O vício em jogos online tem se tornado uma preocupação crescente em diferentes faixas etárias e contextos sociais. Com a popularização dos games conectados à internet e o fácil acesso por meio de computadores e celulares, muitas pessoas passam horas imersas nesse universo virtual. Isso pode gerar impactos significativos na saúde mental, no convívio social e no desempenho escolar ou profissional.
Especialistas alertam que, embora jogar possa trazer benefícios como diversão e desenvolvimento cognitivo, o excesso pode transformar o passatempo em dependência, exigindo atenção de famílias, educadores e profissionais da saúde.
De acordo com o Dr. Luis Ernesto Bassanesi, médico psiquiatra e professor de Psiquiatria e Psicofarmacologia da Universidade de Caxias do Sul (UCS), a humanidade, assim como em outros hábitos, flerta com os jogos de “sorte ou azar” há séculos como forma de socialização. “Nesta evolução da forma de jogar, podemos falar em cassinos, loterias, bingos, jogos de cartas e, mais recentemente, plataformas digitais de apostas esportivas e cassinos online, além dos recreativos, que são os videogames. Em 1866, Dostoiévski lançou o romance O Jogador, que descreve a trajetória do protagonista viciado em jogo, assim como Vermelho 27, um tango gravado por Nelson Gonçalves, que descreve a trajetória de um jogador em 1957”, observa.

O psiquiatra explica que o diagnóstico para o vício em jogos virtuais não mudou o comportamento nem a forma de se apresentar de um jogador com um Transtorno do Jogo. “O comportamento do ‘vício’, que hoje chamamos de adição ou comportamento aditivo, como no uso de drogas, torna-se patológico quando a pessoa perde o controle e sofre por causa das seguintes mudanças: aumenta a necessidade de apostar quantias cada vez maiores, sente irritabilidade ou inquietude ao tentar interromper ou reduzir o tempo de jogo, tenta fazer esforços para parar ou controlar a dedicação ao jogo, mas não é bem-sucedido. E, mesmo não estando jogando, tem pensamentos persistentes sobre experiências de jogo, avaliando estratégias de como ganhar na próxima, revela.
Impactos da dependência
Quando o jogador não ganha, alguns sentimentos surgem, como aponta o médico:
- Sentimento de culpa;
- Impotência;
- Tristeza;
- Ansiedade;
- Depressão.
Além disso, estudos mostram altos índices de suicídio em jogadores patológicos. “Após perder, ele joga para tentar recuperar, mente para esconder seu envolvimento (o mesmo comportamento do usuário de drogas que perde o controle), tem prejuízos no desempenho acadêmico, no trabalho, nos relacionamentos sociais e familiares. Se endivida, buscando dinheiro de todas as formas para poder continuar jogando, e deixa de cuidar de si mesmo, comprometendo sua saúde”, esclarece.
Prazer versus Vício
Muitas pessoas têm o hábito de jogar. Quando é por prazer, pode ser uma atividade saudável e até benéfica, desde que seja feita de forma equilibrada. Os jogos, online ou offline, estimulam o raciocínio, a criatividade e a coordenação motora, além de proporcionarem lazer. Para muitas pessoas, essa prática é uma forma de aliviar o estresse, fortalecer vínculos sociais e até desenvolver habilidades estratégicas. “Assim como em todos os nossos hábitos, diríamos que, se estivéssemos no controle e na dose correta, não teríamos consequências negativas. Jogar, como dito antes, faz parte da civilização, em momentos sociais. O jogador social é aquele que mantém o controle e pode parar de praticar, ganhando ou perdendo, sem sofrimento”, observa o psiquiatra.
O vício está diretamente ligado a apostas em dinheiro ou bens materiais, o que frequentemente resulta em prejuízos financeiros e desgastes nos relacionamentos. “O jogador patológico perdeu o controle e, se está perdendo, quer dobrar a aposta, pois acredita que irá recuperar o dinheiro perdido. Se está ganhando, pensa estar em uma maré de sorte e não para de jogar até perder tudo e entrar neste ciclo vicioso. Ele não joga pela diversão ou pela socialização, mas sim pelo entretenimento, pela excitação que cada jogada provoca.”
Diagnóstico e impacto na rotina
Bassanesi explica que a nomenclatura para o Transtorno do Jogo mudou, tanto na CID 11 (Classificação Internacional das Doenças) quanto no DSM 5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais). “Os critérios são descritivos, incluindo um comportamento de jogo persistente e recorrente, levando a sofrimento aparente significativo com todas as perdas decorrentes. Os sinais mais comuns de quem está entrando neste quadro estão incluídos nestes critérios diagnósticos: uma preocupação excessiva com jogos. A pessoa sabe tudo sobre as plataformas online, dá aula sobre como fazer, sempre com o viés de que está ganhando e domina o jogo”, salienta.
O médico destaca que a pessoa viciada em jogos perde o controle sobre o tempo dedicado à atividade, algo facilmente percebido por familiares e amigos. Nesse processo, ela começa a negligenciar tarefas importantes, inventa desculpas e se isola socialmente para continuar jogando. A irritabilidade se torna frequente, surgem dificuldades financeiras e a mentira é usada para conseguir mais dinheiro para apostar. O vício também pode provocar distúrbios do sono e favorecer o desenvolvimento de sintomas de ansiedade e depressão. “Quando a pessoa torna a aposta o centro da sua vida, não há como evitar: ela apresenta uma necessidade de jogar que impacta diretamente em todo seu ciclo de vida. Na saúde mental, há distúrbios do sono, irritabilidade, ansiedade e depressão, além de sentimentos de fracasso e inutilidade. A pessoa deixa de se dedicar à família e amigos, se afasta e se isola socialmente, descuida da alimentação, abandona atividades físicas e pode começar a fumar, beber ou usar outras drogas. Existe uma perda do sentido de identidade e de quais são os seus valores, e esta mudança é uma destruição do sentido de existência, levando a altos riscos de tentativas de suicídio”, detalha o médico.
Crianças e Adolescentes
A relação de crianças e adolescentes com os jogos online tem crescido de forma significativa, impulsionada pela facilidade de acesso à internet e pela popularização de celulares e consoles. Para muitos jovens, eles representam diversão, socialização e uma forma de aprender novas habilidades, como raciocínio lógico e estratégia. Contudo, podem apresentar riscos quando não há supervisão. “Se antes estávamos preocupados com jogos de videogame, que também se tornaram online e reúnem grupos de crianças e adolescentes em salas virtuais, acredito que as de apostas online devem aumentar as preocupações dos pais”, comenta Bassanesi. Ele exemplifica o tigrinho como um cassino online que promete altos ganhos. “O jogo é feito de forma lúdica, com um anfitrião virtual que é o tigrinho. Isso ameniza a ideia de ser algo que possa ter consequências negativas. Todos os estímulos e a rapidez de mudanças de tela tornam o jogo irresistível, principalmente para crianças e adolescentes”, observa o psiquiatra.
Para ele, o grande agravante das apostas é a facilidade de acesso. “Quanto maior a disponibilidade e a rapidez entre o jogo e o resultado, maior é o potencial de gerar vício”, destaca. Bassanesi também compara eles com às dependências de tela, onde adultos e crianças “rolam” por horas e não se dão conta. “Quanto mais cedo as crianças são expostas a telas e jogos online, maior o risco para se tornarem dependentes ou desenvolverem comportamentos aditivos. Isso acontece pela imaturidade do sistema nervoso central, que somente amadurece no final da adolescência (hoje, considera-se entre 23 e 25 anos). Crianças e adolescentes que começam a apresentar baixo rendimento escolar, agressividade, isolamento social e trocam os amigos, devem ser monitorados”, relata.
Causas e prevenção
Muitas pessoas encontram nestas atividades uma maneira de preencher vazios emocionais ou de lidar com situações de ansiedade e frustração. A dinâmica envolvente, a possibilidade de conquistas rápidas e a interação com outros jogadores, funcionam como uma válvula de escape para preocupações do dia a dia. Quando a pessoa tem transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), ansiedade ou depressão, a procura por jogos como um escape pode ser ainda mais real. “No TDAH, ele seria uma comorbidade que agrava e intensifica o jogo, pois nestes quadros há a falta de planejamento e dificuldades de aprendizado com a repetição do comportamento que dá errado”, relata.
O vício não é apenas resultado do tempo excessivo diante das telas ou da falta de controle pessoal. Trata-se de um problema complexo, que envolve mecanismos profundos do cérebro ligados ao prazer e à recompensa. É nesse ponto que especialistas chamam a atenção para as alterações neurológicas que podem transformar um passatempo em dependência. “Para se tornar um Jogador Patológico, é necessária uma alteração no sistema de recompensa que regula as sensações de prazer, a nível de sistema límbico. Existe uma alteração no centro do processamento do prazer, com descargas dopaminérgicas muito elevadas relacionadas à próxima jogada. O jogador fica prisioneiro da necessidade de seguir jogando. Sem esta alteração, não existe o comportamento aditivo e o desenvolvimento do Transtorno do Jogo. Mas sim temos Transtornos de Ansiedade e Transtornos do Humor associados ou como consequência, e o TDAH como um impulsionador ou agravante nestes quadros”, explica o médico.
Para prevenir o vício em crianças e adolescentes, o médico destaca: “A presença dos pais seria o melhor remédio”. Ele sugere que os pais aproveitem mais o tempo junto a seus filhos, construindo rotinas e hobbies. “Fazer programas juntos, ir a parques e passeios, praticar futebol, andar de bicicleta, ou jogar com as crianças e supervisionar, praticar esportes… dar o exemplo sempre funciona bem. Valorizar o que eles fazem fora das telas e participar junto com as crianças e adolescentes faz toda a diferença”, destaca. “O que vemos hoje são muitas crianças abandonadas com uma tela de celular desde muito cedo, sem receberem o mínimo de atenção e educação. Na escola e em casa, todos os outros assuntos relacionados à saúde e educação devem ser discutidos, como esclarecimentos e campanhas sobre os riscos de se expor aos jogos online, as perdas que isso pode implicar. As estratégias e formas devem ser adaptadas à realidade de cada local e escola. O que funciona muito é utilizar o que está nas redes sociais, fatos que estão acontecendo e que servem como exemplo, reportagens dos meios de comunicação, etc.”, nota.
Bassanesi destaca que é papel dos pais terem bom senso de entender o que o filho está consumindo. “Peça para que eles expliquem o que estão vendo e o que isso tem de tão bom para ficarem um longo tempo dedicados. O tempo é algo negociável; é importante estabelecer um limite. Mas o radicalismo impede que a criança se responsabilize. Algumas vezes, a negociação acaba e temos que interromper sem mais explicações, e isso está correto”, aconselha.
Muitos pais acreditam que proibir os jogos vai resolver, mas não é isso que acontece. “Educar e ensinar é o que precisamos, e é onde vamos ter os melhores resultados. Não aceitar a criança ou o adolescente fechado em seu quarto por horas com acesso à internet sem supervisão, pois eles não estão seguros”, observa o médico.
Tratamentos
Bassanesi explica que nas psicoterapias existem várias modalidades, como a Terapia Cognitivo Comportamental e terapias com abordagens psicodinâmicas, com foco em mudanças de comportamento. Há também grupos de apoio e medicações, quando necessário, para tratar comorbidades como transtornos de ansiedade e depressão.
Quando essas modalidades não resolvem, em alguns casos, é preciso internação clínica, pois os pacientes precisam de um afastamento de todo e qualquer acesso aos jogos. “Os acompanhamentos devem ser a longo prazo para evitar recaídas. Se tiverem rede de apoio e familiares envolvidos, o prognóstico geralmente é bom. É importante salientar que, como um alcoólatra que para de beber, o paciente pode parar de jogar, mas sempre estará suscetível a uma recaída com intensidade semelhante a quando estava na ativa. É importante criar a ideia de nunca mais voltar a chegar perto de jogos”, acrescenta. Com isso, é possível que os pacientes recuperem a capacidade de pensar e reorganizar a vida.
Outras iniciativas também podem ser adotadas para garantir resultados efetivos, segundo o médico. Entre elas estão as terapias familiares, a prática de esportes e a participação em atividades religiosas ou outras formas de ocupação saudável, que se mostram extremamente úteis para a manutenção a longo prazo, aspecto fundamental após o tratamento da situação de crise.