As relações humanas em tempos de eleição parecem cada vez mais desgastadas. No domingo, depois de assistir ao debate, fiquei com uma sensação incômoda: estamos conseguindo discutir política, mas talvez estejamos esquecendo de conviver.
A política entrou na mesa das famílias, nos grupos de WhatsApp, nas conversas entre amigos e nos corredores do trabalho. E aquilo que deveria ser uma divergência de ideias muitas vezes virou motivo para ofensas, rompimentos e silêncios.
Mas tenho pensado muito: e depois do voto?
Porque, para a maioria de nós, a segunda-feira continuará chegando. Vamos acordar cedo, trabalhar, pagar contas, levar os filhos para a escola, enfrentar nossos problemas e continuar tentando construir uma vida melhor. Nosso candidato pode ganhar ou perder, mas continuaremos encontrando o vizinho no portão, o colega no trabalho e aquele parente no almoço de domingo.
Cresci vendo eleições. Lembro de Lula perdendo para Fernando Henrique Cardoso. Mais tarde participei de comício quando venceu um prefeito da minha cidade e, anos depois, fui às ruas pedir o impeachment de uma presidente. A vida passa, os governos mudam e nós também mudamos. Algumas opiniões permanecem, outras amadurecem ou se transformam. Talvez isso também seja democracia.
Hoje, confesso, tenho dificuldade de defender qualquer candidato como se conhecesse verdadeiramente sua idoneidade, sua história inteira ou tudo aquilo que existe por trás de uma campanha.
O que me preocupa é quando passamos a enxergar uma pessoa inteira apenas pelo voto que ela deposita na urna. É possível discordar profundamente e ainda respeitar. É possível defender aquilo em que acreditamos sem transformar quem pensa diferente em inimigo. Talvez uma das partes mais difíceis da democracia seja justamente aceitar que o outro também tem o direito de escolher.
No domingo, dia 25, haverá comemoração de um lado e frustração do outro. Mas, na segunda-feira, o país continuará pertencendo a todos.
Uns acreditam que precisamos mudar os rumos. Outros entendem que mudar pode representar riscos ao caminho que defendem. Faz parte. O que não deveria fazer parte é perdermos a capacidade de sentar à mesma mesa.
E nossos filhos estão assistindo a tudo isso. Eles aprendem conosco não somente em quem poderão votar um dia, mas principalmente como tratar alguém que pensa diferente deles.
Antes de compartilhar uma mensagem agressiva, ofender alguém ou terminar uma amizade por política, talvez valha perguntar: isso ainda fará sentido quando a eleição acabar?
Porque ela acaba.
As famílias ficam. Os amigos ficam. Os colegas ficam. Fica o vizinho que empresta uma ferramenta, aquele que ajuda quando precisamos, a pessoa que encontramos no mercado e cumprimentamos há tantos anos.
O voto é secreto, individual e leva poucos segundos diante de uma urna. As relações humanas levam anos para serem construídas.
Que não destruamos, em nome de candidato algum, aquilo que nenhum deles poderá nos devolver.
Porque, depois do voto, continuamos vizinhos.
E talvez já tenha passado da hora de percebermos que não vale a pena perder pessoas por causa de política.





