Por décadas, o grafite e outras artes de rua vêm transformando o espaço urbano em palco de disputas simbólicas, pertencimento e identidade. Em Bento Gonçalves, essa história é feita de fases, avanços, resistências e, sobretudo, da persistência de artistas que seguem ocupando muros, viadutos e fachadas como forma de expressão cultural e social. A cena local, fortemente ligada à cultura hip hop, revela tanto o potencial transformador da arte urbana quanto os desafios enfrentados por quem escolhe a rua como suporte.

Para o produtor cultural e B-boy Pedro Festa, o hip hop é hoje a manifestação urbana que mais se destaca no município. Breaking, rap e grafite, segundo ele, conquistaram reconhecimento dentro e fora da cidade, seja por premiações, circulação de artistas ou repercussão de trabalhos autorais. Ainda assim, Festa observa que a relação entre o poder público e a arte urbana já foi mais próxima. “São momentos. Já houve mais parceria, hoje ela é menor, mas nada impede que isso volte a acontecer”, avalia, citando experiências anteriores em espaços como CAPS, Praça do Progresso e outros equipamentos públicos.

Mural de Duarte no Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSI)

Festa também chama atenção para uma confusão recorrente entre grafite e muralismo. Enquanto o muralismo muitas vezes atende a demandas temáticas específicas, frequentemente ligadas à imigração italiana, o grafite nasce da ocupação espontânea do espaço urbano e carrega uma identidade própria. “O grafite, o breaking e o rap são expressões genuinamente urbanas. Elas dialogam com a cidade real, com quem vive nela hoje”, afirma. Para ele, a arte nos muros vai além do turismo: trata-se de identidade e pertencimento. “Sinto que também essa representação faz com que pessoas que gostem de uma outra cultura que não a tradicional europeia na cidade se sintam representadas, valorizadas, mas mais do que isso, pertencentes. Mais do que pensar no turismo, é pensar na população local também. Eu acho que o grafite pode contribuir com isso, mudar o espaço”, evidencia.

Integração

Essa noção de pertencimento aparece com força na trajetória do grafiteiro e escritor de grafite Bernardo Silva Duarte, conhecido como VENT. Natural de Bento Gonçalves, artista negro e com mais de nove anos de atuação na arte urbana e mais de uma década na cultura Hip Hop, Duarte teve seu primeiro contato com o grafite ainda em 2014, ao estudar no Colégio Estadual Landell de Moura, cujos muros haviam sido pintados durante eventos do Battle In The Cypher, tradicional naquele período. A decisão de se dedicar profissionalmente à linguagem veio em 2021, quando passou a investir no aprimoramento técnico, na construção de estilo próprio e na participação em eventos pelo país.

Criações

Hoje, Bernardo tem trabalhos espalhados por diversos estados brasileiros e até fora do país, mas mantém uma relação direta com a cidade onde nasceu. Sua obra se destaca pelo uso de letras em wild style e piece style. “Ainda estou trabalhando na construção do meu próprio estilo de pintar minhas letras para um dia ser reconhecido. Hoje em dia meu trabalho está tendo cada vez mais uma estética consolidada, mas ainda estou estudando maneiras diferentes e efeitos diferentes na hora de pintar. O que mais me influencia é perceber a capacidade e liberdade que temos dentro do graffiti de criar novos estilos, efeitos e trazer para a parede algo único”, frisa.

Arte presente na Rua Florianópolis, 104, bairro Botafogo

Além disso, em suas obras, há a presença recorrente da representatividade negra, especialmente de mulheres pretas. “Essa vontade nasce percebendo como é a realidade na cidade onde moro, é difícil para pessoas pretas se identificarem com a cidade, percebo isso através dos lugares que frequento e das diversas situações de racismo que já passei. É uma das maneiras que eu encontro de trazer essa representatividade para as pessoas se enxergarem pertencentes”, explica.

A rua, para ele, é o espaço fundamental deste tipo de manifestação. “Tenho para mim que o grafite tem que estar na rua antes de estar em qualquer outro lugar, ele nasce neste espaço e traz uma transformação necessária, é a maneira mais democrática de produzir arte e fazer com que ela seja vista por todos. Quando se trata desta arte estar na galeria vai depender de quem está expondo. Tem pessoas que conseguem levar a atmosfera da rua para a galeria, nesse caso eu acho incrível, mas percebo também que lá há obras que dizem ser grafite, porém não carregam uma identidade, estilo próprio e nem mensagem”, avalia.

Desafios

No entanto, a atuação no espaço público nem sempre é tranquila. Duarte relata abordagens policiais frequentes, desconfiança e denúncias. “A maioria das pessoas não tem o entendimento da importância da arte estar na rua, é uma certeza de que se o trabalho que estou fazendo é autoral e não um trabalho que retrata a cultura dos imigrantes italianos, sempre vai haver denúncias e uma resistência da parte dos moradores. É comum toda vez que eu vou produzir uma obra ter que me deparar com viaturas da polícia me abordando para entender se o que estou fazendo tem autorização, se estou fazendo pixação e grafite. Nessas diversas abordagens já fui desrespeitado, abordado de uma maneira agressiva.

Rua Guilherme Fasolo, 712, bairro Maria Goretti

Recentemente Duarte também percebeu até atos de vandalismo contra seus murais. “Em um deles, onde trago uma letra de grafite e a figura de duas mulheres pretas sorrindo. Em cima do rosto da personagem riscaram a parede e deformaram a parte do rosto, estragando a pintura que estava com uma qualidade muito boa. Essa foi uma das situações que mais me revoltou”, conta.

Em contraste, nas vilas e comunidades periféricas, a recepção costuma ser acolhedora, com apoio dos moradores e facilidade para conseguir muros autorizados. “O pessoal compreende e abraça. Facilmente consigo ajuda dos moradores, muros autorizados com mais facilidades e um sentimento de gratidão da parte deles por estarem recebendo um trabalho que traz uma transformação positiva para rua e bairro”, diz.

Segundo ele, aprender a modalidade se tornou muito mais fácil. “O acesso ao conhecimento é facilitado hoje através das redes sociais. Graças a isso diversas pessoas têm informações de festivais em diferentes lugares do Brasil, tem a possibilidade de se inscreverem e ter esse intercâmbio”, destaca.

Obra que virou capa de livro está na Rua General Gomes Carneiro, 375

No entanto, ele acredita que a internet impacta de uma maneira negativa quando pessoas pegam para reproduzir a arte que já existe, copiar a obra e o estilo de outros artistas. “Não é algo nenhum pouco legal e nem justo”, salienta.

Preconceitos

Para quem ainda associa grafite ao vandalismo, Duarte reflete que gostaria que as pessoas se dessem o trabalho de entender um pouco mais sobre a arte urbana como um todo. “Com o passar do tempo ganha novos ares, entra na área da moda, nas galerias, escolas e vem ganhando cada vez mais espaço e potência. Muitas vezes impacta de maneira diferente e traz uma denúncia de crimes que realmente são muito graves, crimes ambientais, corrupções, diversas dificuldades que toda sociedade brasileira sofre e enfrenta em suas diferentes realidades. O grafite se faz necessário, mas ainda hoje é visto como um dos piores crimes”, frisa.

Destaques na trajetória e futuro

Ele considera um marco pessoal e simbólico na carreira o graffiti do “Memórias do Rolê”, projeto cultural e colaborativo criado por Festa, com parceria de Duarte e outros artistas, focado em registrar a história do Hip Hop local. “Foi uma obra que se tornou um marco para mim, um grafite no Viaduto no centro da cidade que se tornou a capa do livro do Pedrinho Festa, e através dele meu trabalho pode circular por diversas cidades do RS e do Brasil, inclusive me levando junto para participar de bate-papos sobre o livro”, revela. A publicação editorial traz relatos, fotos e vivências da comunidade, tendo sido lançado oficialmente em dezembro de 2023.

Duarte detalha os próximos projetos. “Esse ano minha meta é estar presente nos maiores festivais que acontecem no Brasil, passando pela região Sudeste, Nordeste e Sul do país. Pretendo continuar promovendo eventos e encontros na cidade e com certeza murais em maiores proporções com intuito de evoluir meu trabalho e me reafirmar enquanto artista. Planejo participar de editais e de maneira independente também produzir atividades culturais que incluam o grafite dentro de escolas e comunidades, trabalhando a inclusão de Pessoas com Deficiência (PcDs), com fácil acesso, pensando em contribuir para o crescimento da cena cultural do município. Acredito que aos poucos a cidade irá compreendendo cada vez mais a importância de abrir espaço para essa arte tão bonita”, evidencia.

Por fim, ele pontua algumas referências e experiências de outras cidades que poderiam inspirar na região políticas culturais voltadas às artes. “Sobre ações de fomento e valorização, é legal citar alguns festivais e encontros. Em Curitiba acontecem eventos como o Street of Styles, que recebe um apoio direto do município para realização, que reúne pessoas de diferentes regiões, promove trocas culturais e transforma cidades em ‘galerias a céu aberto’. Também tem incentivo a grandes murais que visam regenerar áreas urbanas degradadas, o que contribui para o aumento do capital social e economia local. Ações que visam incluir grafiteiros em editais de cultura são importantes, reconhecendo seu valor artístico e permitindo que a arte urbana seja uma forma de sustento e de expressão”, finaliza.

Diferentes perspectivas

Outro olhar que compõe o mosaico da arte urbana em Bento Gonçalves é do venezuelano Angel Lucena. Imigrante, ele encontrou na cidade oportunidades que não teve em seu país de origem, marcado por dificuldades econômicas. O grafite, presente em sua vida desde a Venezuela, tornou-se também um meio de inserção social e profissional no Brasil. “Fazia no meu país por paixão mesmo, com poucos recursos. Muitas portas se abriram para eu poder demonstrar meu talento e tivemos muita receptividade local. Quando cheguei, já aconteciam na cidade eventos da cultura hip hop bem organizados, que de forma imediata me envolvi tanto em Bento como em cidades vizinhas”, relata.

Obra de Lucena em homenagem ao município

Lucena atua tanto no grafite autoral quanto no comercial, com obras em restaurantes, escolas, oficinas e espaços públicos. Para ele, o grafite tem papel direto na transformação da cidade, levando alegria e inspiração a quem passa. Ainda assim, reconhece que Bento Gonçalves poderia oferecer mais espaços específicos para artistas urbanos se expressarem. Entre seus sonhos estão grandes murais autorais em empenas (laterais) de prédios, capazes de gerar impacto visual e simbólico. “Em algumas outras oportunidades já deixei o desenho da bandeira de meu país nas obras. O fato de ser imigrante me deixa um compromisso maior, que me leva a entregar obras bem feitas para ganhar mais confiança e respeito”, afirma.

Lucena destaca projetos realizados com um significado especial, como o na vinícola Aurora, dos 150 anos da imigração italiana, no Clube Aliança (homenagem a lugares icônicos da cidade) e na rótula da Fasolo (homenagem aos heróis das enchentes).

O grafiteiro aponta um conselho final para jovens que veem o graffiti como forma de expressão e profissão. “Continuem se esforçando sem deixar de acreditar, pois é muito possível viver fazendo o que amamos”, finaliza.

Apesar das diferenças de trajetória, os três artistas convergem em um ponto: a arte urbana segue viva, mesmo diante da resistência.