O que falta para o Centro de Bento Gonçalves voltar a ser um ponto de encontro para moradores e também se transformar em um atrativo para turistas? A pergunta reúne diferentes opiniões sobre o futuro da região central, que vão desde a criação de novos espaços de convivência e eventos até melhorias na mobilidade, na infraestrutura e na oferta de serviços. Entre as sugestões, estão a necessidade de aproveitar melhor locais já existentes e criar motivos para que as pessoas não apenas passem pelo Centro, mas permaneçam nele.
Para a presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Bento Gonçalves (SEC-BG), Orildes Lottici, um dos pontos que precisam ser fortalecidos é a oferta de atividades capazes de atrair famílias. “Não tem atividades infantis, não tem atrativos para que uma família de fora da cidade, ou mesmo dos bairros de Bento, para ir até o centro. Deveríamos ter mais serviços e ferramentas públicas de convivência. Temos espaços subaproveitados, como a Praça Centenário, por exemplo. Faltam incentivos para que a nossos produtores possam expor permanentemente sua produção, seja ela gastronômica ou cultural. Estrutura adequada de atendimentos e serviços, como banheiros e praças estruturadas.”
A avaliação é semelhante à da presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves (CDL-BG), Helenir Bedin. A revitalização do quadrilátero central é uma das frentes de atuação da entidade e, segundo ela, o principal desafio não está na variedade do comércio, mas em criar condições para que moradores e visitantes permaneçam mais tempo na região. “O comércio bento-gonçalvense é forte, diverso e bem estabelecido, o que falta não é oferta, é permanência. Hoje o morador vem ao Centro, resolve o que precisa e vai embora. Para que ele fique, é preciso qualificar o espaço público: calçadas em boas condições, iluminação adequada, mobiliário urbano, arborização, acessibilidade real para idosos e pessoas com mobilidade reduzida. É preciso também pensar o Centro para além do horário comercial, com usos que mantenham a área viva no início da noite e nos fins de semana. Um centro que só funciona das 9h às 18h perde metade do seu potencial. Nosso entendimento é de que revitalizar não é apenas embelezar: é criar condições para que as pessoas queiram estar ali, circular, encontrar-se e consumir”, observa.

Mais opções de lazer e convivência
Entre os moradores, a criação de atividades que estimulem a ocupação dos espaços públicos aparece como uma das principais sugestões. Para Mariel Meneses, morador do Centro da cidade, o local central precisa ter menos eventos que atrapalhem a utilização e a preservação da praça. “Alguns toldos ou palcos acabam deixando o local menos atrativo, além de prejudicarem o comércio local e a mobilidade. Acredito que seria uma boa ideia realizar eventos voltados à cultura da Serra Gaúcha, valorizando os produtores e comerciantes locais”, relata.
Além disso, ele cita que no local há vendedores de artesanato e de produtos locais, que também precisam de mais incentivo. “É importante investir também em divulgação. Muitas vezes, alguns eventos acontecem e eu só fico sabendo quando passo em frente ou vejo pessoas comentando no próprio dia”, conta.
Meneses também chama atenção para um elemento que considera importante na identidade turística de Bento Gonçalves, o Chafariz de Vinho. “É algo que faz parte da identidade turística da cidade, mas que, infelizmente, está sendo deixado de lado. Os turistas vêm até aqui, tiram fotos e demonstram interesse pelo local. E isso não é algo recente. Acho que esse tipo de atração deveria receber mais atenção e ser melhor valorizado”, nota.
A Via del Vino também aparece como um espaço que poderia ser mais aproveitado. Para Amanda Caroline de Abreu, moradora do bairro Botafogo, a valorização de outros pontos da cidade, como o bairro Planalto, acaba fazendo com que o Centro fique em segundo plano. “Seria legal usar a Via del Vino como atrativo no fim do dia durante a primavera e verão, por exemplo, para colocar food-truck, algumas mesinhas, venda de bebidas como chopp, drinks sem e com álcool, alguns brinquedos para as crianças, de vez em quando uma música, esse é o tipo de coisa que me atrai. O espaço é muito bonito para circular apenas de dia como forma de caminho para outro lugar. Quando acontecem esses eventos na Planalto sempre lota, então em alguns fins de semana é possível fazer isso”, diz.
Centro também à noite
A falta de opções no período noturno é outro ponto levantado pelos moradores. Para Giana Milani, moradora do bairro Cidade Alta, a região central ainda carece de atividades que estimulem a permanência das pessoas. “Não tem vida noturna, as coisas fecham num horário e aí não tem atividade. Não tem uma loja aberta a não ser no shopping, não tem opções gastronômicas e isso afugenta tanto o morador quanto o turista. Que eles não se sintam convidados a frequentarem o Centro”, frisa.
Claudete Terezinha Bonez, moradora do bairro Borgo, também aponta a concentração de opções de lazer e gastronomia em outras regiões da cidade. “A Rua Coberta faz falta. Poderiam explorar mais os produtos da região trazer para o centro vendas de vinho suco e quando for a safra da uva ter para vender aqui no centro sem precisar ir até o interior. Faltam restaurantes no centro aos domingos. Uma boa cafeteria. Pizzaria . Hoje está tudo concentrado na planalto”, diz.
A criação de uma rua coberta também aparece entre as sugestões. Para Janaína Gasperin, moradora da região central, uma alternativa seria restringir a circulação de veículos na rua em frente à Prefeitura e transformar o espaço em uma área de convivência. “Poderiam colocar uma cobertura bem estilo a de Gramado e ter pelo menos dois bons restaurantes e um bom café nesta mesma rua com mesas externas, deixar este ambiente acolhedor e não tão popular como é hoje, falo porque moro bem próximo ao centro e só se vê povão. Tem que sofisticar este ambiente para acolher turistas. Nossa Via del Vino só tem banco para vagabundo ficar sentado”, relata.
Piero Christofer dos Santos, morador do município, também defende que o Centro tenha ambientes funcionando até mais tarde. “Penso que a ideia não é concorrer com a Via Gastronômica em restaurantes, mas lanches, crepe, sorvete, cachorro-quente, alguém tocando música ao vivo, brinquedos para as crianças, cachorródromo. E se isso for em uma rua coberta, como outra pessoa comentou, ficaria perfeito. Isso aumentaria a frequência de pessoas e consequentemente possíveis compradores do comércio existente”, relata.

Mobilidade, turismo e convivência em debate
A dificuldade de acesso e estacionamento é apontada por diferentes moradores e também pelas entidades. Para Plínio Mejolaro, presidente do Sindilojas, esse é um dos fatores que afastam a população do Centro. “O problema também é que o número de carros nas últimas décadas aumentou um monte. As ruas aqui do centro são as mesmas e os estacionamentos estão todos lotados”, observa.
Amanda Caroline de Abreu,o um dos motivos que a afastam da região. “Eu, por exemplo, não vou mais ao centro pelo trânsito ser horrível, quase não ter vagas públicas e os estacionamentos estarem cobrando um absurdo”, diz.
Já Claudete Terezinha Bonez defende que uma possível revitalização priorize os pedestres. “Isso faz com que as pessoas andem mais a pé, observando melhor as vitrines das lojas e o comércio se preparar melhor para atender o público pois tem lojas que só olhar para o atendente dá vontade de virar as costas e sair”, conta.
Praças e espaços de convivência
A falta de espaços públicos voltados à convivência também aparece entre as sugestões. Giana Milani percebeu a diferença após visitar Santa Cruz do Sul. “Eu fui para lá esse ano e fiquei surpresa em ver as pessoas na praça. Era verão, e a gente vive muito o inverno, mas aqui não temos costume de frequentar praças. E acredito que estejam faltando praças para também frequentar. Ao mesmo tempo precisa existir as pessoas para que a prefeitura possa incentivar as novas praças ou melhorar as que já existem, nós temos a Praça Centenário que é maravilhosa mas infelizmente ela tem bastante caso de assaltos e furtos”, conta.
Turismo e identidade local
A falta de atrativos também é apontada como um obstáculo para a permanência dos turistas no Centro. Giana avalia que a região poderia ter mais espaços culturais e históricos. “Eu até vou trazer um exemplo, uma amiga minha esteve no município com sua mãe e elas me disseram ‘nós vamos dar uma volta pelo Centro o que tem para fazer?’ Olha, eu disse não tem nada, biblioteca não abre ao sábado, não tem um prédio histórico, deveria ter um museu, um centro cultural, são coisas que Bento não investe no centro e deveria ter. Não só o Museu do Imigrante. A população pede isso”, diz.
A identidade dos produtos oferecidos aos visitantes também é uma preocupação de Gladis Carraro Polesso, natural do município. “Os comércios de Bento Gonçalves estão muito populares. Fachadas feias. Artesanato de péssima qualidade, artigos chineses. Não conseguimos comprar nada. Bento Gonçalves é muito mais que isso. Me senti um pouco envergonhada diante dos amigos”, relata.
O comércio diante de novos hábitos
As mudanças no comportamento dos consumidores também aparecem na avaliação de Lucélia Scalcon, moradora do bairro São Roque e que trabalhou durante toda a vida no Centro. “O Centro está ‘morto’. Compras estão diminuindo cada vez mais porque as pessoas estão comprando pela internet, o atendimento esta muito ruim em algumas lojas, ninguém mais se interessa em trabalhar pelos salários baixos e por isso as empresas contratam o que aparece e eles ficam sem vontade de atender. Teria que ter outros atrativos para os turistas. Sem falar que os moradores daqui têm tudo nos bairros e as pessoas acabam optando por nem irem ao Centro”, afirma.
Amanda também observa a concorrência das plataformas digitais e a necessidade de ampliar a oferta comercial. “O valor das lojas também não está competitivo o suficiente com sites da internet como Shopee e Shein. Os shoppings também quase não têm mais nada que chame a atenção. Trazer algumas franquias de lojas de outras cidades ou estados seria lucrativo, redes de restaurantes e fast-foods também, pois muita gente prefere ir ao Vilaggio em Caxias do que frequentar os nossos”, ressalta.

Propostas já em discussão
Além das sugestões apresentadas pelos moradores, algumas propostas já estão sendo discutidas pelas entidades. Plínio Mejolaro cita um projeto desenvolvido no Masterplan, com participação de entidades como CDL-BG, Bento+20 e Sindilojas. Segundo ele, o comércio escolheu três demandas para a revitalização do Centro: a Rua Coberta, o Vinho Encanado e melhorias na iluminação. Ele menciona que o processo já avançou para a elaboração de um pré-projeto. “Na última reunião, juntamente com o CDL, Bento+20, Sindilojas, secretário de Turismo, Henrique Nuncio, secretário de Cultura Evandro Vinícius Manes Soares, além do prefeito, Amarildo Lucatelli, e da arquiteta Magda Cobalchini, foi decidido dar início ao pré-projeto”, conta.
Entre as diferentes opiniões, aparecem alguns pontos em comum: a necessidade de criar motivos para que as pessoas permaneçam no Centro, ampliar as opções de lazer e gastronomia, melhorar a mobilidade e valorizar a identidade local. As propostas apresentadas por moradores e entidades mostram que a discussão sobre o futuro da região vai além de uma mudança estética e envolve a forma como Bento Gonçalves quer ocupar e utilizar seu espaço central.




