Nos anos 90, quando eu era criança, não precisava de muito para ser feliz. Uma bicicleta, alguns amigos, uma rua tranquila e uma tarde inteira pela frente eram suficientes.
A gente inventava personagens, imitava os Power Rangers, fazia comidinha de areia, jogava bola, brincava de esconder e de taco na rua. Ralava os joelhos, passava Merthiolate e voltava a brincar. Quando a gripe chegava, meu pai aparecia com seus tratamentos caseiros: bafo de eucalipto, gargarejo de vinagre e sal e chá quente. E lá estávamos nós, esperando melhorar para voltar à rua.
A escola era o lugar de encontrar os amigos, mas nada superava aquelas tardes que pareciam não ter fim. A casa dos avós estava sempre aberta. Tinha bolinho de chuva, café passado e uma avó que parecia ter todo o tempo do mundo. Os vizinhos entravam sem avisar, dividiam a rua e a vida, quase como irmãos.
Uma caixa de papelão virava casa, carrinho ou nave espacial. Pedaços de madeira viravam tacos, casa na árvore e carrinhos de lomba. Não registrávamos os momentos porque estávamos ocupados demais vivendo.
Salão de beleza, roupa de marca, agenda cheia? Nem pensar! Nossa grande programação era fazer os temas, tomar banho e perguntar: “Posso ir brincar?”
Hoje, olhando para as crianças, me pergunto se, na tentativa de oferecer tudo, não estamos retirando justamente o que a infância tem de mais precioso: tempo, liberdade, criatividade e simplicidade.
Inglês, esporte, cursos, telas, festas e viagens. A infância ganhou tantos compromissos que, às vezes, parece uma preparação antecipada para a vida adulta. E eu mesma preciso me vigiar para não cair nessa armadilha.
Queremos proteger nossos filhos de tudo: da frustração, do erro, da decepção, do tédio e até das consequências de suas próprias escolhas. Mas será que, tentando evitar cada dificuldade, não estamos impedindo que aprendam a enfrentá-las?
Filhos também são passarinhos. Precisam de ninho, mas precisam aprender a voar. Nosso papel não é impedir todas as quedas, mas ensinar que são capazes de levantar.
E há outra pergunta que me inquieta: estamos criando crianças felizes ou crianças que acreditam que precisam estar felizes o tempo todo?
Será que festas caras, presentes, roupas e viagens substituem presença? Será que estamos tão preocupados em oferecer coisas que esquecemos de oferecer tempo?
Infância também precisa de limites. De ouvir não, perder um jogo, pedir desculpas, esperar por um presente e compreender que nem sempre teremos dinheiro ou razão. Precisamos acreditar nos nossos filhos sem colocá-los acima de tudo e de todos. Protegê-los sem impedir que cresçam.
Talvez a infância não precise ser perfeita. Precise apenas ser vivida.
Com menos pressa, comparação, telas e necessidade de parecer. Com mais rua, imaginação, joelhos ralados, abraços de avó e tardes sem nada marcado.
Porque um dia nossos filhos crescerão. Terão boletos, horários, responsabilidades e preocupações suficientes.
E talvez, assim como nós, dariam tudo para voltar a uma daquelas tardes em que a maior preocupação era ouvir a mãe gritar da janela que estava na hora de entrar.
Deixem as crianças serem crianças. A vida inteira elas terão para ser adultas, mas a infância não volta para brincar outra vez.





