Quinta-feira, 17 de Setembro de 2026

ÚLTIMA HORA

O tempo passa e o vento ainda sopra

Todo setembro, o Rio Grande veste novamente suas roupas tradicionalistas. Lá em casa, tira-se o lenço da gaveta, a saia de armação volta ao corpo, encaixamos algum baile, um passeio a cavalo. Nos piquetes, acendem-se os galpões, passa-se o mate, as crianças vestem a pilcha, o churrasco reúne famílias e a gaita lembra que pertencemos a uma história anterior a nós.

O 20 de Setembro nos leva a 1835, ao início de uma guerra que duraria dez anos. A Revolução Farroupilha marcou a identidade gaúcha: orgulho, coragem, resistência e apego à terra. Mas amadurecer uma tradição é olhar para ela inteira, com grandezas e contradições.

Quando pensamos naquela guerra, imaginamos homens a cavalo, lanças, batalhas e comandantes. Mas quem ficou quando eles partiram?

Erico Verissimo compreendeu bem essa outra face da nossa história. Em O Tempo e o Vento, enquanto os homens atravessam guerras e revoluções, são muitas vezes as mulheres que atravessam o tempo.

Ana Terra. Bibiana. Mulheres que esperam, trabalham, criam filhos, enterram seus mortos, protegem suas casas e recomeçam. Enquanto ruas e cidades ganhavam os nomes dos homens que foram para a guerra, muitas delas impediam que tudo desmoronasse e ficaram apenas na memória das famílias. Talvez o vento de Erico carregue mais vozes femininas do que percebemos.

Quase duzentos anos depois, continuamos chamando nossas mulheres de fortes. Guerreiras. Prendas. Mães. Esteios da família. Mas será que as respeitamos na mesma proporção em que as homenageamos?

Em 2026, os números da violência contra a mulher no Rio Grande do Sul interrompem qualquer romantização. Até agosto, mais de cinquenta mulheres já haviam sido vítimas de feminicídio, além de centenas de tentativas e milhares de ameaças e agressões.

Mais de cinquenta mulheres mortas. E não estamos em guerra.

Somos um Estado que se orgulha da força de suas mulheres. Mas nenhuma mulher deveria precisar ser forte para sobreviver ao homem que um dia disse amá-la.

Durante as guerras, elas ficaram com a terra, os filhos, a fome, o medo e os mortos. Reconstruíram casas e famílias. Quase dois séculos depois, há mulheres enfrentando dentro de casa batalhas silenciosas que deixam marcas profundas.

O tempo passou. Mudaram as roupas, as cidades, as leis e os costumes. Mas alguns ventos ainda precisam parar de soprar.

Neste 20 de Setembro, talvez honrar nossa história também signifique corrigir o presente. Não basta colocar vestidos de prenda em nossas meninas e contar-lhes sobre a força das mulheres do Rio Grande. Precisamos ensinar aos nossos meninos que força nunca foi domínio, ciúme nunca foi amor, respeito não é favor e mulher alguma pertence a alguém.

E que, no futuro, o vento possa contar a história de um Rio Grande onde uma mulher não precise sobreviver para ser chamada de forte.

Que ela simplesmente possa viver. Amar sua terra, orgulhar-se de suas raízes, de seus homens e de sua história — sem que, para isso, precise temê-los.

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