O florescimento dos pessegueiros já colore os pomares de Bento Gonçalves e renova as expectativas dos produtores para a safra 2026/2027. Apesar da boa formação das flores observada neste inverno, o setor ainda evita projeções otimistas. O comportamento do clima nos próximos meses, o risco de geadas tardias, o excesso de chuvas e os custos de produção seguem como os principais fatores de preocupação.
O Rio Grande do Sul é o maior produtor de pêssego do Brasil e responde por cerca de dois terços da produção nacional. No Estado, a Serra Gaúcha é uma das principais regiões produtoras, voltada principalmente ao mercado de fruta fresca, enquanto a Zona Sul concentra a produção destinada à indústria de conservas.
No Distrito de São Pedro, dois produtores acompanham diariamente a evolução dos pomares. Ivandro José Lerin, que cultiva pêssegos há mais de 30 anos, e Wagner Sachett, produtor da localidade, relatam que a floração apresenta boas condições, embora o cenário ainda exija cautela.
Floração apresenta bom potencial
Após os desafios enfrentados pelos pomares nos últimos anos, as condições climáticas do inverno favoreceram a entrada das plantas em dormência, etapa considerada fundamental para uma boa floração.
Segundo Lerin, mesmo sem atingir o número ideal de horas de frio, as temperaturas permaneceram estáveis desde maio, sem grandes oscilações, favorecendo o desenvolvimento das plantas. “Foi uma das melhores dormências que já observamos. A estabilidade das temperaturas proporcionou uma floração como eu ainda não havia presenciado”, afirma.
O produtor explica, entretanto, que o comportamento varia conforme a variedade cultivada. “As variedades precoces estão entre 15 e 20 dias atrasadas, chegando a aproximadamente 30 dias em alguns casos. Já as de ciclo médio apresentam cerca de uma semana de atraso, enquanto as tardias ainda não iniciaram a floração”, observa.
A avaliação é semelhante na propriedade de Sachett, que reforça a uniformidade das flores neste início de ciclo. “A floração está muito bonita e bastante uniforme. Tivemos bastante sol antes do inverno e um período frio bem definido, fatores que contribuíram para esse resultado”, ressalta.
Na avaliação do produtor, o desenvolvimento das plantas está dentro do esperado quando comparado ao mesmo período do ano passado.

Cuidados
Mesmo durante a floração, o manejo das propriedades permanece intenso. Nesta fase, os produtores buscam reduzir os riscos de doenças e preparar as plantas para o desenvolvimento dos frutos. “O manejo é voltado principalmente para a adubação e o controle de doenças, buscando preservar o potencial produtivo da planta”, explica Lerin.
Sachett também detalha a importância dos tratamentos fitossanitários e da manutenção da área cultivada. “Neste momento realizamos pulverizações para controle de fungos, utilizamos inseticidas quando necessário e mantemos a limpeza dos pomares”, detalha.
Clima ainda é principal fator de risco
Segundo Lerin, diversos fatores ainda podem alterar o potencial produtivo. “Ainda é muito cedo para um diagnóstico. Clima, doenças, adubação e manejo serão determinantes ao longo dos próximos meses”, ressalta.
Ele acrescenta que uma boa floração representa apenas o primeiro passo para uma safra positiva. “É preciso haver boa fecundação das flores e, depois, realizar um raleio adequado, respeitando a capacidade produtiva de cada planta”, conta.
Sachett compartilha da mesma preocupação, especialmente diante das previsões meteorológicas. “Existe previsão de bastante chuva e ainda pode ocorrer geada tardia. A safra ainda não está garantida”, afirma.
O produtor ressalta que excesso de precipitação também compromete a qualidade da fruta. “Se chover demais, o pêssego perde resistência, sabor e coloração. O clima será decisivo para definir o resultado da safra”, explica.
Custos elevados
Além das incertezas climáticas, o aumento dos custos de produção continua afetando o planejamento das propriedades.
Para Lerin, a alta dos insumos e dos custos operacionais reduz a margem do produtor. “Combustível, energia, máquinas e equipamentos tiveram aumentos significativos. Além disso, tecnologias mais eficientes elevam ainda mais o custo da produção”, relata.
Sachett explica que a mão de obra se tornou uma das maiores preocupações. “Os defensivos aumentam todos os anos, mas hoje o principal problema é o custo dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o mercado não remunera no valor necessário para cobrir esses aumentos”, argumenta.
Oferta e demanda
Mesmo com boa expectativa inicial para os pomares, os produtores evitam fazer previsões sobre preços. Lerin avalia que o cenário econômico também influencia diretamente o consumo. “A preocupação é com a supersafra de outras frutas, como os cítricos, os baixos preços da maçã, o poder aquisitivo reduzido da população e os altos custos logísticos”, explica.
Já Sachett afirma que a remuneração dependerá do volume produzido em todo o mercado. “Se tivermos uma safra média, o preço tende a melhorar. Mas, se houver grande oferta, será difícil aumentar o valor da fruta porque o consumidor também enfrenta limitações financeiras”, esclarece.
Novo ciclo
Embora o início da floração represente um momento de renovação para os produtores, a experiência dos últimos anos faz com que o entusiasmo seja acompanhado por cautela.
Lerin lembra que a fruticultura exige investimentos permanentes, independentemente das incertezas do mercado. “Diferentemente de outras culturas, não é possível simplesmente interromper o cultivo. Precisamos continuar investindo para que a planta complete seu ciclo, sem saber qual será o retorno ao final da safra”, explica.
Sachett resume o sentimento vivido pelos produtores neste início de ciclo. “É um momento de insegurança. A floração é promissora, mas, se o clima não colaborar ou houver uma supersafra, podemos não receber o valor necessário para continuar produzindo”, conclui.
Celebração da florada
A floração dos pessegueiros também vai movimentar Pinto Bandeira, município reconhecido como Capital Estadual do Pêssego. No dia 16 de agosto, das 11h às 16h, será realizado o Festival da Florada dos Pessegueiros, com abertura de pomares para contemplação, música ao vivo e gastronomia local. O evento terá entrada gratuita e busca aproximar visitantes de um dos períodos mais simbólicos da cultura da fruta.
Organizada pela Associação dos Produtores de Frutas de Pinto Bandeira (Asprofruta) e pela Associação dos Produtores de Vinho de Pinto Bandeira (AsproVinho), a programação ainda terá o local definido conforme o andamento da floração. A escolha depende das condições climáticas e do ponto ideal dos pomares para garantir que as flores estejam em destaque na data. “A gente depende da florada. Temos dois locais principais onde esperamos que ela esteja plena, mas só vamos conseguir divulgar na semana, porque o tempo está oscilando bastante e isso influencia muito a floração”, afirma Rubiane Rubbo, presidente da Aprofruta.
Além da contemplação dos pomares, o festival também terá comercialização de produtos locais, e será uma oportunidade para iniciar a divulgação da 7ª Festa do Pêssego, prevista para janeiro.




