O Centro de Bento Gonçalves concentra comércio, serviços, patrimônio histórico, gastronomia e espaços que fazem parte da própria formação da cidade. O desafio colocado para os próximos anos é qualificar esse território para que as pessoas encontrem motivos para circular, permanecer e viver nele, como abordam os entrevistados.
Para a diretora-executiva do Sindicato Empresarial de Gastronomia e Hotelaria Região Uva e Vinho (SEGH), Márcia Ferronato, a discussão precisa considerar transformações que ultrapassam os limites da área central, como novos hábitos de consumo, crescimento urbano, trânsito e mudanças nas demandas de moradores e visitantes.
A particularidade do turismo de Bento Gonçalves também entra nessa equação. Parte expressiva da experiência está relacionada ao interior e a roteiros consolidados ligados ao vinho, à cultura e à paisagem rural, segundo Márcia. Nesse cenário, o Centro tende a assumir uma função complementar na jornada do visitante.
Isso, entretanto, não significa falta de potencial. Para Márcia, Via del Vino, edificações históricas, Igreja Santo Antônio, Prefeitura, comércio, shopping, hotéis e estabelecimentos gastronômicos formam uma oferta que pode ser melhor articulada e apresentada. “O Centro deve ser agradável para o morador e, consequentemente, também será para o turista”, afirma.
Mais do que recuperar o passado
Para o prefeito Amarildo Lucatelli, a transformação dos hábitos exige que a discussão não seja orientada somente pela tentativa de reproduzir o movimento que a região central teve em outros períodos. A administração municipal trabalha com a perspectiva de construir uma nova forma de ocupação, capaz de acompanhar a cidade atual. “Precisamos pensar no futuro e atualizar a forma de ocupação desse espaço”, afirma Lucatelli. “É necessário criar novos atrativos e experiências que façam com que as pessoas tenham motivos para permanecer, circular pela região e também consumir no comércio local”, acrescenta.
A intenção passa por combinar intervenções urbanas com atividades capazes de gerar fluxo em diferentes momentos do ano. Atualmente, eventos como a Feira da Agroindústria e as programações de Natal e Páscoa já utilizam a região central e são apontados pela Prefeitura como exemplos de ações que levam o público ao local.
Na avaliação de Márcia, porém, qualquer estratégia precisa começar pela compreensão de quem utiliza o Centro. Ouvir moradores, comerciantes, empreendedores e turistas permitiria identificar demandas e, ao mesmo tempo, reconhecer ativos que já estão disponíveis, mas que nem sempre são percebidos ou divulgados. “O roteiro, o produto e o serviço precisam ser pensados e implementados também a partir do olhar do turista”, ressalta.
Infraestrutura para permanecer
A capacidade de atrair pessoas também passa por aspectos cotidianos da experiência urbana, como calçadas, acessibilidade, sinalização, paisagismo, serviços e locais de convivência. Para Márcia, a infraestrutura constitui uma das três frentes prioritárias, ao lado da valorização do patrimônio e da organização e promoção dos produtos e serviços existentes. A proposta não é necessariamente criar tudo novamente, mas tornar mais acessível aquilo que Bento já possui.
Na Prefeitura, a perspectiva é semelhante. Segundo Lucatelli, esses elementos deverão integrar o projeto de qualificação da região. “A proposta é pensar o Centro de maneira integrada, considerando não apenas a circulação de pessoas, mas também a acessibilidade, o paisagismo, a sinalização e a criação de espaços mais adequados para convivência”, explica o prefeito.
Patrimônio também pode ser turístico
Outro ativo apontado como estratégico está na própria história de Bento Gonçalves. Para Márcia, catalogar o patrimônio, contar a história dos prédios e tornar essas informações acessíveis permitiria transformar elementos presentes no cotidiano em experiências para moradores e visitantes.
Parte desse movimento já ocorre por meio do Walking Tour Via del Vino, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Turismo. O passeio guiado percorre locais como a Cruzinha, Igreja Santo Antônio, Prefeitura e construções relacionadas à história do município.
Para isso, Márcia considera importante que a região ofereça algo complementar aos roteiros já consolidados. “Se o Centro apresentar diversidade e complementaridade em relação às rotas, tende a despertar mais interesse no turista”, avalia.
Rua Coberta
Entre as propostas está a implantação de uma Rua Coberta na rua Cândido Costa. A iniciativa aparece entre as demandas defendidas pelo Sindilojas Regional Bento e discutidas no âmbito do Bento+20. Em abril deste ano, ao assumir a presidência da entidade, Plínio Mejolaro incluiu o projeto entre as pautas que pretende levar adiante, juntamente com melhorias na iluminação da Marechal Deodoro e o fortalecimento do Vinho Encanado.
A proposta para a Cândido Costa não deve ser confundida com a Rua Coberta já existente na rua Dr. Rolando Gude, no bairro Planalto A ideia de levar uma estrutura semelhante ao coração da cidade, por sua vez, não é recente. Já havia registro, em 2020, de um projeto para instalação de uma cobertura na Cândido Costa, entre a Marechal Deodoro e a Barão do Rio Branco.
Agora, conforme Lucatelli, a proposta voltou à mesa dentro de uma discussão mais ampla sobre a qualificação da área central. O projeto ainda não está fechado. “Estamos alinhando com o IPURB. Neste momento, estamos nos detalhes e avaliando possibilidades”, informa o prefeito.
A estrutura é pensada como um possível espaço para ampliar as opções já disponíveis, incluindo gastronomia e produtos associados à identidade de Bento Gonçalves. Para Márcia, entretanto, o sucesso de qualquer novo equipamento depende de sua conexão com aquilo que já funciona no entorno. “Toda novidade é bem-vinda, desde que venha para somar ao que já existe”, pondera.
Um Centro pensado para quem vive e visita
Apesar das diferentes análises, Prefeitura e setor turístico convergem em um aspecto: a melhoria da região central dificilmente ocorrerá a partir de uma ação isolada. Obras podem otimizar o espaço físico, enquanto eventos geram movimento pontual e novos empreendimentos ampliam a oferta. O desafio está em conectar essas frentes e garantir continuidade. “Unir, ouvir e planejar em conjunto é, na minha opinião, o caminho”, reforça Márcia.
Lucatelli também sustenta que a construção deve envolver moradores, comerciantes, entidades, setor turístico e administração municipal. Para o prefeito, a expectativa é que as intervenções resultem em uma região que volte a estimular encontros e convivência, sem deixar de acompanhar as transformações pelas quais a cidade passou. “A Via del Vino é o coração da nossa cidade e queremos que continue sendo, cada vez mais, um ponto de encontro”, declara.
Para Márcia, parte desse avanço pode estar justamente em reconhecer melhor os atrativos que já estão presentes no cotidiano. “Não é necessário reinventar a roda; muitas vezes, basta apresentá-la de formas diferentes, facilitando o acesso e despertando o interesse de moradores e turistas”, conclui.




