Uma pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicada no Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics, alertou que o consumo de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, embutidos e biscoitos recheados, pode aumentar em até 58% o risco de desenvolver depressão persistente. O estudo, que analisou dados do ELSA-Brasil, mostrou que o grupo de pessoas que mais consumia esses produtos tinha um risco maior de desenvolver a doença. Essa descoberta reforça a crescente evidência de que a dieta tem um papel fundamental na saúde mental, especialmente considerando que a depressão é a principal causa de incapacidade no mundo.

O que são alimentos ultraprocessados?
As nutricionistas e professoras da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Gabriela Chilanti e Carin Weirich Gallon, destacam que praticamente todos os alimentos passam por algum tipo de processamento, mesmo que seja apenas para garantir sua preservação. Por isso, criticar um alimento apenas por ser “processado” pode ser um equívoco. Ao longo dos anos, diferentes classificações foram desenvolvidas para categorizar os alimentos conforme o grau e o tipo de processamento. Entre elas, a classificação NOVA se destaca. De acordo com uma revisão sistemática, trata-se do modelo mais claro, específico, coerente, abrangente e funcional disponível atualmente. “Esses alimentos são formulações industriais feitas a partir de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, amido) ou sintetizadas em laboratório (corantes, aromatizantes, emulsificantes)”, explicam as nutricionistas. Exemplos incluem:

  • Refrigerantes;
  • Salgadinhos;
  • Biscoitos recheados;
  • Macarrão instantâneo;
  • Embutidos;
  • Fast-foods;
  • Cereais matinais adoçados.
    Segundo as nutricionistas, esses produtos contêm pouco ou nenhum alimento in natura e são criados para estimular o consumo excessivo. E não se trata apenas de uma ameaça ao peso corporal: a ciência tem mostrado que eles também afetam o cérebro.
Carin Weirich Gallon

Aumento da ingestão
O consumo desses alimentos cresceu muito nas últimas décadas. “Práticos, baratos e com sabor intensamente palatável, eles têm ocupado espaço na mesa das famílias, especialmente entre adolescentes, adultos jovens e populações mais vulneráveis. Mas por trás da conveniência, há um risco silencioso e preocupante: impactos diretos sobre a saúde”, contam as especialistas.

Gabriela Chilanti

Conexão entre ultraprocessados e depressão?
Gabriela e Carin apontam que estudos recentes indicam que uma dieta rica em ultraprocessados pode estar associada ao aumento do risco de doenças mentais, especialmente a depressão. “Uma das pesquisas mais expressivas nesse campo foi publicada em 2023 na revista JAMA Psychiatry. O estudo acompanhou mais de 30 mil adultos nos Estados Unidos por mais de 10 anos e encontrou que indivíduos com maior consumo de ultraprocessados apresentaram risco 20% maior de desenvolver sintomas depressivos moderados a graves”, salientam.
Acredita-se que esses tipos de alimentos favorecem processos inflamatórios sistêmicos e cerebrais, prejudicando a microbiota intestinal. “Ela está intimamente conectada ao cérebro e afeta neurotransmissores como a serotonina e a dopamina, envolvidos no humor e bem-estar”, destacam.

O que nesses produtos afeta o cérebro?
Entre os ingredientes problemáticos mais comuns, destacam-se:

  • Açúcares adicionados que desregulam a liberação de insulina e afetam a cognição;
  • Gorduras trans e saturadas, associadas à inflamação cerebral;
  • Aditivos artificiais, como corantes e conservantes, que podem interferir na química cerebral;
  • Excesso de sódio, que, além de aumentar a pressão arterial, pode impactar negativamente a função cognitiva.

Limite seguro
Para as nutricionistas, apesar de não existir um limite totalmente seguro para a ingestão diária de alimentos ultraprocessados, é recomendado que o consumo não ultrapasse 20% a 30% das calorias diárias. “Já há aumento significativo no risco de efeitos adversos à saúde mental. Isso equivale a duas ou três porções diárias, como um pacote de bolacha, um refrigerante e uma lasanha congelada”, apontam as especialistas.

Faixas etárias
Segundo Gabriela e Carin, existem grupos que são mais sensíveis aos impactos dos ultraprocessados. “O cérebro em desenvolvimento, como no caso dos jovens, ou em transformação hormonal, como nas gestantes e idosos, é mais suscetível a desequilíbrios causados pela alimentação inadequada”, contam. Apesar disso, é importante lembrar que esses tipos de alimentos são prejudiciais para todas as faixas etárias, desde crianças a idosos.

Como reverter os efeitos
As nutricionistas afirmam que inúmeros estudos indicam que a mudança na dieta pode ajudar a aliviar os sintomas de transtornos como a depressão. Elas citam a pesquisa SMILES (2017), da Deakin University (Austrália), como um exemplo pioneiro, que demonstrou que: “Pessoas com depressão moderada a grave apresentaram melhora significativa após 12 semanas com uma dieta rica em alimentos in natura (vegetais, frutas, grãos integrais, peixes, azeite de oliva), mesmo sem alteração na medicação”, frisam.
Elas dão dicas para o consumo no dia a dia:

  1. Planejamento é chave: ter refeições caseiras organizadas evita o apelo dos industrializados;
  2. Ler rótulos: evite alimentos com muitos ingredientes, especialmente os que você não reconhece;
  3. Tenha lanches saudáveis por perto: castanhas, frutas frescas, iogurte natural;
  4. Coma consciente: prestar atenção ao ato de comer ajuda a evitar o consumo automático e exagerado.

Existem alimentos que melhoram os casos de depressão?
Sim. As nutricionistas destacam que a chamada “dieta mediterrânea”, rica em azeite de oliva, vegetais, leguminosas, frutas, peixes e grãos integrais, possui um efeito protetor bem documentado contra a depressão. “O padrão alimentar também favorece a saúde da microbiota intestinal, reduz inflamação e estabiliza o humor”, contam.

Pessoas com histórico de depressão: atenção redobrada
Indivíduos com histórico de depressão devem ter uma atenção especial à dieta. Adotar uma dieta balanceada e rica em nutrientes pode ser uma estratégia valiosa para complementar o acompanhamento profissional e promover o bem-estar mental a longo prazo. “A alimentação, embora não substitua o tratamento médico, pode ser um pilar importante na prevenção de recaídas e manutenção da estabilidade emocional”, concluem.