Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026

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Ademar De Gasperi relembra a ascensão do Esportivo e os técnicos que viraram lendas

Quem caminha hoje pelas ruas de Bento Gonçalves conhece Ademar De Gasperi pelo sobrenome que se funde à história da indústria moveleira nacional. O que poucos jovens torcedores sabem, no entanto, é que o empresário e líder comunitário carrega na memória o cheiro da grama e o eco da torcida que outrora lotava o lendário Estádio da Montanha. Entre 1965 e 1971, Ademar não vestia terno; vestia a camisa do Esportivo

“A Montanha tinha uma alma própria”, recorda, com o olhar de quem ainda consegue ver as arquibancadas tomadas pelas cores azul e branco. Para Ademar, o Esportivo nunca foi apenas um clube, mas uma extensão de sua própria vida. Sua trajetória de seis anos nos gramados coincide com o período em que o Alviazul deixou de ser uma força regional para desafiar os gigantes da capital.

Sob o comando de lendas

A biografia de Ademar nos gramados impressiona pelos professores que teve à beira do campo. Ele foi comandado por Abílio dos Reis, o histórico técnico que, anos mais tarde, ganharia fama mundial no Internacional como o maior “garimpador de talentos” do país, revelando craques do calibre de Paulo Roberto Falcão, Dunga, Mauro Galvão, Batista, Luiz Carlos Winck e Paulo César Carpegiani.

Sob o comando de Abílio, Ademar celebrou o inédito acesso à elite do futebol gaúcho em 1969 e, no ano seguinte, o título de Campeão do Interior com o clube Alviazul de Bento.

Depois de Abílio, veio ninguém menos que Ênio de Andrade. O mestre da tática, que posteriormente se sagraria campeão brasileiro por Internacional (invicto, em 1979), Grêmio (1981) e Coritiba (1985), liderou o elenco de 1971, ano em que Ademar e seus companheiros alcançaram o bicampeonato do Interior e uma histórica terceira colocação no Gauchão Série A, desbancando forças tradicionais do Estado. Ademar também absorveu os ensinamentos de outros nomes icônicos do futebol local, como Carlos Reno Dreher, Aclidio Miele e Darcy Pozza.

Jogou ao lado de craques

Dentro das quatro linhas, Ademar dividiu vestiário e tabelou com jogadores que marcaram época. Jogou lado a lado com Antônio Rodrigues Filho, o popular “Neca”, que dali partiria para brilhar no Grêmio, Corinthians, Cruzeiro, São Paulo e na Seleção Brasileira. Dividiu os gramados também com João Carlos “Gú” Pinheiro Machado (dos lendários times AESA, Tamoio e Grêmio de Santo Ângelo, um dos maiores jogadores da história do Esportivo e do Juventude), Lairton, Jair, Ivan “Tcheco”, Walter; Aírton, Cláudio, Ílson, Jadir, Décio, Adílson, Emídio Patussi; Rui Liberali, Marcos, Gonha, Bocão, Trabuco e Ervei. Também Ivan, Paulo Araújo, José e outra lenda dos gramados: Luiz Carlos Gasperin, que mais tarde jogou no Grêmio, Internacional (foi bicampeão brasileiro), Juventude e Cruzeiro.

Chuteiras penduradas

A chuteira foi pendurada em 1971, mas o amor pelo Esportivo e a saudade dos domingos na Montanha nunca saíram de campo. A mesma disciplina, liderança e a paixão que demonstrava na ponta das travas das chuteiras foram transferidas para a comunidade, consolidando uma trajetória de mais de 50 anos dedicada ao voluntariado e ao desenvolvimento econômico de Bento Gonçalves. Ele mudou de profissão e do Estádio da Montanha, mas para a história continua sendo eterno.

Ex-jogador lamenta a situação do glorioso Estádio da Montanha e recorda os grandes jogos

Ademar De Gasperi traz à memória a atmosfera de “caldeirão” do Estádio da Montanha e os grandes confrontos do Esportivo, como o tradicional “Clássico da Polenta” e o amistoso com o Internacional.

Da direita à esquerda, o segundo entre os agachados, De Gasperi no elenco que teve João Carlos “Gú” Pinheiro Machado

Ademar lamentou que o Estádio da Montanha não tenha tido continuidade em sua função original, mas entende que a melhor alternativa atual para o espaço, que hoje pertence ao Município, seria a construção de um Centro Administrativo no local. Atualmente, o estádio é utilizado pelo time de rugby Farrapos e pelas categorias de base do Esportivo.

Ademar, no centro entre os jogadores agachados na foto, vestiu a camisa do Esportivo por seis anos

Ao comparar o passado e o presente do futebol local, De Gasperi relembrou o charme da antiga casa do Esportivo. “Nada se compara à Montanha, onde o torcedor ficava junto ao gramado, as pessoas se deslocavam facilmente e o estádio lotava”, disse.

Os grandes jogos

O ápice dessa era de ouro, segundo De Gasperi, acontecia nos grandes confrontos contra o Caxias, o tradicional e acirrado “Clássico da Polenta”. Um jogo inesquecível em sua carreira como jogador foi o amistoso realizado contra o Internacional, no ano de 1967, na Montanha, vencido pelo Colorado por 4 a 1. “Aquele Internacional teve em campo Lambari, Bráulio, Claudiomiro, Dorinho, Gainete, Scala, Carlitos, entre outros craques”, disse.

No amistoso entre Esportivo e Internacional, em 1967, De Gasperi esteve em campo

O pós-jogador

Após sua trajetória no futebol, De Gasperi construiu uma carreira sólida na indústria, no associativismo e na área filantrópica de Bento Gonçalves e no Estado. Ele dedicou por mais de três décadas à Móveis Carraro, foi membro-fundador da Associação das Indústrias de Móveis do Estado do Rio Grande do Sul (Movergs); colaborou por mais de 20 anos no Sindimóveis; foi presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), além de integrar há 40 anos a diretoria da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), e do Senai/RS, tendo ocupado o cargo de vice-presidente da federação. É colaborador há 40 anos do Hospital Tacchini.

“A Montanha tinha uma alma própria”, recorda Ademar, com o olhar de quem ainda consegue ver as arquibancadas tomadas pelas cores azul e branco

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