Apesar da expectativa dos consumidores por quedas nos preços, os produtos eletrônicos devem seguir com valores elevados ao longo deste ano, pressionados pela alta do dólar, custos de importação, carga tributária e demanda constante por tecnologia.
A dificuldade de redução nos preços está ligada a uma mudança estrutural na indústria global. Desde 2024, a produção de semicondutores tem sido direcionada principalmente para inteligência artificial e data centers, reduzindo a oferta de componentes para o mercado de consumo.
Adriane Maria Silocchi, professora do curso de Ciências Econômicas da UCS e gerente de relacionamento do Banrisul, explica: “O custo de oportunidade de vendê-los no varejo está competindo com a rentabilidade explosiva de vendê-los para o setor de IA e infraestrutura corporativa”.
Além disso, a economista destaca que empresas têm adotado o armazenamento estratégico de componentes como proteção frente a possíveis conflitos comerciais, o que também contribui para manter os preços elevados.

Adriane Maria Silocchi, professora do curso de Ciências Econômicas da UCS

Falta na queda nos preços
Segundo ela, o cenário é resultado de uma combinação entre demanda aquecida, custos de produção mais altos e dificuldades na cadeia de suprimentos, que impedem uma deflação significativa no setor, mesmo com o avanço tecnológico. “A ausência de deflação em eletrônicos no período 2024-2025 explica-se pelo fenômeno da rigidez de preços. Em 2024, a resiliência da demanda global por semicondutores, drenada pela expansão das infraestruturas de IA, gerou um efeito de crowding-out na eletrônica de consumo, ou seja, a alta demanda por chips para IA acabou ‘deslocando’ e encarecendo os componentes que seriam usados em celulares e notebooks. Em 2025, observou-se o impacto da inflação de insumos críticos (lítio, cobre e terras raras), cujos preços de mercado registraram volatilidade ascendente, elevando o custo marginal de produção global”, explica.
Embora tenha havido uma leve retração nos preços em plataformas online em 2024, a especialista ressalta que o movimento foi tímido e já perdeu força no início de 2025. Entre os principais determinantes, ela cita a escassez global de memórias DRAM e NAND flash, o aumento de preços praticados por grandes fabricantes, como a Samsung, além da maior complexidade logística, com prazos mais longos de entrega e gargalos na distribuição.
A indústria tem priorizado modelos mais avançados, com maior nível tecnológico e mais recursos embarcados, o que eleva o preço médio dos produtos disponíveis no mercado. “Mudança na composição do consumo: a indústria utiliza modelos com mais tecnologia e recursos, que custam mais”, cita.

Bolso do consumidor
A alta do dólar, aliada ao custo elevado dos componentes importados e à pesada carga tributária, tem impacto direto no preço final dos eletrônicos vendidos no Brasil. Como grande parte dos insumos utilizados na fabricação desses produtos vem do exterior, qualquer variação cambial se reflete quase imediatamente no bolso do consumidor. “Com o Real operando sob pressão em 2024/2025, o efeito passthrough (repasse cambial) é quase imediato. Dado que aproximadamente 85% do Valor Adicionado Bruto de um smartphone no Brasil provém de componentes importados, a desvalorização cambial atua como um imposto de importação indireto”, frisa Adriane.
Além do câmbio, o custo dos principais componentes também pesa significativamente. “Chips, semicondutores e displays constituem grande parte do valor dos eletrônicos. Quando esses insumos ficam mais caros, as margens são comprimidas ou repassadas para o preço final”, menciona a economista.
Adriane também destaca o papel da tributação no encarecimento dos produtos. “O Brasil tem alta incidência de tributos sobre bens duráveis (importação + ICMS + PIS/COFINS). Isso significa que o efeito cambial é multiplicado na ponta final (além da própria margem de revenda)”, salienta.

Esse cenário pode mudar ?
A tendência de manutenção dos preços elevados dos eletrônicos não deve ser apenas um fenômeno momentâneo. De acordo com a economista, o mercado caminha para um novo patamar estrutural, sem sinais claros de retorno aos níveis praticados antes da pandemia, o que reduz as chances de uma queda significativa no curto prazo. “O cenário para o final de 2025 indica um aumento estrutural. Não há evidências de reversão à média histórica pré-pandemia”, menciona.
Segundo ela, O consumidor enfrenta o que a economia chama de Equilíbrio de Nash: um cenário onde as fabricantes preferem manter os preços no patamar atual, garantindo sua rentabilidade mesmo com menos vendas, em vez de arriscar seus lucros em promoções agressivas. Segundo a especialista, em um cenário de juros globais instáveis, nenhuma marca quer ser a primeira a reduzir o preço e prejudicar sua saúde financeira.

Quando comprar?
Ainda assim, a economista pondera que o momento ideal para adquirir depende do comportamento do consumidor e da evolução do mercado. “Se a produção global de semicondutores e memória se expandir, ou se houver melhora de gargalos, componentes podem ficar mais baratos com o tempo”, aponta Adriane.
No entanto, a pressão da inovação tecnológica continua forte. “A demanda por tecnologia de ponta (IA, 5G, automação) continuará a pressionar preços de chips essenciais no curto/médio prazo. E, movimentos do real frente ao dólar ainda podem gerar volatilidade nos preços internos. Pode-se inferir que não é um fenômeno puramente transitório, há fatores estruturais (cadeia global + demanda tecnológica) que tendem a manter preços mais altos nos próximos um a dois anos”, frisa.

Como se planejar para a compra?
Diante de um cenário de preços elevados e crédito mais caro, o planejamento financeiro torna-se essencial para quem pretende adquirir um eletrônico sem comprometer o orçamento doméstico. A orientação de especialistas é evitar decisões impulsivas e priorizar a organização das finanças pessoais antes de qualquer compra de maior valor. “O planejamento deve basear-se na provisão de capital. Com a Selic mantida em níveis restritivos ao longo de 2024 e 2025, a estratégia ótima foi a alocação em ativos de renda fixa com liquidez diária. Acumular o valor nominal do bem permite que o rendimento real (juro nominal menos inflação do setor) reduza o esforço financeiro efetivo no momento da aquisição”, recomenda a economista.
A especialista também ressalta a importância de avaliar a real capacidade de pagamento antes de assumir um novo gasto. “Antes de comprometer o orçamento doméstico reflita sobre suas reservas e tenha metas de consumo claras, por exemplo: a) estime quanto pode pagar sem comprometer despesas essenciais (alimentação, moradia, saúde, educação)”, afirma.
Outro ponto fundamental é o controle das finanças no dia a dia. “Atualize sua planilha de gastos mensais. Aquela que você já deveria ter no seu laptop evidenciando sua educação financeira. Então, use a planilha ou app para acompanhar entradas e saídas; se possível, estabeleça um ‘fundo de tecnologia’ separado”, recomenda.
Por fim, ela orienta que o consumidor diferencie necessidade de desejo antes de decidir pela compra. “Avalie prioridade: diferencie necessidade (ex.: precisar de um notebook para trabalho) de desejo (upgrade de um que ainda funciona)”. Segundo ela, essa reflexão ajuda a evitar gastos desnecessários e a manter o equilíbrio financeiro mesmo em um cenário econômico mais restritivo.
Parcelamento ou pagamento à vista?
Ela explica que para quem optar por pagamento à vista, é vantajoso quando o desconto oferecido for maior que a Taxa Selic Líquida acumulada no período. “No biênio 2024-2025, descontos acima de 10% costumam superar o custo de oportunidade de manter o capital investido”, recomenda. Ela ressalta ainda que optar por esse pagamento, é bom quando há desconto em torno de 5 a 15%.
Na avaliação da economista, o parcelamento pode ser uma estratégia válida desde que seja usado com critério e disciplina financeira. “ Essa é a estratégia de ‘alavancagem defensiva’. Se o preço parcelado é idêntico ao à vista, o consumidor ganha com a desvalorização da moeda ao longo das parcelas (inflação corroendo o valor real da dívida). Parcele se houver zero juros ou juros baixos, e você manter disciplina (não acumular dívida de cartão). Agora, evite parcelar com juros altos (cartão rotativo), pois o custo financeiro supera facilmente o benefício do consumo imediato”, menciona.

Lojas físicas e online
Embora a comparação de preços entre lojas físicas e on-line ainda seja uma prática comum entre os consumidores, a especialista aponta que, sozinha, ela já não é suficiente para garantir economia real. O cenário atual exige estratégias mais sofisticadas, com uso de ferramentas digitais e análise de dados, especialmente em um mercado cada vez mais dinâmico e marcado por promoções agressivas. “A comparação simples tornou-se insuficiente. Em 2024/2025, a economia real migrou para a minimização da assimetria de informação através de monitoramento algorítmico: históricos de preços para identificar ‘falsas promoções’, e stacking que consiste no ‘empilhamento’ de vantagens, ou seja, a combinação simultânea de cashback, programas de fidelidade e cupons sazonais que podem reduzir o preço final em até 15% além do valor de prateleira”, destaca.
Ainda assim, a comparação direta continua sendo uma ferramenta importante. “Comparar preços ainda é eficiente, especialmente porque: online pode ter promoções exclusivas; físico permite ver o produto antes de comprar, e ferramentas de comparação (Buscapé, Zoom, Google Shopping) ajudam a identificar o menor preço”, frisa Adriane.
Portanto, ela ressalta alguns cuidados:

  • Verificar prazo e custo de entrega;
  • Garantia e política de devolução,
  • Reputação do vendedor.