Quarta-feira, 09 de Setembro de 2026

ÚLTIMA HORA

Independência ou morte?

Passada a Semana da Pátria, o 7 de Setembro sempre nos convida a olhar para trás. Há mais de duzentos anos, o Brasil rompia seus laços políticos com Portugal e começava, ao menos formalmente, a escrever a própria história. Tornamo-nos uma nação independente, com território, leis, instituições e soberania.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja quando conquistamos a independência. É o quanto aprendemos, de fato, a ser independentes.

Somos livres quando conseguimos tomar decisões pensando no interesse do país e de sua população? Somos independentes quando nossa economia, nossas escolhas e até nossos debates parecem tantas vezes condicionados por interesses externos ou por grupos internos poderosos? E somos verdadeiramente democráticos quando parte da população já não acredita que sua voz tenha força para mudar alguma coisa? Em ano eleitoral, essas perguntas ganham ainda mais peso. Democracia não deveria ser apenas o direito de escolher um nome na urna. Deveria significar participação, responsabilidade, fiscalização e igualdade diante das instituições. De pouco adianta termos leis no papel se a sociedade carrega a sensação de que elas não alcançam todos da mesma maneira. Quando nasce a percepção de que existem “dois pesos e duas medidas”, não é apenas uma decisão que perde credibilidade. São as próprias instituições que começam a pagar a conta. E talvez seja justamente por isso que a política tenha perdido tanto prestígio.

Pergunte a uma criança o que ela quer ser quando crescer. Médica, professora, policial, jogador, veterinária, engenheira, astronauta… Quantas responderão espontaneamente: “quero ser político”?

A política deveria ser uma das formas mais nobres de servir à sociedade. Administrar recursos públicos, criar leis, defender direitos, construir oportunidades. Mas corrupção, privilégios, promessas não cumpridas e disputas que muitas vezes parecem mais preocupadas com pessoas e partidos do que com soluções fizeram da política, para muitos brasileiros, sinônimo de desconfiança.

Eu reconheço meus privilégios. Sou mulher, branca, tive acesso à escola pública, pude estudar, fazer faculdade, aprender inglês, viajar. Cresci entre livros e música. Tenho trabalho, plano de saúde e nunca precisei abandonar meu país para fugir da fome ou de uma guerra.

Por isso, talvez meu voto não deva ser apenas sobre o que é melhor para mim.

Voto por quem é criança e é cuidado pelo irmão enquanto a mãe trabalha fora. Por quem abandona a escola para ajudar na renda familiar. Por quem tem um filho sem creche e não consegue emprego. Por quem mora em encostas, sofre violência ou sequer teve oportunidade de aprender a ler. Voto por quem defende o trabalho, produz, empreende, paga impostos ou sustenta o país. Desejo um Brasil onde todos tenham a possibilidade de chegar mais longe.

Quero meus impostos bem investidos. Quero corrupção combatida. Quero instituições confiáveis, ciência, educação, segurança, trabalho e desenvolvimento. Quero candidatos preparados, honestos, com propostas possíveis e coragem para colocá-las em prática.

Não espero um governo perfeito. Quem assumir em janeiro vai errar e deverá ser cobrado, como acontece em qualquer democracia e sei que sozinho não fará tudo.

Mas votar certo é decidir que país queremos construir e fiscalizar quem recebeu nossa confiança.

A Independência não terminou às margens do Ipiranga. Ela é uma construção diária.

E talvez o grito que ainda nos falte não seja “Independência ou Morte”, mas algo muito mais difícil de praticar: independência com consciência.

Liberdade com responsabilidade.

E democracia com cidadania.

Porque, se não lutarmos pela independência de todos, cedo ou tarde, a desigualdade e a corrupção dominarão as cadeiras do Congresso.

E aí, sim, talvez nos reste apenas a morte — não de um país, mas da esperança de que ele possa ser melhor.

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