de pessoas vivam com algum tipo de depressão, incluindo formas crônicas como a distimia, e que o Brasil figura entre os países com maior prevalência de depressão na América Latina e nas Américas.
O baixo humor que se torna modo de existir

A distimia não se manifesta apenas como tristeza constante. Ela se organiza de forma mais complexa, atravessando a maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma, com os outros e com a própria vida. De acordo com Andressa Vaccaro, psicóloga e consultora de Bioética Clínica do Hospital Tacchini, o transtorno deve ser compreendido para além de um conjunto de sintomas isolados. “Ao nível emocional, observa-se um estado contínuo de rebaixamento do humor, acompanhado por sentimentos de vazio, desalento e uma relação empobrecida com o desejo. Nestes casos, existe uma tendência a autodepreciação e a autocrítica severa, que costuma manter a pessoa, num estado de vivência de insuficiência e fracasso. A irritabilidade e a dificuldade de experimentar prazer não surgem apenas como sintomas isolados, mas como expressões de conflitos psíquicos persistentes e de perdas simbólicas que não puderam ser plenamente elaboradas”, explica. A especialista acrescenta que o comportamento destes pacientes é de viver no automático, respondendo às interações e obrigações, mas sem apresentar um envolvimento emocional com o que acontece.
Esse estado prolongado de desânimo costuma vir acompanhado de autodepreciação e autocrítica severa, além da neutralização do sofrimento. “Há um cansaço que não se resolve com descanso, uma perda de curiosidade pela própria vida e um empobrecimento progressivo das relações, que passam a ser mantidas mais por dever do que por desejo. No entanto, é um sofrimento que pode se tornar invisível, tanto para quem o vive quanto para quem está ao redor. O trabalho clínico, então, não é simplesmente corrigir o humor, mas ajudar as pessoas a se perguntar por que vive dessa forma e se esse modo de existir ainda lhe serve”, afirma Andressa.
Diagnóstico médico e distinção da depressão maior
Na avaliação psiquiátrica, distinguir a distimia da depressão maior é essencial para definir o tratamento mais adequado. Segundo Ricardo Maioli, psiquiatra e Consultor de Bioética do Hospital Tacchini, a principal diferença está no curso e na intensidade dos sintomas. “A distimia caracteriza-se por um humor deprimido de longa duração, presente na maior parte dos dias por pelo menos dois anos, com sintomas geralmente menos intensos, porém contínuos. Esse padrão leva a um estado prolongado de desânimo, baixa energia e visão pessimista do futuro, que muitas vezes é naturalizado pelo próprio indivíduo e pelo entorno, sendo confundido com traços de personalidade ou modo habitual de ser. A depressão maior, por sua vez, manifesta-se em episódios bem delimitados, com duração mínima de duas semanas, nos quais os sintomas atingem maior intensidade e produzem prejuízo significativo no funcionamento global. Além do humor deprimido ou da perda de interesse, são frequentes alterações marcantes do sono e do apetite, dificuldades importantes de concentração, lentificação ou agitação psicomotora, sentimentos intensos de culpa e, em alguns casos, ideação suicida. Do ponto de vista clínico, também é possível que episódios de depressão maior ocorram sobre um quadro distímico prévio, condição conhecida como depressão dupla, o que reforça a necessidade de uma avaliação cuidadosa para o correto diagnóstico e a indicação do tratamento mais adequado”, explica.
Quando o sofrimento se torna invisível até para quem o vive

Esse sofrimento crônico, por não explodir em crises evidentes, tende a passar despercebido também por familiares, amigos e colegas de trabalho. “O processo em psicoterapia possibilita, justamente, um caminho para a possibilidade de construção de sentido para esse mal-estar crônico, favorecendo a simbolização do sofrimento, a ressignificação das perdas e a reabertura do espaço psíquico para o desejo e para novas formas de relação consigo e com o outro”, observa a psicóloga.
Alterações do sono, do apetite e da capacidade de concentração também costumam acompanhar o quadro, tornando o dia a dia mais pesado, ainda que, aos olhos externos, tudo pareça estar em ordem. “Ela aparece, na maior parte das vezes, como uma vida vivida em tom baixo, sem grandes picos de dor, mas também sem entusiasmo”, afirma Andressa.
Mulheres, sobrecarga emocional e sofrimento autorizado
As estatísticas indicam que a distimia é diagnosticada com maior frequência em mulheres. No entanto, essa diferença não deve ser interpretada de forma simplista. Para Andressa, os números dizem menos sobre uma suposta natureza feminina e mais sobre fatores sociais e culturais que moldam a forma como o sofrimento é vivido e reconhecido. “As mulheres costumam ocupar lugares marcados por sobrecarga emocional, cuidado constante e exigências contraditórias, que pedem desempenho, equilíbrio e disponibilidade afetiva permanente”, explica. Esse cenário favorece um mal-estar contínuo, discreto, que não explode, mas se instala no cotidiano como cansaço de viver, desalento e perda de entusiasmo, características típicas da distimia.
Além disso, a psicóloga pontua que as mulheres tendem a reconhecer e expressar com maior facilidade o sofrimento psíquico, buscando ajuda profissional com mais frequência. Isso contribui para taxas mais elevadas de diagnóstico. Por outro lado, os homens aprendem, desde cedo, a não reconhecer o próprio sofrimento e a expressá-lo por vias socialmente mais aceitas, como irritação, isolamento, endurecimento afetivo ou hiperfuncionalidade. “Talvez a questão não seja se a distimia é mais comum em mulheres, mas se ela é mais visível nelas”, observa Andressa. A clínica, segundo a psicóloga, mostra que o sofrimento crônico atravessa os gêneros, ainda que se manifeste e seja reconhecido de maneiras distintas.
Mais de um diagnóstico

Quando o paciente apresenta mais de um fator clínico, é necessária uma avaliação cuidadosa para um planejamento terapêutico adequado. “A distimia pode apresentar outras comorbidades psiquiátricas, especialmente transtornos de ansiedade e transtornos de personalidade, assim como, transtornos por uso de substâncias, o que pode aumentar a cronicidade e o prejuízo funcional do quadro, mas não se trata de um padrão para todos os casos”, explica Maioli.
Psicoterapia: escuta e sentido
Ao contrário da lógica imediatista que muitas vezes marca a busca por soluções rápidas, a psicoterapia propõe um trabalho de longo prazo, especialmente nos casos de distimia. Para Andressa, seu valor está justamente em não prometer a eliminação instantânea de um sofrimento que se organiza de forma crônica. “A psicoterapia oferece um espaço em que a pessoa pode se escutar e interrogar esse mal-estar persistente, em vez de apenas suportá-lo ou combatê-lo como um defeito pessoal”, afirma. Ao longo do processo, o indivíduo começa a perceber como o sofrimento se articula à sua história, às escolhas feitas, às renúncias aceitas e aos ideais que passou a servir sem se dar conta.
Esse movimento não transforma a vida de forma mágica, mas modifica a posição do sujeito diante do próprio sofrimento. “O sintoma deixa de ser apenas um peso inevitável e passa a ser algo sobre o qual se pode pensar, escolher e, em certa medida, negociar”, explica Andressa. Esse deslocamento devolve à pessoa uma margem de liberdade e responsabilidade sobre a própria vida, fortalecendo a autonomia e a qualidade das relações.
Rotina, vínculos e pequenos investimentos na vida
Além do acompanhamento profissional, algumas estratégias cotidianas podem contribuir para a melhora da qualidade de vida de quem convive com a distimia. Segundo Andressa, a busca por maior estabilidade é fundamental. A organização de uma rotina estruturada, com horários regulares de sono, alimentação e descanso, a prática de atividade física adequada às condições individuais e o fortalecimento de vínculos sociais são elementos importantes. A manutenção de atividades com valor subjetivo, mesmo quando o prazer imediato não está presente, ajuda a sustentar o investimento na vida e a reduzir o impacto funcional do transtorno.
Medicação: quando é necessária e como atua
O tratamento medicamentoso não é uma regra absoluta na distimia. De acordo com Maioli, a indicação deve ser sempre individualizada. “Em quadros mais leves, a psicoterapia pode ser suficiente. Em situações de maior sofrimento ou longa duração, o tratamento medicamentoso tende a ser recomendado, muitas vezes em combinação com a psicoterapia”, afirma.

Os medicamentos mais utilizados são os antidepressivos, especialmente os inibidores seletivos da recaptação de serotonina e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina. Essas medicações atuam modulando neurotransmissores envolvidos na regulação do humor, da energia e da motivação. “É essencial destacar que a indicação de qualquer medicação exige uma avaliação cuidadosa realizada pelo psiquiatra, pois cada caso apresenta uma história singular, diferentes intensidades de sintomas, comorbidades e contextos de vida. Cabe ao psiquiatra avaliar riscos, benefícios, tolerabilidade e possíveis interações, além de definir dose, tempo de uso e necessidade de associação com psicoterapia. O acompanhamento contínuo permite ajustes ao longo do tempo, garantindo um tratamento individualizado”, ressalta o psiquiatra, que enfatiza a importância de não transformar o remédio em substituto da escuta clínica.
O risco do agravamento silencioso
Embora muitas vezes seja tolerada por anos, a distimia não é inofensiva. Existe o risco real de agravamento do quadro, especialmente quando não há acompanhamento adequado. “O risco de agravamento existe justamente porque a distimia é um sofrimento que, muitas vezes, se aprende a tolerar”, alerta Andressa.
Esse equilíbrio precário pode se romper diante de perdas, frustrações ou crises, levando à evolução para quadros mais graves. Do ponto de vista técnico, é frequente a sobreposição de episódios de depressão maior, além do aumento do prejuízo funcional, do risco de comorbidades psiquiátricas e da vulnerabilidade à ideação suicida. “O perigo não está apenas na intensidade dos sintomas, mas na resignação que eles produzem”, finaliza a psicóloga. Quanto mais o sujeito se convence de que viver assim é o que lhe cabe, menos recursos psíquicos tem para enfrentar as exigências da vida.
Maioli reforça essa preocupação e a necessidade de acompanhamento. “Como se trata de um sofrimento crônico, muitas vezes não há um “antes” e um “depois” muito claros, e sim momentos em que aquilo que era suportável deixa de ser. Por isso, falar apenas em recaída pode ser impreciso, o que costuma acontecer é uma piora, um esgotamento daquele equilíbrio frágil que vinha sendo mantido. O acompanhamento psiquiátrico ajuda justamente a evitar que esse ponto de ruptura chegue sem aviso. Não apenas pelo ajuste de medicação, quando ela é necessária, mas porque o seguimento cria uma forma de atenção ao próprio sofrimento, impedindo que ele volte a ser completamente naturalizado”, orienta.
Um sofrimento que não é “frescura”
Para Maioli, é fundamental combater a ideia de que a distimia seja fraqueza ou traço de personalidade. “A distimia não é “frescura” nem traço de personalidade. Trata-se de um quadro depressivo persistente, que pode durar anos. Por ser crônica e muitas vezes sutil, é comum que as pessoas convivam com ela sem perceber que há tratamento eficaz. Por isso, buscar ajuda profissional é fundamental: o acompanhamento psiquiátrico e psicológico adequado pode prevenir agravamentos”, finaliza.
Por ser crônica e muitas vezes sutil, é comum que as pessoas convivam com ela sem perceber que há tratamento eficaz. O acompanhamento psiquiátrico e psicológico adequado, segundo o médico, é essencial para prevenir agravamentos e devolver à pessoa alguma margem de escolha e desejo.