Passei quase vinte dias em Londres acompanhando um grupo de alunos da nossa escola. Era a terceira vez que caminhava pelas mesmas ruas, atravessava as mesmas estações de metrô e visitava muitos dos mesmos lugares. Ainda assim, tive a sensação curiosa de conhecer uma cidade diferente. Há cerca de dez anos, quando estive aqui pela segunda vez, o cenário era outro. O WhatsApp ainda não havia transformado completamente a forma como nos relacionamos. No metrô, as pessoas conversavam, liam jornais ou mergulhavam em um livro durante o trajeto. O cigarro fazia parte da paisagem e havia menos telas disputando a atenção de quem caminhava pelas ruas.
Agora encontrei uma Londres mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais conectada. Quase ninguém conversa nos vagões. Os jornais impressos praticamente desapareceram. Em seu lugar, celulares ocupam mãos e olhares. Vi menos artistas nas estações, menos lixo pelas ruas, menos cachorros circulando e menos pessoas fumando cigarros convencionais — embora os eletrônicos estejam por toda parte. Também me chamou a atenção a quantidade de estabelecimentos que já não aceita dinheiro em espécie e a pouca necessidade de pedir informações: o celular parece responder a quase tudo.
A tecnologia facilitou a vida, sem dúvida. Mas talvez tenha levado consigo algumas pequenas coisas que nem percebíamos que eram importantes: uma conversa casual com um desconhecido, o hábito de observar a paisagem pela janela do metrô, a descoberta de uma rua por acaso ou simplesmente alguns minutos sem olhar para uma tela. Ao mesmo tempo, ouvi muitas sirenes de ambulâncias e percebi uma presença constante da polícia. Encontrei também uma cidade mais arborizada e florida do que nas minhas visitas anteriores, feitas durante o inverno.
O verão colore Londres de um jeito especial. Os parques ficam cheios, as flores aparecem por todos os lados e a cidade ganha uma atmosfera leve, vibrante e quase cinematográfica. Talvez a parte mais interessante da viagem tenha sido observar nossos adolescentes descobrindo pequenos códigos culturais. Aprenderam rapidamente que, no metrô, idosos e adultos com crianças pequenas têm prioridade para sentar. Que, nas escadas rolantes, ficar à direita é quase uma regra sagrada para permitir a passagem de quem tem pressa. Descobriram que sacolas plásticas gratuitas praticamente não existem, que a banana costuma ser vendida ainda verde e que batata e fritura reinam na culinária britânica. Também aprenderam algo que nenhum livro de inglês poderia ensinar: viver em outro país exige observar antes de julgar, respeitar antes de questionar e adaptar-se sem deixar de ser quem somos. E, apesar de tantas mudanças, algumas coisas continuam impressionando.
A arquitetura permanece deslumbrante. Prédios históricos convivem naturalmente com construções modernas. O transporte continua eficiente e o respeito aos espaços coletivos segue fazendo parte da rotina. Mas talvez a maior mudança não esteja em Londres. Viajar pela terceira vez me fez perceber que uma cidade pode permanecer no mesmo lugar enquanto nós mudamos completamente. Eu já não sou a mesma mulher que esteve aqui há dez anos. Agora observo mais, comparo mais, questiono mais. E, acompanhando adolescentes, passei a enxergar Londres também através dos olhos deles. Talvez seja esse o verdadeiro poder de viajar: não apenas descobrir lugares, mas perceber quem nos tornamos enquanto voltamos a eles. Londres mudou. Eu também. E talvez seja justamente por isso que, mesmo caminhando pelas mesmas ruas, esta tenha sido uma viagem completamente nova.





