Com cerca de 70 casas, o Pomarosa é um bairro pequeno, formado em grande parte por famílias que vivem há décadas na região. A presença de crianças é uma das características apontadas pelos moradores e também está no centro de uma das principais demandas da comunidade: a falta de um espaço adequado para lazer.
A Estrada da Vindima, que passa pelo bairro, é o principal acesso ao Vale dos Vinhedos, principal destino turístico de Bento Gonçalves. Por isso, o movimento de veículos é intenso e faz parte da rotina dos moradores. A velocidade dos carros é uma das preocupações da comunidade, especialmente pela presença de muitas crianças no bairro.
Trânsito preocupa moradores
Para Aline da Luz, que vive no Pomarosa há mais de 30 anos e atualmente mora com o marido e os dois filhos, a segurança viária está entre os principais problemas. “Para nós, o fluxo de carros é a principal preocupação porque as crianças brincam ali e os veículos passam em alta velocidade”, relata.
Aline explica que há apenas um quebra-molas na região, localizado em frente à igreja. A ausência de outros dispositivos de redução de velocidade é apontada como uma preocupação diante da circulação de pedestres.
A preocupação com o trânsito também aparece na Rua Francisco Alvano de Moraes, que passa pelo bairro. Morador do Pomarosa há aproximadamente 40 anos, Ervino Alves chama atenção para as condições da via. “Essa rua fica muito cheia de buracos. Entram caminhões pesados e, quando chove, ela já fica cheia de buracos novamente. Eles patrolam, mas logo volta a ficar ruim”, relata.
Alves reconhece a dedicação do presidente nas ações voltadas às crianças. “Eu tiro o chapéu para o Paulo nessa parte”, aponta.
Crianças sem espaço para brincar
A falta de uma área de lazer aparece associada diretamente à questão do trânsito. De acordo com Paulo Gaieski, presidente do bairro, praticamente todas as casas do bairro têm crianças.
Aline também chama atenção para a ausência de um local destinado às atividades infantis. “Não tem espaço de lazer para as crianças. Como as casas não têm pátio, elas acabam brincando na rua, e é muito perigoso”, explica.
Projeto transforma preocupação em ação
Presidente do bairro e responsável pelo projeto ADASV – Amor e Dedicação a Serviço da Vida, Gaieski desenvolve ações destinadas principalmente às crianças. A iniciativa surgiu em 2018 a partir de uma experiência de voluntariado e, desde então, passou a promover atividades em datas comemorativas. “O principal objetivo é não deixar passar despercebidas as datas comemorativas para as nossas crianças, como a Páscoa, o Dia das Crianças e o Natal. Eu abracei esse bairro e essas crianças como se fossem minhas”, afirma Gaieski.

O projeto também auxilia as famílias ao longo do ano com itens como roupas, materiais escolares, fraldas e leite. O foco principal está no Pomarosa, mas parte das doações também é destinada a moradores de outros bairros.
A iniciativa teve origem em uma experiência ocorrida antes da estruturação do projeto. Durante uma entrega de doces da qual participou como voluntário, Gaieski se deparou com um número de crianças maior do que o previsto. “Foi uma experiência muito dolorosa para mim, porque eu vi crianças esperando e percebi que não teria para todas. Depois daquele dia, prometi para mim mesmo que não faltaria mais nada para as crianças”, recorda.
A partir daí, buscou patrocinadores e apoiadores e organizou a primeira festa de Dia das Crianças. Desde então, as atividades passaram a fazer parte da rotina do bairro. “O projeto hoje é fundamental para nós, porque as crianças aguardam por isso. Elas já sabem que vai ter festa e, se o pai não tiver dinheiro para dar um presente, elas vão ganhar um presente e terão uma festa digna”, afirma.
Segundo Gaieski, o projeto é mantido com apoio de empresas e de pessoas que contribuem para a realização das ações. Em 2024, uma das iniciativas alcançou 440 crianças em diferentes bairros.
Demais demandas
Não há escolas no Pomarosa, e as crianças precisam se deslocar para instituições de outras regiões. Segundo Aline da Luz, o transporte coletivo também não circula dentro do bairro. Havia uma linha que atendia a comunidade, mas o serviço foi retirado após a pandemia de Covid-19. Atualmente, o ônibus passa pela via localizada acima do bairro, mas os horários são considerados limitados. Por outro lado, o transporte escolar disponibilizado para as crianças facilitou o deslocamento das famílias. Alves destaca que, antes da medida, os estudantes precisavam atravessar a via de grande movimento para chegar ao ponto de embarque. “Na educação a gente não pode se queixar, porque o Paulo conseguiu o ônibus para levar e trazer as crianças. Antes elas tinham que atravessar esse asfalto, que era muito perigoso. Agora o ônibus pega as crianças aqui”, relata.
Em relação à infraestrutura, os moradores não apontam problemas com pavimentação, iluminação ou coleta de lixo como as principais demandas. Aline considera que esses serviços estão sendo atendidos, enquanto Ervino afirma que a coleta passou por um período de dificuldades, mas voltou a funcionar melhor. Na saúde, o Alves não possui unidade própria e os moradores dependem de serviços de outras regiões. Aline cita a proximidade com a UPA como um ponto positivo, enquanto Alves relata dificuldades para conseguir encaminhamentos e exames especializados.
Costura vira fonte de renda para moradora do bairro
Entre as histórias de moradores do Pomarosa está a de Ivania F. Dias Willms, que cresceu no bairro junto da família e atualmente vive no local com os três filhos. A relação dela com a costura começou ainda na adolescência, quando aprendeu observando a tia trabalhar. Aos 13 anos, ganhou a primeira máquina de costura de uma senhora para quem cuidava dos netos.

A atividade passou a fazer parte da vida de Ivania, inicialmente voltada aos trabalhos para familiares. Mais tarde, ela interrompeu a costura por alguns anos para se dedicar aos filhos. Depois de trabalhar com faxinas e precisar deixar a atividade por problemas na coluna, decidiu retomar a profissão. “Eu pensei que precisava encontrar alguma coisa para fazer, porque não podia ficar parada. Tinha a máquina em casa e resolvi fazer manutenção e voltar a costurar”, relata.
Renda para as despesas da família
Há cerca de oito meses, Ivania colocou uma placa na frente de casa para divulgar e passou a atender outros clientes. A atividade voltou a contribuir de forma mais significativa para o orçamento familiar. “Ajuda bastante na minha renda. Com esse dinheiro consigo pagar pequenas contas, comprar o que falta em casa e ajudar com as despesas”, afirma.
Entre esses gastos está a medicação do filho mais velho, David, de 21 anos, que tem autismo. Ivania conta que uma parte do dinheiro obtido com a costura é destinada à compra dos remédios.
Cuidado e convivência
Parte da rotina de Ivania é dedicada aos cuidados com David. Os dois realizam acompanhamento no Centro de Atenção Psicossocial no bairro Maria Goretti, espaço pelo qual ela demonstra carinho ao falar das experiências vividas ali.
Ivania conta que gosta especialmente de ouvir as histórias de quem participa dos grupos. “Eu percebo que não sou a única pessoa. Tem outras pessoas que passam por situações delicadas e você pode ajudar, dar um conselho, um abraço, conversar um pouquinho. É muito gratificante”, afirma.
Lá também Ivania encontrou uma forma de compartilhar algo de que gosta. Ela fez dois cursos de manicure e, embora não tenha se identificado com a atividade como profissão, leva seus materiais para os encontros. “Eu gosto de fazer. Então, cada vez que vou lá, participo do grupo da beleza e levo todas as minhas coisas de manicure. Divido meus esmaltes, minhas lixas e as coisas que tenho com as minhas amigas do grupo. E todas nós saímos felizes, porque sempre sai alguém de unha pintada”, conta.

Crochê também mantém vínculo
Aline da Luz também transformou uma habilidade desenvolvida desde a infância em uma atividade que realiza atualmente. Além da produção e venda de doces, ela trabalha com crochê há cerca de 15 anos.
O aprendizado começou ainda quando era criança, por curiosidade, com a ajuda de uma amiga. Hoje, produz peças por encomenda e também mantém itens para pronta entrega. “Faço peças por encomenda e também tenho algumas para pronta entrega. Pode ser para presentear também”, explica.

Aline conta que pretende organizar o porão da casa, onde existe uma garagem, para expor as peças de crochê. A divulgação do trabalho ocorre principalmente entre pessoas conhecidas e pelas redes sociais.
A atividade representa uma das iniciativas de moradores que desenvolvem pequenos empreendimentos a partir das próprias casas. Em um bairro pequeno, onde muitas famílias se conhecem há décadas, essas relações também ajudam a movimentar a comunidade.





