VIDA VIVIDA: AS MINHAS OLIMPÍADAS

Eu deveria ter uns 16-17 anos. Estava envolvido no movimento estudantil, a UBE (União dos Estudantes de Bento) organizava a delegação que participaria das Olimpíadas Gaúcha dos Jogos Estudantis. Na condição de Membro integrante da delegação de Bento, atleta, reserva, é claro, da equipe de futebol de campo, participei de duas. Uma em Santa Cruz e outra em Alegrete. Em Santa Cruz fomos hospedados no Centro da cidade, num prédio desocupado do Banrisul, não tínhamos chance, nem a taça da disciplina a gente ganhava, era impossível bater Pelotas, Passo Fundo, Santa Cruz, Santa Maria, Porto Alegre, cidades com centros universitários que faziam a diferença, nem Caxias conseguia ganhar, em nenhuma das modalidades disputadas.

A OLIMPÍADA DE ALEGRETE

Fomos dispostos a ganhar em alguma modalidade, mas, principalmente sermos a delegação mais disciplinada. Para isso nos preparamos, eu não, a UBE. Na equipe de futebol foram “infiltrados” alguns atletas que não eram estudantes, mas foram credenciados como se fossem. Como técnico da equipe de futebol foi o MADALENA, (treinador de futebol – curandeiro – massagista) figura emblemática na comunidade. Como professor assistente foi o professor Léo Enzo Darrigo, que tinha uma particularidade, seu hobby era hipnotizar as pessoas. E lá fomos nós, Maria Fumaça para que te quero? Viajamos de pé pois a passagem era de graça, foram três dias dentro do trem, com baldeação (troca de trem) em Carlos Barbosa, Porto Alegre, Rio Pardo, Cacequi, Santa Maria, acho que foi por aí, a partir de Porto Alegre, o trem parecia um comboio boliviano, as pessoas entravam mas, junto com elas ou vinha uma galinha, ou um galo, ou um porquinho, uma gaiola com passarinho, além do “saco de viagem”. Era um amontoado de pessoas, como se tudo isso não bastasse, a bordo, embarcado com a delegação de Garibaldi tinha um “papagaio falante” que se chamava Victor Faccioni, discursou por 3 dias dentro do trem, ensaio que foi útil pois ele se tornou um político de expressão, foi um pouco de tudo na política, inclusive Deputado Estadual, Federal, Secretário de Estado, é um grande amigo. Na parada do trem em Rio Pardo ficou inolvidável em minha mente a subida da lareira e a visão do Rio Pardo, que desemboca no Jacui, e as planícies, palco de guerras que envolveram portugueses, índios, espanhóis e a luta pelos interesses do Rio Grande, a Guerra dos Farrapos.

NADA DEU CERTO

Depois de três dias e três noites, viajando de pé na “classe econômica”, porque era de graça, tendo como único “privilégio” ficar de pé em dois lugares: um, dentro do trem, outro, na estação, esperando a baldeação. Nem lembro se tinha mala, lembro da sacolinha do lanche noturno e diurno. A bordo do trem eu burlava a vigilância do “guarda trem” naquelas escadinhas dos vagões, o que era proibido por questões de segurança, meu plano de ação sempre dava certo. Chegamos em Alegrete com muita esperança, fomos alojados num colégio bem longe do Centro da cidade, sala ampla, todos juntos, os homens é claro, banheiro coletivo, técnico Madalena definindo a estratégia do primeiro jogo de futebol, que seria no dia seguinte. Hipnotizador a postos em cama vip, figura importante ele “vá que dê um piripaque em algum atleta e ele tivesse que ser anestesiado, quero dizer, hipnotizado”. Um dos objetivos do Léo era comprar queijo duro, parmesão, vindo do além fronteira, fizemos algumas “rodadas de queijo” com “água da torneira”, ilustradas pelas sessões de hipnotismo. O Léo fazia apostas, se ele não conseguisse hipnotizar, perdia “uma fatia de queijo”. A fila foi grande e eu entrei nela. Deitado, firme, fingindo estar hipnotizado, eu ria por dentro ouvindo o Léo dizer, “pronto, não enfrentei resistência”. De repente alguém gritou “deixa que eu faço o teste e, pegando os pelos de minha perna bradou” prá baixo não dói, pra cima dói”, quando ele puxou prá cima, eu dei um salto da cama, dói pra caramba, façam o teste. Bem hospedados, removida a fuligem da MARIA FUMAÇA, no dia seguinte, café coletivo, pão e margarina, uma fruta. No almoço, servido pelo exército, aquela fila imensa com todo mundo cantando o refrão do soldado “feijão, feijão, feijão, era só feijão, feijão”! Era só o que nos esperava “pelo resto de nossos dias”! A Olimpíada Estudantil, era organizada pela União Gaúcha dos Estudantes Secundários (UGES) com o apoio do Governo do Estado, Rede Ferroviária Federal e Municípios Anfitriões.

O DEVANEIO

Como eu disse, não tínhamos chance, aliás, tínhamos duas: ganhar a TAÇA DA DISCIPLINA, contava pontos, e ser CAMPEÕES NO FUTEBOL. Enquanto nas outras modalidades tínhamos “prata da casa”, atletas “puro sangue”, no futebol tínhamos um time bastante enxertado, ATLETAS FAKE, não estudantes registrados como estudantes e credenciados a competir. Fomos ao primeiro jogo no Estádio do Alegrete, isso depois de “encebar” as canelas e ouvir as preleções do Madalena que tinha mais a escutar do que a falar. Eu estava escalado, na reserva, “ponteiro direito de oficio, nas horas vagas”. Deixa estar que o titular, não lembro quem era, teve uma crise intestinal acompanhada da popular “cocozada”. Acreditem, virei titular. Chegamos no estádio, não tinha pai de santo para fazer a “limpeza”, no Esportivo tinha, os jogadores não abriam mão. Um dia, por medida de economia demiti o PAI, Santo era eu por dirigir um Clube de Futebol. Os jogadores se reuniram e resolveram bancar o dito, me pediram licença para que ele viajasse com a delegação, tudo bem, eu falei, e assim se fez. Após a limpeza do vestiário ele vinha me dar um relatório do meio ambiente. Num jogo lá em Rio Grande ele definiu o ambiente do vestiário como “pesado, jogo difícil”, falou. Agarrado no alambrado eu falei “vai ser difícil sim, eles vão vir pra cima mas nosso ataque é bom, vamos ganhar de 3×1”. E não deu outra. Eu quase sempre acertava os resultados, vitória e derrota. Entramos em campo no Alegrete, éramos uma esquadra, “preparada para ganhar”, o sol iluminava nossas canelas que refletiam no ambiente. Aquecimento, coisa e tal, dentro do campo, juiz, bandeirinha, mas, tinha uma coisa errada, cadê o adversário? Não apareceu, ganhamos o jogo por “WO”, mas, ditava o regulamento que tínhamos que dar a saída de bola e fazer o gol. Damos a saída, a bola rolando de um pro outro, do outro pro um, todo mundo brincando e eis que, de repente, a bola estava saindo pela linha de fundo foi preciso um “peixinho” salvador para reconduzi-la a caminho do gol, um a zero, fim de jogo. Lembro de ter visto um casal de QUERO-QUERO sobrevoando e certamente pensando “bando de palhaços vieram acordar nossos bebês”!

A PUNIÇÃO

Pela baderna a COMISSÃO DISCIPLINAR presente no estádio nos puniu ali mesmo com a perda de 5 pontos, fim do sonho, para conquistar o título não podíamos perder pontos. Voltamos a pé para o alojamento, ficava umas 10 quadras “que saudade do meu chinelo de dedo”. No caminho, o Ari Celso, o “jacaré”, foi quebrando, uma a uma, as lâmpadas dos postes, pedras não faltavam, as ruas não tinham calçamento, ele jogava pedra, e gritava indignado “não somos disciplinados? Então não vamos ser”. Quem conheceu o ARI sabe do que ele era capaz. Eu não lembro de ter tido um segundo jogo, acho que em razão do quebra quebra, fomos punidos com a desclassificação. Nunca ganhamos nada em olimpíada nenhuma e em nenhuma modalidade.

SAUDADE DA MÃE

Frustação total, pela primeira vez eu ia ser titular numa equipe e o adversário não apareceu; me acusaram de indisciplinado e eu não era; a comida era “feijão, feijão”, não era da minha mãe; o alojamento era longe, as competições espalhadas, não tínhamos torcidas; fazer o que da minha vida no Alegrete, se nem dinheiro para comprar queijo eu tinha? Confesso, confesso que eu chorei em silêncio, por 3 noites, COM SAUDADE DA MINHA MÃE. Dos 6 aos 8 anos fiz, com motorista, duas viagens a São Paulo e uma pro Rio, não chorei e, nos meus 17 anos, no Alegrete, por três noites, eu chorei! Enviei uma mensagem de “ME TIREM DAQUI” e não é que o MADALENA, o técnico, falou “tô voltando pra casa” e eu supliquei “posso ir com o senhor?” e ele falou, diplomaticamente, “sem dúvida”! E vim embora, cheguei a viajar sentado em certas horas, não sem o rabo de uma galinha ou de um galo no meu focinho ou de um porquinho fuçando nas minhas pernas. Nas baldeações, o “Santo” Madalena, eu o promovi de curandeiro a SANTO, me protegia. Nunca mais fui a uma olimpíada estudantil. Tem gente aí, aqui em Bento, que pode confirmar minha “HISTÓRIA OLÍMPICA”.