Sábado, 10 de Outubro de 2026

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Desaparecimentos deixam famílias entre a busca e a incerteza

São 53 desaparecidos em Bento Gonçalves, segundo dados do site oficial da Polícia Civil

São 43.828 desaparecimentos no Brasil apenas no primeiro semestre deste ano, segundo dados do Painel Estatístico do Sinesp (Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública). Em São Paulo, estado com o maior número de casos no período, foram 10.449 desaparecimentos nos primeiros seis meses do ano. Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro aparecem na sequência, com 4.864, 3.933 e 3.364 casos, respectivamente.

Segundo a psicóloga Fabiane Langon Lorenzi, familiares de pessoas desaparecidas podem apresentar tristeza intensa, desesperança, insônia, hipervigilância, alterações na alimentação, perda de interesse por atividades prazerosas e isolamento social. A ausência também pode interferir diretamente na capacidade de manter a rotina e na ruptura de projetos de vida. “Qualquer telefone tocando gera um impacto imenso”, explica Fabiane, ao descrever o estado de alerta permanente vivido por algumas famílias. Ela ressalta que o entorno social tem papel importante, já que nem sempre amigos e familiares conseguem compreender a dimensão da dor de quem permanece à espera de notícias. “Pode gerar isolamento acentuado, diante de um ambiente que pode não compreender as dores desse sujeito, não abrir espaço de fala ou diminuir o tamanho de seu sofrimento”, frisa.

Fabiane Langon Lorenzi

A principal diferença em relação a um processo de luto após uma morte confirmada está justamente na ausência de uma certeza. Conforme a psicóloga, quando há a confirmação da morte, ainda que o sofrimento seja profundo, existem rituais e elementos concretos que ajudam a elaborar a perda. No desaparecimento, essa confirmação não existe. “Não ‘fecha a porta’, ela permanece aberta a muitas possibilidades”, afirma. Fabiane relaciona essa experiência ao conceito de “perda ambígua”, situação em que não se sabe se a pessoa está viva ou morta, presente ou ausente. A esperança pelo reencontro permanece ao mesmo tempo em que a vida cotidiana precisa continuar. “A partir dessa ambiguidade, a rotina é atravessada por sentimentos de culpa em seguir ‘tocando a vida’. Desistir de procurar por essa pessoa pode estar associado a sentimentos de traição e abandono. Muitas vezes, há um congelamento da existência, uma rotina que passa a ser vivida ao redor do desejo de reencontro e da busca por respostas”, frisa.

Sociedade monitorada

O sociólogo e cientista político da UCS, João Ignacio Pires Lucas, relaciona o fenômeno ao conceito de biopolítica, associado à proteção da vida e à ampliação de mecanismos de controle sobre os indivíduos como Câmeras, GPS, redes sociais e outros sistemas de localização. Pires observa, porém, que os desaparecimentos não possuem uma única causa. Há situações relacionadas a crimes, como tráfico de pessoas e feminicídio, mas também casos envolvendo saúde mental, perda de memória, uso de álcool e outras drogas, endividamento e conflitos pessoais. Para ele, os perfis também variam conforme a faixa etária e as circunstâncias. Crianças e adolescentes podem estar mais vulneráveis ao tráfico de pessoas. Entre idosos, problemas relacionados à memória e ao envelhecimento. Já entre adultos, o contexto pode envolver violência, conflitos familiares, problemas financeiros ou decisões pessoais.

Redes sociais

Pires avalia que mecanismos digitais tendem a ser mais efetivos em desaparecimentos circunstanciais, de vulneráveis que se perdem ou pessoas que querem desaparecer por um tempo, por relacionamentos e decisões pessoais. Em situações relacionadas ao crime organizado, tráfico de pessoas ou feminicídio, a mobilização digital pode auxiliar, mas não é tão efetiva. Para o sociólogo, a articulação entre comunidade e poder público é fundamental. Redes de vizinhos, grupos de mensagens e sistemas de monitoramento podem contribuir para a circulação rápida de informações.

João Ignacio Pires Lucas

A ampliação da vigilância, porém, também tem contradições. A mesma sociedade que possui mais ferramentas para localizar pessoas também enfrenta problemas relacionados à saúde mental, ao endividamento, aos vícios e à discriminação. Para Pires, isso pode contribuir para que determinadas pessoas mantenham relações ou situações desconhecidas de familiares e amigos.

A discussão precisa considerar também aquelas que são encontradas. Nem todos os casos possuem o mesmo desfecho ou recebem o mesmo espaço na agenda pública. Alguns ganham ampla repercussão, enquanto outros permanecem praticamente restritos ao círculo familiar. “Os desaparecimentos de mulheres, quando suspeita de feminicídio, e de catástrofes climáticas tem uma publicidade maior. Demais casos, entram quase como uma rotina no noticiário nacional”, avalia Pires.

O pesquisador cita ainda situações provocadas por catástrofes, como enchentes e desastres naturais, que podem deixar famílias durante longos períodos sem confirmação sobre o destino de seus parentes. Nesses casos, a ausência de uma certeza também pode produzir uma experiência particular de luto.

Para o sociólogo, o desafio está em transformar os recursos tecnológicos e a capacidade de mobilização da sociedade em ferramentas de proteção. Ao mesmo tempo, políticas públicas precisam acompanhar as diferentes causas dos desaparecimentos, incluindo segurança, saúde mental, envelhecimento e combate ao tráfico de pessoas. “Além disso, muitos dos desaparecimentos geram reaparecimentos, que muitas vezes, não possuem a mesma visibilidade.

Seja por espontaneidade do desaparecido, esforço das redes sociais ou órgãos de segurança, essa relação de aparecimentos precisa ser documentada até para que haja uma maior confiança nos sistemas de procura. Estas informações devem andar juntas”, evidencia.

Psicóloga defende suporte social e clínico para as famílias

A psicóloga Fabiane Langon Lorenzi considera fundamental que familiares tenham acesso tanto ao acompanhamento profissional quanto a redes de apoio. Grupos formados por pessoas que enfrentam situações semelhantes podem reduzir a sensação de isolamento. “O suporte social é tão ou mais importante do que o suporte clínico ou especializado. Essencial que o ambiente ao redor desses familiares possa ser acolhedor e que não tenha necessidade de ‘dar respostas’. É preciso um ambiente que suporte a angústia do “não saber” junto com essa pessoa. Em algumas situações, é necessário a inclusão das famílias em programas de assistência social para evitar situações de vulnerabilidade social/financeira”, salienta.

O acompanhamento psicológico, segundo ela, deve ajudar o familiar a conviver com a dúvida, retomar atividades cotidianas e construir uma narrativa sobre a situação vivenciada, sem exigir que a pessoa simplesmente “supere” a ausência.

Alguns sinais podem indicar a necessidade de buscar ajuda profissional: abandono dos cuidados básicos, dificuldade para realizar tarefas simples, desesperança prolongada, apatia, isolamento social, culpa intensa, desejo de autopunição e insônia.

Fabiane recomenda que pessoas próximas não minimizem esses sinais e auxiliem na busca por ajuda profissional. Frases como “vai passar” ou “você precisa reagir”, segundo ela, podem dificultar o processo em vez de ajudar.

Em casos de desaparecimento, não é necessário esperar 24 horas para registrar. O Boletim de Ocorrência deve ser feito imediatamente após perceber a ausência.

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