Enquanto a maior parte das pessoas desperta para encarar a rotina, o organismo passa por uma das transições fisiológicas mais delicadas do dia. É entre 6h e 12h que se concentra o maior número de eventos cardiovasculares graves, como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC). Segundo um estudo publicado na revista científica Stroke, os casos tendem a ocorrer com maior frequência nas primeiras horas da manhã. Longe de ser uma coincidência estatística, esse fenômeno reflete mudanças naturais do organismo ao despertar, que aumentam temporariamente a vulnerabilidade do coração.
De acordo com o médico Giovanni Zattera Sganzerla, Cardiologista do Hospital Tacchini, esse período é atribuído às mudanças fisiológicas que acontecem quando o organismo desperta. “Na prática clínica observamos que muitos casos também chegam ao pronto atendimento nesse período, o que está em consonância com o que é descrito na literatura”, relata.
O que acontece
Ele explica que ao despertar, o organismo passa por uma ativação natural do sistema nervoso simpático. “Há aumento da liberação de cortisol, adrenalina e noradrenalina, hormônios que preparam o corpo para iniciar as atividades do dia. Como consequência, ocorre elevação da frequência cardíaca, da pressão arterial e da força de contração do coração. Em pessoas saudáveis, essa resposta é fisiológica. Já em indivíduos com placas de gordura nas artérias coronárias, esse aumento súbito da demanda cardíaca pode favorecer a ruptura da placa e desencadear um infarto”, relata o médico.

Segundo ele, nas primeiras horas da manhã, o organismo apresenta um aumento da atividade das plaquetas, maior propensão à coagulação e uma redução temporária da capacidade natural de dissolver pequenos coágulos. Esse conjunto de alterações cria um ambiente mais favorável à formação de trombos. “Quando uma placa de gordura se rompe dentro de uma artéria coronária, esse cenário favorece a formação rápida de um trombo, que pode obstruir completamente o vaso e provocar um infarto agudo do miocárdio”, explica.
Em relação ao uso de medicamentos, Sganzerla explica que as evidências científicas mais recentes indicam que o aspecto mais importante é manter a pressão arterial controlada ao longo das 24 horas, e não necessariamente tomar o anti-hipertensivo à noite. “O melhor horário depende das características de cada pessoa, do tipo de medicamento e, quando disponível, da avaliação através da monitorização ambulatorial da pressão arterial (MAPA). Por isso, qualquer mudança deve ser orientada pelo médico”, frisa.
Histórico familiar
Apesar dos horários matinais, o histórico familiar continua sendo um dos principais fatores de risco não modificáveis para doenças cardiovasculares. “Considera-se história familiar precoce quando um parente de primeiro grau, pai, mãe, irmãos ou filhos, apresentou infarto, morte súbita ou outra doença cardiovascular antes dos 55 anos nos homens ou antes dos 65 anos nas mulheres. Pessoas com esse perfil devem conversar com seu médico para iniciar a avaliação cardiovascular mais precocemente e controlar de forma rigorosa fatores como colesterol, pressão arterial, diabetes, tabagismo e obesidade”, orienta Sganzerla.
Gordura abdominal
O médico alerta que a gordura localizada na região abdominal não funciona apenas como reserva de energia. Sendo que ela produz diversas substâncias inflamatórias que favorecem a resistência à insulina, alteração do aumento da pressão arterial e disfunção dos vasos sanguíneos. “Esse estado inflamatório acelera a formação e o crescimento das placas de aterosclerose, além de favorecer um ambiente mais propenso à coagulação. Por isso, a obesidade abdominal é considerada um importante fator de risco cardiovascular, independentemente do peso corporal total”, menciona.
Saúde mental
A relação entre saúde mental e doenças cardiovasculares tem sido cada vez mais reconhecida pela medicina. Segundo o cardiologista, além dos fatores de risco tradicionais, como hipertensão, diabetes e colesterol elevado, condições como estresse crônico, depressão e ansiedade persistente também aumentam a probabilidade de infarto e de outras complicações cardíacas.
Enquanto o estresse agudo é uma resposta natural do organismo a situações pontuais, o estresse crônico mantém o corpo em estado permanente de alerta. Com isso, há liberação contínua de hormônios como cortisol e adrenalina, que, ao longo do tempo, favorecem alterações na pressão arterial, na glicemia e nos vasos sanguíneos.
De acordo com ele, isso ocorre porque essas condições mantêm ativados mecanismos hormonais e inflamatórios que elevam a pressão arterial, favorecem alterações metabólicas, comprometem a função dos vasos sanguíneos e aumentam a tendência à formação de trombos. Além dos efeitos diretos no organismo, o estresse intenso também influencia hábitos de vida. “Pessoas sob estresse costumam dormir pior, praticar menos atividade física, alimentar-se de forma inadequada e aderir menos ao tratamento médico. Por isso, cuidar da saúde mental deve ser encarado como parte da prevenção cardiovascular, ao lado do controle do colesterol, da pressão arterial, da glicemia e da prática regular de exercícios”, ressalta.
Sintomas de acordo com o Ministério da Saúde
Em idosos, o principal sintoma do infarto agudo do miocárdio pode ser a falta de ar. A dor também pode ser no abdome, semelhante a dor de uma gastrite ou esofagite de refluxo, mas é pouco frequente.
Nos diabéticos e idosos, o infarto também pode ocorrer sem sinais específicos. Por isso, deve-se estar atento a qualquer mal-estar súbito.
Prevenção
A importância da prevenção é fortalecida pelos números do Ministério da Saúde. O Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) é a principal causa de mortes no Brasil. Estima-se que o país registre entre 300 mil e 400 mil casos por ano e que, a cada cinco a sete pacientes, um morra em decorrência da doença.
De acordo com o Ministério da Saúde, as principais formas de prevenção são: Prática regular de atividades físicas, alimentação adequada, não consumo de álcool e qualquer tipo de tabagismo.
Bento Gonçalves
De acordo com a secretária de Saúde de Bento Gonçalves, Daiane Piuco, de janeiro a junho deste ano, a rede municipal registrou uma média de 44 atendimentos mensais a pacientes com Síndrome Coronariana Aguda (SCA), com idade média de 59 anos. “Quanto mais precoce for o atendimento, maiores são as chances de preservar a função cardíaca, reduzir complicações e salvar vidas”, determina.
Ela informa que, entre os pacientes atendidos, 54% precisaram ser transferidos para hospitais de referência devido à necessidade de tratamento especializado. No caso da cardiologia de alta complexidade, o município tem como referência Caxias do Sul. Outros 6% receberam alta após avaliação, por apresentarem quadro de angina passível de acompanhamento ambulatorial pela Atenção Primária à Saúde. Já 3% dos casos corresponderam a pacientes que deixaram a unidade antes da conclusão do atendimento. “Esses indicadores permitem acompanhar o perfil dos pacientes atendidos e avaliar continuamente a qualidade da assistência prestada. O monitoramento sistemático desses dados subsidia a tomada de decisão, a qualificação das equipes e o fortalecimento da linha de cuidado cardiovascular no município”, relata.




