Em Bento Gonçalves, Hospital Tacchini atua para reverter queda nas doações de órgãos e ampliar o diálogo com as famílias

Criado em 1997, o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) consolidou-se como referência mundial na coordenação e regulação de doações e transplantes no Brasil. O processo tem início quando a Central de Transplantes entra em contato com o médico responsável pelo paciente receptor, que avalia a compatibilidade e decide pela aceitação ou não do órgão ofertado.

De acordo com dados atualizados do Ministério da Saúde, o país realizou 7.098 transplantes de órgãos e 12.746 transplantes de córnea em 2025, um total de 19.844 procedimentos. Apesar do volume expressivo, a fila de espera ainda é um desafio: 80.546 pessoas aguardam por um órgão ou tecido, sendo 47.286 por um órgão sólido e 33.260 por uma córnea.

O rim permanece como o órgão mais transplantado e também o mais demandado, enquanto 43.867 pacientes ainda esperam por um doador compatível.

Desafios e perfil dos transplantes

Entre as transferências de órgãos, o rim lidera com 4.746 procedimentos, seguido por fígado (1.868) e coração (304). O perfil dos receptores mostra predominância masculina nos transplantes de órgãos (62%) e feminina nos de córnea (54%).

A faixa etária entre 35 e 49 anos concentra o maior número de receptores e pessoas na lista de espera, reforçando a importância da doação entre a população economicamente ativa.
O estado de São Paulo segue como líder nacional em número de transplantes e em pacientes na fila.

Fila de espera ainda é o principal obstáculo

O rim concentra a maior demanda, com 43.867 pessoas na fila, sendo 25.648 homens e 18.219 mulheres. Já para fígado, são 2.305 pacientes, e para coração, 448. As listas também incluem espera por pâncreas, pulmão e intestino, evidenciando a complexidade do sistema e a urgência da conscientização sobre a doação.

Quem pode doar órgãos

A doação pode ser feita por doadores vivos ou falecidos, desde que exista compatibilidade sanguínea e autorização legal. No caso de doadores vivos, é possível doar um dos rins, parte do fígado, medula ou pulmões, desde que o voluntário seja maior de idade, saudável e consentido.
Parentes até o quarto grau e cônjuges podem doar sem necessidade de autorização judicial; para não parentes, é exigida decisão da Justiça.

Nos casos de morte encefálica, a doação ocorre mediante autorização da família, após confirmação do diagnóstico e acompanhamento da equipe médica. Nesses casos, é possível doar rins, coração, pulmões, pâncreas, fígado, intestino e tecidos como córneas, válvulas, ossos e pele.

Critérios e restrições

Embora não existam limitações absolutas, o processo requer identificação da causa da morte e ausência de doenças infecciosas ativas. Pessoas sem documentação ou menores de 18 anos sem consentimento dos responsáveis não podem doar.

Identificação e autorização da doação

O reconhecimento de um possível doador é feita pelas Organizações de Procura de Órgãos (OPO), em parceria com as Comissões Intra-hospitalares de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante. Essas equipes atuam em hospitais notificantes, responsáveis por detectar casos de morte encefálica e viabilizar a doação.

Após a autorização familiar, a central estadual é notificada e o processo segue com testes de compatibilidade entre doador e receptores da lista. Quando há mais de um paciente compatível, a escolha é feita com base em tempo de espera e urgência do procedimento.

Em seguida, a Central de Transplantes comunica os hospitais e coordena toda a logística, desde o deslocamento das equipes médicas até o transporte dos órgãos.

Nos casos de parada cardiorrespiratória, a doação de tecidos também é possível, respeitando os critérios médicos e mediante autorização da família.

Tacchini reforça conscientização em Bento

O Hospital Tacchini apresentou variação significativa nos números de doações de órgãos e tecidos nos últimos dois anos. Em 2023, a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) contabilizou 73 órgãos doados, resultado que refletiu o aumento nas notificações e na adesão familiar ao processo. Já em 2024, o número caiu para 58 doações, uma redução que, segundo a enfermeira Ana Turmina, responsável pela comissão, está relacionada a fatores clínicos e emocionais. “Em 2024 tivemos menos doações, e o que ocasionou esse baixo número foram principalmente óbitos com idade superior a 80 anos, casos sem condições clínicas para doação e a negativa familiar, já que muitas pessoas não deixaram registrado em vida o desejo de ser doador”, explica Ana.

De acordo com ela, a recusa familiar continua sendo o principal entrave. “As famílias não costumam conversar sobre o assunto em casa. Muitas evitam falar sobre a morte, e, quando chega o momento da entrevista, os parentes acabam sem saber qual era a vontade do ente falecido e, por isso, optam por não autorizar a doação”, relata.

Entre janeiro e setembro de 2025, o hospital registrou quatro protocolos de morte encefálica, sendo dois possíveis doadores e dois não doadores. O número, embora pequeno, reflete a complexidade do processo, que envolve desde a constatação da morte cerebral até o encaminhamento ao centro cirúrgico. “Sempre que o médico constata morte cerebral, um enfermeiro da equipe da CIHDOTT acompanha todo o procedimento, seja o paciente doador ou não”, detalha.

O trabalho da equipe envolve uma série de etapas técnicas e emocionais. “Nas doações de tecidos, feitas com o coração parado, o procedimento leva em torno de uma hora e meia. Já nas doações de múltiplos órgãos, o processo pode se estender por até 24 horas a partir do aceite familiar”, esclarece. Ela acrescenta que, por se tratar de uma cidade do interior, há desafios logísticos que impactam o andamento das captações. “O aeroclube oferece horários de pouso e decolagem apenas das 9h às 18h e somente com boas condições climáticas. Além disso, são necessários dezenas de exames, o que exige mais tempo para liberação dos laudos”, explica.

A equipe do CIHDOTT, formada por enfermeiros especializados, acompanha o processo do início ao fim, atuando tanto na parte técnica quanto no acolhimento humano. “Informamos sobre o andamento do processo e orientamos a equipe médica sobre os cuidados com o doador até o encaminhamento ao bloco cirúrgico. Também encaminhamos toda a documentação exigida pela Central Nacional de Transplantes”, destaca.

A comissão trabalha em conjunto com a Central Estadual de Transplantes e com a Organização de Procura de Órgãos (OPO 3), sediada no Hospital Pompéia, em Caxias do Sul. “Cada hospital tem sua própria equipe, mas a OPO 3 é nossa parceira para garantir que o processo ocorra dentro das normas e sem falhas”, afirma a enfermeira.

Além das captações, o Tacchini tem investido em ações educativas e de conscientização. “Realizamos palestras em escolas e empresas, distribuímos folders e fazemos campanhas em parceria com a OPO 3 e a Central de Transplantes. Nossa meta é sempre obter o ‘sim’ das famílias”, enfatiza Ana.
O trabalho, no entanto, não é apenas técnico, também envolve forte carga emocional. “Sempre que ocorrem doações, ficamos tensos e abalados com o sofrimento das famílias. O Tacchini possui um serviço de psicologia que oferece apoio tanto aos familiares, durante as entrevistas, quanto às equipes envolvidas”, revela.

Mesmo diante dos desafios, o CIHDOTT segue com foco na humanização do processo e na ampliação do diálogo sobre doação de órgãos no município. “Quanto mais as pessoas conversarem sobre o assunto e deixarem claro seu desejo, mais vidas poderão ser salvas”, conclui.