Programa alia teoria e prática em ambiente humanizado e amplia oportunidades na Serra Gaúcha
A residência médica é uma das etapas mais decisivas na formação dos profissionais da saúde. É nesse momento que o conhecimento teórico ganha forma prática e o futuro médico aprende a atuar diante de situações reais, sempre sob supervisão. No Sistema Único de Saúde (SUS), essa vivência torna-se ainda mais significativa por aproximar o profissional da realidade social e estrutural do país. Na Serra Gaúcha, programas como o do Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, e o curso de Medicina da Univates, em parceria com a rede pública, têm se destacado por unir técnica, ética e empatia na formação médica.
Tacchini forma médicos com o “DNA da empatia”

Desde 2022, o Hospital Tacchini consolida-se como referência regional ao oferecer residência médica nas áreas de Pediatria e Clínica Médica. Mesmo sem ser oficialmente um hospital de ensino, a instituição já colhe frutos da iniciativa coordenada pela Comissão de Residência Médica (COREME), que busca formar especialistas tecnicamente preparados e comprometidos com os valores humanos que caracterizam o atendimento do hospital.
A coordenadora da COREME, Dra. Simone Caldeira Silva, explica que a residência é uma pós-graduação que alia teoria e prática intensiva. “A residência médica é uma especialização que exige dedicação integral. Cada residente cumpre 60 horas semanais, entre plantões e aulas teóricas. É uma formação completa, que prepara o médico para lidar com a rotina hospitalar de forma segura e ética”, declara.
Segundo ela, o hospital opta pela prova da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs) para selecionar os residentes, garantindo um processo reconhecido nacionalmente. “Optamos pela prova da Amrigs porque ela tem tradição e credibilidade. Recebemos candidatos de diferentes regiões do país, o que eleva o nível do processo seletivo”, explica.
Atualmente, o programa oferece seis vagas de Pediatria e oito de Clínica Médica, com turmas em diferentes estágios de formação. A residência tem duração de três anos para pediatras e dois para clínicos, e já está em expansão. “Estamos ampliando mais duas vagas de Pediatria e uma de Neonatologia, e solicitando bolsas federais para esses novos residentes”, informa Simone.
Mais do que capacitar tecnicamente, o objetivo é desenvolver profissionais sensíveis ao cuidado humano. “A gente quer formar médicos com o DNA do Tacchini: empáticos, éticos e preparados para ouvir o paciente. A residência aqui não é mão de obra barata, é aprendizado supervisionado. Sempre há um médico preceptor acompanhando o residente”, ressalta.
A médica residente Pietra Dal Sasso Graça, no segundo ano de Pediatria, reforça o caráter acolhedor e colaborativo do programa. “Eu sempre quis ser pediatra e escolhi o Tacchini porque é o hospital da minha cidade, com uma equipe muito aberta e humana. Aqui, o aprendizado é prático, mas sempre acompanhado. A gente discute casos com os preceptores, tem liberdade para propor condutas e é incentivado a crescer como profissional”, afirma.
Os residentes passam por diversos setores, enfermaria, pronto-socorro pediátrico, UTIs neonatal e pediátrica, ambulatórios e salas de parto, o que amplia a experiência clínica e a autonomia. “A rotina é intensa, com plantões noturnos e atividades teóricas semanais, mas é extremamente gratificante ver a evolução dos pacientes. Mesmo cansados, a gente vibra com cada melhora”, comenta Pietra.
As aulas de bioética, criadas a partir do Comitê de Bioética do hospital, também são destaque do programa. “O médico precisa ser técnico, mas sem perder o lado humano. Essas rodas de conversa ajudam os residentes a lidar com situações delicadas e a manter o equilíbrio emocional”, destaca Simone.
O aprendizado é constantemente avaliado por meio de provas teóricas e práticas. “O residente precisa demonstrar o que aprendeu. Se não atingir os objetivos, pode ser desligado do programa. Nosso compromisso é com a excelência”, afirma a coordenadora.
Além de beneficiar os próprios alunos, a presença dos residentes também aprimora o atendimento da instituição. “A residência nos faz revisar protocolos, atualizar rotinas e qualificar o atendimento. É um ganho para o hospital e para a comunidade”, avalia Simone.
Com quatro anos de existência, o programa já forma profissionais que permanecem na região. “A maioria dos médicos que conclui a residência fica no Tacchini ou em unidades parceiras, como o Hospital São Roque, em Carlos Barbosa. Eles conhecem o perfil dos pacientes, as rotinas e compartilham dos valores da instituição”, relata.
Prestes a concluir sua formação, Pietra pretende seguir o mesmo caminho. “Pretendo continuar em Bento. O Tacchini é um hospital completo, que oferece estrutura e oportunidade de crescimento. É um orgulho poder trabalhar onde aprendi tanto”, diz.
O hospital estuda, ainda, abrir novas áreas de residência conforme a capacidade das equipes e setores. “Nosso foco é crescer com responsabilidade, mantendo a qualidade e o acompanhamento próximo dos residentes. Formar bons profissionais é a melhor forma de retribuir à comunidade que confia no Tacchini há mais de um século”, conclui Simone.
A vivência no SUS e o olhar humanizado da Univates
O médico de Família e Comunidade e preceptor da Univates e do Hospital Tacchini, Daniel do Nascimento Antonio, reforça que a residência médica ganha relevância especial quando realizada dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Para ele, essa experiência consolida o aprendizado técnico e desenvolve o compromisso ético e social do profissional.
Ele explica que o ingresso em programas vinculados ao SUS ocorre após a conclusão da graduação, por meio de processos seletivos unificados, como o Exame Nacional de Residência Médica (ENARE), ou editais estaduais e municipais. “Uma vez aprovados, os residentes recebem bolsa do Ministério da Saúde e atuam em unidades do SUS vinculadas à instituição formadora”, declara. Segundo ele, esse modelo garante experiência prática desde o início da especialização e promove integração entre ensino e serviço.
Entre as especialidades mais procuradas, Daniel cita Dermatologia, Anestesiologia, Oftalmologia e Otorrinolaringologia, devido à boa remuneração e carga horária equilibrada. No entanto, nas residências ligadas ao SUS, predominam áreas como Clínica Médica, Cirurgia Geral, Pediatria e Ginecologia e Obstetrícia. “Essas áreas têm forte ligação com a atenção básica e refletem as necessidades do sistema público. A procura por Medicina de Família e Comunidade cresce de forma discreta, mas constante”, observa o preceptor.
Na Univates, o curso de Medicina prioriza uma formação prática e próxima da comunidade, com grande carga horária dentro do SUS. “Nosso currículo integra aproximadamente 60% de carga horária prática na rede pública”, relata Daniel. Ele explica que os alunos passam por Unidades Básicas de Saúde, UPAs e hospitais, participam de ações comunitárias e utilizam metodologias ativas, como o problem-based learning (PBL), aplicadas a situações reais da rede pública. “Isso prepara o estudante para lidar com a diversidade de demandas e com a limitação de recursos do SUS”, acrescenta.
Apesar da importância do aprendizado, o médico reconhece que os desafios são muitos. “Os principais obstáculos são a sobrecarga de trabalho, a escassez de insumos e a infraestrutura precária em algumas unidades, além do burnout decorrente da exposição a situações emocionais complexas”, comenta. Ele reforça que “é essencial que o sistema invista mais no bem-estar físico e mental desses profissionais” para garantir a qualidade da formação e do atendimento.
A parceria entre instituições de ensino e unidades de saúde, segundo Daniel, é essencial para o bom funcionamento das residências. “Há planejamento conjunto de rodízios, capacitação mútua e avaliações de desempenho, garantindo que a prática atenda tanto às necessidades do SUS quanto aos objetivos educacionais”, detalha.
Para o preceptor, o diferencial da residência dentro do SUS é a formação humana que ela proporciona. “O médico aprende a enxergar o paciente no contexto social, familiar e comunitário, não apenas a doença. Aprende a lidar com desigualdades e a trabalhar em equipe, o que fortalece sua resiliência ética”, destaca.
Mesmo com incentivos como bolsas e programas de educação continuada, Daniel reconhece que ainda há limitações. “Há cerca de 75 mil vagas de residência no país, mas 30% permanecem ociosas, especialmente em áreas remotas ou menos atrativas”, observa. Ele defende mais oportunidades em atenção primária, “para suprir o déficit de médicos no interior e reduzir desigualdades regionais”.
Ao avaliar o futuro da residência médica, o preceptor defende investimentos estruturais e pedagógicos. “É necessário investir em infraestrutura, aumentar bolsas, fortalecer programas de saúde mental e ampliar parcerias público-privadas, sem comprometer a equidade do SUS”, conclui.
Para Daniel, a residência médica é “o padrão ouro da formação médica”, por transformar o conhecimento acadêmico em competência profissional. “Ela é a ponte entre a graduação e a prática ética, um espaço onde o médico desenvolve autonomia, competência e compromisso social”, finaliza.





