VIDA VIVIDA – INTRODUÇÃO

Quero fazer mais duas referências sobre minhas atividades na alfaiataria do meu pai. Eventualmente, eu era também cobrador, missão tipo aquelas impossíveis, cobrar de quem demorava para pagar. Assim, um dia ele me designou para ir até o 06 da Leopoldina, a pé, para cobrar débitos de dois agricultores, cujos nomes preservo. Lá fui eu, era longe, pedras pelo caminho, chegando lá “toc, toc, toc, seu lobo está?” A resposta vinha “tá nos parreirais”, a instrução era “esperar”, mas esperar “quem está se escondendo?” Quando “a lua vinha surgindo cor de prata, no alto da colina verdejante” eu voltava para casa “de mãos vazias”. Meu pai ouvia minha saga e me dizia “volta lá”. No dia seguinte eu voltava, aí peguei um deles que me pagou uma prestação, ele salvou minha vida de cobrador. Mas, teve mais. A cada 10 padres para os quais meu pai fazia batinas, dois não pagavam, principalmente aqueles “padrecos” lá da escola de padres de Viamão. Lá fui eu, designado a impor na cabeça dos aspirantes a padre que “conta feita é conta paga”! A logística foi a seguinte: bem cedinho, Bento-Porto Alegre. De POA a Viamão, ônibus, que me despejou na beira da estrada. Da estrada até o seminário, uns dois quilômetros, a pezito. Cheguei pelas duas da tarde, corredores internos vazios, silêncio total e eu ali, sentado no banco, sem saber o que fazer. De repente, passou uma “ovelha desgarrada”, um padre que me ajudou, dei o nome dos caloteiros e ele disse “vou chamá-los, espera aqui”. De fato, vieram; dos seis, dois me pagaram. Saí feliz da vida pois devo ter feito as contas da Dilma “se, de seis, dois não me pagaram equivale a dois terem me pago”. E vim embora, estrada – ônibus – rodoviária de POA – espera das 19 às 22 horas – ônibus da Unesul e chegada em Bento à 1 hora da madrugada – 1 km a pé da rodoviária até o Humaitá, onde morávamos, em meio à escuridão. Café da manhã, almoço, janta? Não lembro disso. O que eu lembro é que depois dessas duas cobranças de “longo alcance” fui desonerado ou descondenado de cobrador nos meus 16 anos.

O PADRE ENIO

O Dolmires Lunardi, o MENIN, me ligou dizendo que também foi coroinha da Paróquia Santo Antônio, préstimos compensados com ingressos da matiné do Cine Popular. Usando o linguajar italianês (italiano + português) do TREMEA disse que quando o pessoal batia o pé “levantava uma POLVADERA”. Tremea foi atleta do futebol amador que acabou sendo zagueiro e até técnico do Esportivo no tempo em que “não tendo outro tu, vai tu mesmo”. Era alto, forte, viril, tosco, tinha o estilo do Kannemann do Grêmio, com uma diferença: enquanto o KANNE persegue os adversários, o TREMEA os aguardava, “a bola passava, mas o jogador não, parava no armário”. O lema do Tremea era “bola pro mato que o jogo é de campeonato” e quando treinador, sua única instrução como treinador, fato folclórico e histórico, era a seguinte “CLAREOU CHUTOU, O RESTO É COM DEUS”! MENIN me lembrou também que, se tínhamos o rigorismo do padre Mânica, tínhamos também o contraponto, o PADRE ENIO TARASCONI. Cordial, atencioso, afetivo, conselheiro, Enio tinha um quê de São Francisco, os jovens estavam sempre em torno dele. A fila dele no confessionário tinha sempre umas 50 pessoas, senhoras e jovens. Na do padre Mânica, no máximo umas oito, aí, o que o MÂNICA fazia? Saia do confessionário pegava, pela orelha, as pessoas do padre Enio e levava para a fila dele. Um dia ele me pegou, minha orelha direita até hoje não voltou pro lugar. Nesse dia eu simplifiquei. Como no confessionário ele era inquisidor, eu não dei chance dizendo “padre, não matei, não roubei, o resto eu fiz tudo”. Irritado, ele me “condenou” a rezar 130 AVE MARIAS, mais uns PAI NOSSO, devendo umas 100 paguei em prestações, uma por dia. O padre Enio ficava todo o dia, após missa com casa cheia, no pátio da Paróquia, era fiel ao lema “vinde a mim as criancinhas pois elas serão o reino do céu”. Sua expressão “meu filho”, que vinha acompanhada com a mão na cabeça, era uma constante no seu entorno, sempre ocupado por muitos jovens. Ele constituiu um grupo de uns 300 jovens que, aos sábados à tarde, reuniam-se no Salão Paroquial Santo Antônio onde revelavam seus dotes musicais, defendiam suas posições religiosas, era uma instituição que me encantava, me inscrevi para fazer parte, não fui aceito. Fui ao Enio e ele me disse: “meu filho tu não tens perfil do grupo, tu entra e logo, logo, vai desistir e isso não é bom”. Fiz um lobby comunitário muito grande e acabei sendo aceito tempo depois. O Enio tinha razão, 60 dias depois desisti, tendo ido apenas a dois encontros. Fiquei muito constrangido e arrependido. O Padre Enio, que liderava os jovens; o Padre Chico, que dava assistência espiritual a empresas e famílias; e o Padre Bertholdo, poeta e galã, foram “afastados” pelo bispado. Um dia pedimos (eu e o meu parceiro Mauro Gasperin, festeiros de Santo Antônio), uma audiência em Caxias, com o Bispo Dom Paulo Moretto que, após a festa, havia transferido de Bento, sem nenhuma justificativa, os padres, grandes parceiros, Sady e Trubian. O Bispo nos atendeu numa sala em que estávamos aguardando há mais de uma hora. Formal, foi dizendo “bom dia, em que posso ajudar?”. “Porque os Padres foram transferidos, eminência?”. Aí veio a resposta curta e fria “os padres foram feitos para rezar missa e assistir os católicos”! E arrematou “alguma coisa mais?”, sem chance, foi se afastando e desapareceu. Deu vontade de pedir o lucro da festa de volta, ele deveria estar chateado com a gente por termos retido, nós com a concordância dos padres, parte do lucro para reformar a cozinha e pintar a Igreja. Sei lá, não foi um lance legal. Estamos cercados por psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, por todos os lados, no entanto eu reputo os conselhos e assistência espiritual dos religiosos e pastores como sendo muito importantes. Então devem sim ser líderes comunitários, estar no pátio ou dentro das paroquias recebendo as pessoas, ou dentro das residências, orientando as pessoas, aconselhando, levando a palavra de Deus, conscientes de que as famílias estão em crise, desajustadas, descrentes e os jovens desorientados. Porém, tem um detalhe, faltam padres, são raros os jovens dispostos a seguir a vida religiosa.

O SONHO DA BOLA

Esta semana visitei empresário, grande empresário, grandeza constituída pelas empresas, pela sua liderança, espírito comunitário e humildade. Ele tem dois filhos formados no ramo da engenharia, e tem dois netos. O guri de seis anos, quando o visita, monta um escritório e imita o vô na condução empresarial. Diante do elogio, ele logo faz o reparo: “tem uma coisa vô, eu vou ser jogador de futebol”. Tenho outros empresários amigos que têm filhos jogando futebol, outros pensando em jogar futebol. Quando eu era piá, também sonhava em jogar futebol, um jogador referência era PUSKAS, centroavante da seleção da Hungria. Mas, se não desse certo ser jogador, me servia ser artista de cinema, cantor, aviador da FAB ou piloto de carretera como Aristides Bertuol. Assim, corri atrás da bola o máximo que pude. Bola de gude, bola de meia, bola de tênis, bola nº1, nº3 e número 5. Meu momento sublime foi participar no grupo dos atletas que compunham o JUVENIL, agremiação esportiva do Centro da cidade que reunia atletas empresários, filhos de empresários e profissionais liberais. Darcy Pozza e Ademar de Gasperi foram jogadores habilidosos do JUVENIL, lembro do Geada, do Jacaré, do Sapinho, do Zanetti, do Penicilina, do Zeca Valduga. Subir naquele ônibus, aos domingos, para ir disputar competições era um deleite. Eu fazia parte do time reserva, não jogava nada, mas estava lá, estar na ponta direita era só um detalhe, procurava simplificar, bola nos pés, balão para a grande área e o sentimento de “missão cumprida”. Na volta, banho, “vestir a melhor roupa pra te ver, boate no Clube Aliança”. Dois episódios futebolísticos não saem de minha lembrança: um jogo em Cotiporã e outro na Linha Eulália Alta. Em Cotiporã se dizia que “ou perde o jogo ou apanha”. Não tinha jogo preliminar, nosso time ganhou, rolou a pancadaria e nós fugimos pela avenida JUVENIL com o ônibus em movimento embarcando do jeito que dava e levando o que dava. A partir daquele dia eu passei a denominar Cotiporã de “COTIPOCITY”, lembrando os filmes de faroeste. Na Eulália eu estava em campo. O zagueiro que me marcava era tipo Kannemann, tão forte que, ao invés de dirigir o trator, eu acho que ele “carregava” o trator pra debaixo dos parreirais. Cinco minutos de jogo, lá estava eu, na ponta direita livre com a bola nos pés junto ao barranco naquela goleira do lado esquerdo, quem conhece o estádio sabe do que eu estou falando. De repente olho e vejo aquele armário vindo na minha direção, ele me jogou lá no alto do barranco onde cai “estatelado”. Doía tudo, não tinha massagista, não tinha ambulância, no time não tinha médico, eu estava só, eu e minhas dores, levou um tempo para me carregarem dali. Triste episódio que me fez desistir de ser jogador de futebol de campo onde, além de não jogar nada, eu ainda apanhava. Jogo memorável pelo juvenil? Lá em Veranópolis contra o DALBAN, eu ‘tava em campo pelo time B, nas arquibancadas mais de duas mil pessoas. Foi nesse jogo que o folclórico Lírio Soares que, mais tarde, veio a ser prefeito, imortalizou a frase “porco dio, bateu na trave”. No jogo principal, jogador do DALBAN chutou, a bola bateu na trave e o Lírio saiu com essa.