ÚLTIMA HORA

Marido de Aluguel: falta de tempo aumenta procura por pequenos reparos

Trocar uma torneira, instalar uma prateleira, consertar uma tomada ou montar um móvel. Pequenos reparos que fazem parte da rotina, mas que nem sempre são fáceis de resolver quando falta tempo, conhecimento ou ferramenta. É nesse cenário que ganha espaço o chamado serviço de “marido de aluguel”, profissionais que oferecem diferentes tipos de manutenção e reparos para residências.

De acordo com Fabio Adílio de Carli, profissional que atua na área há 17 anos, a procura por esse tipo de serviço tem aumentado em Bento Gonçalves. “Eu comecei montando móveis, porque, na época, havia uma demanda grande por esse serviço. Eu morava em Passo Fundo, uma cidade grande, e comecei trabalhando nessa área. Só que, quando você vai montar um móvel na casa de uma pessoa, muitas vezes ela também pergunta: ‘Você não instala uma torneira para mim, que está vazando? Não conserta o chuveiro? Não arruma aquela tomada?’. E eu fui percebendo que havia espaço para oferecer outros serviços. Então comecei a fazer esses pequenos reparos, e, com o tempo, as coisas foram se ampliando para outros segmentos e outras áreas. Foi assim que começou e, desde então, não parei mais”, frisa.

Fabio Adílio de Carli

Para Fagner Meotti, a atividade começou como uma forma de complementar a renda familiar e, atualmente, é conciliada com o trabalho formal. “Durante a semana, eu concilio os atendimentos, sempre fazendo agendamentos a partir das 17h e marcando serviços mais rápidos, como instalação de chuveiros e torneiras, instalação de cortinas, painel de TV e demais atividades que não demandem muito tempo para execução”, conta.

De acordo com Cristiano Diefenthaler Sartori, a atuação como “marido de aluguel” começou ainda na infância, a partir das necessidades de manutenção dentro de casa. Com o passar dos anos e a formação técnica, ele percebeu que os conhecimentos adquiridos também poderiam se transformar em uma fonte de renda extra. “Depois que me formei no ensino médio, cursei técnico em mecânica e também eletrotécnica. A partir desse momento, quando eu tinha 25 anos, percebi que conseguia resolver praticamente todos os pequenos reparos dentro de casa, incluindo consertos de eletrodomésticos, como micro-ondas, chaleiras elétricas, máquinas de lavar e até computadores. Naturalmente, depois de comentar sobre essas atividades, alguns amigos e parentes começaram a me procurar, pedindo ajuda para coisas que eu considerava simples de resolver. Foi então que percebi que poderia transformar esse conhecimento em uma fonte de renda extra”, menciona.

Cristiano Diefenthaler Sartori

Serviços mais procurados
Sartori relata que, entre os trabalhos com maior demanda, estão os reparos básicos. “Serviços elétricos, como troca de lâmpadas, tomadas e interruptores; serviços no sistema hidráulico, como troca de torneiras e boias de vaso sanitário; lubrificação e regulagem de aberturas; e pequenas pinturas de parede ou móveis. Corte de grama também é um serviço muito procurado. Devido à minha formação e experiência, também sou procurado para reparos mecânicos e elétricos de máquinas industriais, como masseiras, laminadoras e fornos de padarias, e também para instalações elétricas de equipamentos novos”, aponta.

Para de Carli, a demanda pelo trabalho nunca parou. “Eu só não construo casa, de resto, tudo pedem. Tem coisas inusitadas que me aparecem no dia a dia e eu digo: ‘Não, isso eu não faço’. Inclusive, limpar a rede de esgoto, que seria um caminhão, uma empresa especializada. E também tem muita coisa boba que eu falo: ‘Não, faz você’. O que me chama atenção é que as pessoas têm medo de desafios”, relata.

Percepções sobre a demanda
A avaliação sobre o movimento do setor, no entanto, varia entre os profissionais entrevistados.
Para Meotti, as demandas sempre existem e continuam. “Não vejo um aumento ou decréscimo significativo em Bento Gonçalves”, observa.

Sartori aponta que, no seu ponto de vista, a demanda diminuiu muito no último ano, mas frisa: “Não sou parâmetro para definir isso, pois não me dedico 100% para essa atividade”.
Já de Carli observa outro aspecto do mercado: o aumento da procura pelos serviços, que, segundo ele, ocorre principalmente por meio de indicações de clientes. “Não divulgo mais meu trabalho em lugar nenhum e, cada vez mais, tenho serviço. Eu nem pergunto para as pessoas de onde elas vêm, mas 99% dos meus clientes chegam por indicação. A geração passada, das décadas de 1950 e 1960, ainda fazia muitos desses reparos em casa. Só que, com o aumento da quantidade de produtos e da tecnologia nos equipamentos domésticos, os desafios também aumentaram e muitas dessas pessoas deixaram de fazer. As gerações mais novas, por sua vez, não querem fazer”, analisa.

Por que os pequenos reparos deixaram de ser feitos em casa?
Sartori aponta três fatores que, na avaliação dele, ajudam a explicar por que as pessoas estão deixando de realizar serviços por conta própria. “As pessoas desperdiçam muito tempo na internet olhando coisas que não agregam em suas vidas, quando poderiam utilizar essa ferramenta para aprender a realizar reparos em suas próprias coisas. Na Europa, existe uma cultura muito forte do ‘faça você mesmo’. Aqui na nossa cidade, temos uma influência dessa herança cultural, que é muito positiva nesse aspecto, mas que está se perdendo com a globalização e as novas gerações. Em nível nacional, a geração da minha mãe, por exemplo, tinha aulas de costura, pintura, educação financeira e vários outros tipos de habilidades que não são trabalhadas atualmente nas escolas”, frisa.

Meotti avalia a questão de outra forma e aponta que a rotina cada vez mais ocupada é um dos principais motivos que levam as pessoas a contratar profissionais para realizar pequenos reparos em casa. “Na minha percepção, hoje existem dois principais motivos pelos quais as pessoas preferem contratar profissionais para executar esses serviços. O primeiro é a rotina de trabalho, pois muitas pessoas, depois do expediente, fazem faculdade ou têm alguma outra atividade para complementar a renda. Com isso, acabam não conseguindo conciliar o tempo necessário para realizar os serviços por conta própria. Além da falta de interesse dos jovens em aprender essas atividades, muitos consertos são feitos em residências onde tem um ou, às vezes, até dois rapazes que poderiam eles mesmos dar suporte à família e resolver os problemas do lar”, frisa.
Para de Carli, essa mudança também está relacionada a uma questão cultural. “Essa geração, não vai limpar fogão. É diferente”, finaliza.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ANUNCIE CONOSCO

Sua marca em destaque para milhares de leitores