Quem apenas vê, de longe, os agentes da Polícia Rodoviária Federal participando de alguma operação de fiscalização no trânsito, inspecionando veículos ou autuando algum motorista, geralmente aplaude. Quando a pessoa é o alvo da operação e é flagrada em alguma ilicitude – como documentação vencida ou por uma ultrapassagem proibida – razão para ser multado pelo PRF, normalmente não poupa críticas ao trabalho realizado pelos agentes. Mas o que realmente faz a corporação, além de fiscalizar os motoristas e multá-los quando encontra alguma irregularidade? A resposta é bastante extensa.

Os policiais se envolvem em ações sociais, participam de operações de combate ao crime, atuam na orientação dos motoristas, executam medidas de prevenção aos acidentes de trânsito, entre várias outras situações, como conta o mineiro Rômulo Vieira de Almeida Gomes, que está no Rio Grande do Sul desde 2016 e é o atual titular da 6ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal, com sede em Bento Gonçalves. “Agora mesmo, com a situação da pandemia do coronavírus, a PRF se envolveu em várias ações de apoio”, conta, referindo-se, por exemplo, à campanha de doação de alimentos aos caminhoneiros que ficaram sem ter onde fazer suas refeições devido aos decretos que fecharam restaurantes em quase todo o Brasil.

Chefe da PRF de Bento, Rômulo Vieira de Almeida Gomes

Gomes destaca que a PRF passou a andar ainda mais próxima da sociedade com o advento do cornavírus. Ao mesmo tempo, enfrentou algumas dificuldades como o fato de não ter onde os policiais almoçarem e jantarem, escassez e dificuldade para obter os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e até álcool em gel. “Apesar da situação, a PRF construiu algo muito importante que foi a solidariedade. Com mais gente em casa, menos veículos na estradas, se reduziu a acidentalidade. Daí passamos a auxiliar os caminhoneiros a realizarem o trabalho de transportar os insumos básicos como suprimentos, realizamos doação de sangue para repor os estoques que estavam baixando muito, nos hemocentros, e mais recentemente apoiamos a campanha de vacinação dos motoristas contra a gripe, especialmente aos de transporte de cargas”, conta.

Volta ao normal

De acordo com o delegado da PRF em Bento Gonçalves, depois de uma queda que chegou a quase 90% em alguns trechos e dias, agora o movimento de veículos está praticamente normal, resultado da flexibilização, pelo Estado e prefeituras, das medidas de contenção das pessoas. “O fluxo já se elevou bastante e o número de acidentes está muito parecido com o que havia no mesmo período do ano passado”, destaca. Outro fator que contribuiu para a retomada da normalidade na movimentação de automóveis e veículos de transporte de cargas e de pessoas foi a reabertura de estabelecimentos que ficam nas margens das rodovias, principalmente restaurantes e lanchonetes que funcionam junto aos postos de abastecimento de combustíveis. “Na ponte (sobre o Rio das Antas, entre Bento Gonçalves e Veranópolis), no final de semana que passou, havia um grande número de pessoas porque aquele local é de atração turística. Havia muita gente nas lanchonetes e lancherias, apesar da recomendação para que ficassem em casa”, revelou o Delegado da PRF no município.

Número de acidentes estabilizou e criminalidade mudou o alvo

Ao mesmo tempo em que o número de acidentes se manteve praticamente o mesmo nos quatro primeiros meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2019 – puxado muito mais pelos índices de janeiro e fevereiro e com sensível redução em março e abril devido à pandemia – os assaltos a caminhoneiros para roubar a carga praticamente zeraram, pelo que conta o delegado Rômulo Gomes. “Essa criminalidade migrou para assaltos a estabelecimentos de beira de estrada que estavam abertos, como postos de gasolina e alguns restaurantes. Também verificamos aumento nos ataques às moradias. São crimes que aconteciam, mas não na quantidade como tem se registrado”, frisa.

Nas estradas, de acordo com o policial rodoviário, o crime mais comum ainda é a embriaguez ao volante. Dos 11 acidentes que causaram a morte de 12 pessoas, no ano passado, em nove foi constada a presença de álcool em algum dos condutores envolvidos. “Ou o motorista fez o teste que acusou a embriaguez ou se recusou a fazer o teste, o que é uma infração administrativa”, conta. A alta velocidade também é um crime comum na BR-470, trecho sob jurisdição da Delegacia da PRF de Bento Gonçalves. “Sem a fiscalização pelos equipamentos fixos, em 2019, o trânsito ficou mais agressivo. Dos 11 acidentes com vítimas fatais ocorridos em 2019, oito foram colisões frontais”, diz.

Rota de drogas e armas

A BR-470, que cruza Bento Gonçalves é, sim, uma rota de passagem de drogas, armas, e outros produtos ilícitos ou resultado de contrabandos. Em 2017, por exemplo, a 6ª Delegacia foi a terceira do Brasil em volume de apreensão de cocaína. No ano anterior, 2018, foi a segunda do país no volume de apreensões de fuzis, tipo de armamento geralmente utilizado por facções criminosas em assaltos. Em apenas uma operação foram encontrados 16 fuzis. Mais recentemente, os policiais da PRF apreenderam, em Bento, cerca de 400 quilos de maconha. A principal explicação é o fato de a rodovia se caracterizar pelo grande fluxo de veículos de turistas que vêm de outros estados, e de transporte de cargas para atender ao grande número de empresas da região.