O futuro da região central de Bento Gonçalves está em uma análise, que envolve comerciantes, moradores, lideranças e quem circula diariamente pela região. Enquanto a proposta de revitalização é vista por alguns como uma oportunidade de modernizar o espaço, melhorar a circulação e estimular o movimento comercial, outros demonstram preocupação com as mudanças que poderão ser provocadas pela intervenção.
Em contato com a Prefeitura de Bento Gonçalves, o Semanário foi informado de que o projeto de revitalização ainda está em fase inicial. Segundo o secretário municipal de Turismo, Henrique Nuncio, neste momento o município está recebendo ponderações internas que irão contribuir para a definição do escopo inicial da proposta. Diante das discussões sobre o futuro do Centro, a reportagem foi às ruas para ouvir comerciantes e pessoas que circulam pelo local e conhecer suas percepções sobre as mudanças em debate e o que gostariam que fosse feito.
Mais atrativos para movimentar o Centro
Segundo Tarcísio Michelon, o turista precisa de um motivo para frequentar o Centro da cidade, algo que, na avaliação dele, está em falta atualmente. “Já sugerimos ter fornos tradicionais, vinhos de todos os tipos, inclusive coloniais, e pães e cucas, como em Gramado. Tudo muito bem feito. Artesanato típico com dressa, bordados, suplaits, macramê, tricôs, crochês e muitos outros”, relata.
Para Débora Bettoni Nobre, administradora das lojas Soberana, Mundi e Globo Esporte, é necessário criar novos atrativos para estimular a circulação de pessoas pelas ruas do Centro. Entre as possibilidades, ela cita a implantação de espaços destinados às famílias. “Uma das opções seria ter, por exemplo, uma pracinha para as crianças em alguma área que realmente traga as famílias para o local”, sugere.

Centro como espaço de experiência
Na avaliação dela, a possibilidade de implantação de uma Rua Coberta também pode contribuir para movimentar a região e atrair turistas. No entanto, Débora ressalta que a revitalização precisa ser acompanhada de melhorias na infraestrutura, especialmente na oferta de estacionamento. “O turista não está vindo para cá, então isso também poderia atrair. Porém, acho que precisaríamos ter um espaço de estacionamento. Não precisa ser exatamente na área central, mas poderia ser no entorno, porque muita gente deixou de vir por não ter onde estacionar, e pagar estacionamento é muito caro. Os ônibus de turismo também não têm onde estacionar adequadamente para permanecer mais tempo na região”, pontua.
Para ela, o comércio está preparado para receber um público maior, mas é necessário criar condições para que as pessoas tenham motivos para frequentar o Centro. “Estamos prontos para atender. Abrimos aos domingos e ficamos até mais tarde, mas precisamos de algum atrativo extra para que as pessoas venham”, afirma.
Além disso, Débora chama atenção para a necessidade de oferecer opções de alimentação mais acessíveis. “Precisa-se pensar em um âmbito geral para atrair mais pessoas”, frisa.
Na avaliação dela, a relação da população com o Centro também mudou ao longo dos anos. Se antes era necessário frequentar o local para receber o salário, pagar contas e resolver outras questões do cotidiano, hoje muitas dessas atividades podem ser realizadas pelo celular. “Já recebe pelo celular, paga conta e acaba comprando por esse meio. Então, eu acho que o principal é ter uma experiência. O consumir, o comprar em si já não é mais o foco, mas, se a pessoa vier fazer uma experiência no Centro, acaba consumindo”, observa.
Débora reconhece que algumas iniciativas já vêm sendo realizadas, mas considera que ainda há espaço para novos investimentos. Para ela, o planejamento deve priorizar a população local, sem deixar de lado o potencial turístico. “Eu acho que primeiro tem que pensar na comunidade e depois no turista. Muita gente não tem condições de passear em Gramado. Então, teria que ter a mentalidade do turista, mas não necessariamente ser para o turista. Para que nosso próprio povo possa aproveitar, porque muitas das pessoas de Bento não conhecem o Vales dos Vinhedos e nem os Caminhos de Pedra”, relata.
O que diz quem frequenta o local
Para a moradora de Bento Gonçalves, Rosália Washington, o Centro poderia contar com mais opções de lazer e convivência. “Tenho uma filha pequena e uma adolescente. Faltam parquinhos, espaços para jogos e locais para leitura. De resto, está bom”, avalia.

Já para o grupo de turistas formado por Elias Machuca, Rafael Danilo Torres, Brielcy Herrera e, Rosângela Vilchez, o lugar chama atenção pela limpeza, organização e proximidade com diferentes opções de comércio e serviços. “Priorizam a higiene, é muito natural. A decoração também é muito bonita e há um shopping bem perto”, afirmam.
Os turistas também ressaltam a importância de valorizar produtos locais e sugerem que o espaço poderia contar com mais elementos relacionados à identidade de Bento Gonçalves. “Poderia ter vinho. Essa casinha, já que vende coisas próprias, é boa para conhecer o produto da cidade, saber do que é feito aqui. Faz parte da decoração e é muito linda”, comentam.
Entre os pontos que poderiam ser aprimorados, o grupo cita a oferta de espaços de lazer e, principalmente, de banheiros públicos. “Em outro país, como o Equador, há banheiros públicos. Você sai e, em um lugar como esse, encontra, sempre limpo, o tempo todo. Qualquer pessoa pode entrar”, finalizam.

Fotos: Caroline Menegassi




