Enquanto o mercado global já absorveu os impactos de conflitos passados, como o da Ucrânia, a nova escalada no Irã traz um alerta severo para o setor produtivo. O petróleo não é apenas o combustível que move navios e caminhões; ele é a âncora de toda a cadeia de plásticos, resinas e derivados que abastecem a indústria. Com a produção iraniana sob ataque e rotas logísticas bloqueadas, a lei da oferta e da procura entra em cena de forma punitiva.
Mesmo em nações que apostam na frota elétrica, a dependência do óleo e do gás para a geração de energia mantém os custos elevados, evidenciando que a base energética mundial ainda é profundamente vulnerável a instabilidades no Oriente Médio.
De acordo com dados divulgados pela Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), a escassez de diesel já afeta cerca de um terço dos municípios gaúchos. O monitoramento atualizado aponta que 170 cidades relatam dificuldades na compra do combustível, colocando em risco a continuidade de serviços públicos essenciais e o escoamento da safra agrícola. Ao todo, 392 prefeituras responderam à pesquisa.
De acordo com Mosár Leandro Ness, economista e professor da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a guerra afeta diretamente três dimensões: pessoas, produção e logística. “Primeiro, o conflito está afetando a própria população iraniana, de uma maneira impactante. O segundo ponto é que várias refinarias e unidades de produção de petróleo no Irã foram bombardeadas, porque a gente sabe que a espinha dorsal de uma economia, no caso da economia iraniana, é a produção de petróleo, então ela tem que ser quebrada, porque isso tira a possibilidade de amealhar recursos para que a gente consiga manter a guerra. Então, primeiro você tem que começar desgastando a economia e a produção no país que está em guerra. E, no caso logístico, ela afeta, principalmente, o estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial e que é controlado pelo Irã”, explica.
O economista recorda que o mercado de commodities é regido estritamente pela lei da oferta e da procura. Ele pontua que, assim como o conflito na Ucrânia desestabilizou o preço de cereais como trigo, milho e soja, a crise atual no Irã desloca essa pressão para a base energética, provocando um novo choque inflacionário global. “E mesmo os carros elétricos, em alguns países, a geração de energia elétrica depende da produção de petróleo ou de gás”, complementa.
Segundo o especialista, ainda não há uma escassez efetiva do recurso natural, mas esse cenário pode se concretizar em breve. “O que estamos observando é a quebra do fluxo de entregas, um reposicionamento das cadeias de suprimento de petróleo”, afirma Mosár.

Impacto direto
Diferente de outras nações que seguem sanções mais rígidas, o Brasil mantém uma corrente de comércio direta com o Irã, o que amplia a vulnerabilidade diante do conflito. A relação é baseada na troca de commodities: o Brasil exporta carne de frango e importa petróleo, óleo diesel e fertilizantes. “Vai nos atingir mais porque nesse momento, nos preparamos como uma fonte alternativa. Tem que ter a dimensão de que um país, ou uma indústria, ou uma família, tem que ter mais do que uma fonte de suprimento daquilo que precisa. Não podemos ficar à mercê de um único país”, alerta o professor.
Sobre o custo para o consumidor, Mosár afirma que o impacto mais significativo ainda está por vir. Embora os contratos atuais protejam os preços no curto prazo, a renovação dessas parcerias ocorrerá sob uma nova realidade de mercado. “Nem mesmo o impacto dos preços vai ser sentido no curto prazo, porque aí a gente tem contratos negociados que devem ser honrados, só que de uma maneira ou de outra o mercado tem que se preparar porque esse contrato termina e o próximo vai ser assinado com valores muito maiores”, menciona.
Segundo ele, o problema do país não está na disponibilidade de petróleo, mas na capacidade de extração e refino, que ainda é inferior ao consumo interno. “Precisamos exportar o petróleo bruto, que geralmente é mais denso, e trocá-lo por um mais leve, que gere mais combustíveis, principalmente gasolina e também óleo diesel, e ao invés de trocar por petróleo a gente já troca pelo subproduto”, explica.

Inflação
Diante desse cenário, em que a matriz energética global permanece fortemente ancorada no produto, o impacto sobre a inflação é direto. Segundo o economista, a tendência é de um novo ciclo de alta nos preços. “A inflação mundial deve sofrer um repique. Se você tem uma fonte de energia alternativa, que consegue diluir em parte o impacto dos preços, do aumento dos preços na produção, vai ter uma influência menor. Agora se não tiver essa fonte alternativa, o efeito vai acabar vindo direto. Então nós vamos ter, de fato, uma elevação nos preços dos produtos agrícolas, toda a cadeia de alimentação será impactada e também a indústria vai acabar sentindo essa consequência via aumento dos custos de transporte. A inflação vai se irradiar, vamos ter um fenômeno que foi conhecido na década de 70, entre a primeira e a segunda crise do petróleo, que é a inflação de oferta. Não vai ser de demanda, vai ser de oferta”, frisa Mosár.

O que pode acontecer
O especialista destaca que, caso os preços elevados se tornem recorrentes, a adoção de fontes alternativas de energia tende a se acelerar. Tecnologias como veículos elétricos e sistemas de distribuição com vans elétricas passam a ganhar viabilidade econômica diante do encarecimento contínuo dos combustíveis fósseis. “A adoção de veículos elétricos tende a ampliar também o transporte de distribuição, incluindo vans elétricas e outros modais. Isso se torna uma opção que vai se viabilizando. Porque o aumento contínuo, em comparação ao preço das novas tecnologias, que é o que freia a transição energética, ele se viabiliza quando os preços da matéria-prima principal é tão alto que ele acaba tornando o preço relativo da nova tecnologia mais barato. A adoção do transporte coletivo com ônibus de hidrogênio ganharia espaço”, destaca.
Segundo ele, a adoção de tecnologias híbridas no sistema de transmissão de caminhões, combinando motores elétricos e a diesel, ainda apresenta um custo inicial elevado. No entanto, diante dos sucessivos aumentos no preço dos combustíveis, essa inovação tende a se tornar economicamente viável ao longo do tempo, ao reduzir significativamente o consumo de óleo diesel. “É importante destacar que o capitalismo tem por matriz, por objetivo a utilização, a maximização da utilização dos recursos. A gente usa os recursos da melhor forma, todos eles, até o nosso dinheiro, de forma que a gente consiga aumentar a nossa utilidade, aquele nível de bem-estar que a gente precisa. Essa é a característica. Por isso que o capitalismo não morre em relação a outros sistemas econômicos”, explica.

Bento Gonçalves
No município, o Coordenadoria Municipal de Defesa do Consumidor (Procon), destaca que estão sendo realizadas verificações nos postos de combustíveis para averiguar a elevação nos preços. “Alguns estabelecimentos informam que os reajustes decorrem do repasse de valores praticados pelas distribuidoras. O Procon realiza monitoramento contínuo por meio de pesquisa quinzenal dos preços praticados no município, a fim de acompanhar eventuais variações”, destaca o Fiscal Matheus Rizzardo.
Segundo ele, os estabelecimentos são fiscalizados regularmente e, quando constatadas irregularidades nos preços, são autuados, com a consequente instauração de processo administrativo. As penalidades podem incluir a aplicação de multas, conforme a legislação vigente.