Segunda-feira, 13 de Julho de 2026

ÚLTIMA HORA

Profissionais 50+ ganham espaço no mercado de trabalho

Dados do Censo Demográfico mostram que a população idosa cresce em ritmo acelerado e já representa a maior proporção da história do país. Paralelamente, o mercado de trabalho passa por uma transformação silenciosa: profissionais com mais de 50 anos permanecem ativos por mais tempo, seja por necessidade financeira, realização pessoal ou aumento da expectativa de vida.

Nesse cenário, uma discussão ganha força: o etarismo. A discriminação baseada na idade ainda é uma realidade para muitos trabalhadores que buscam uma vaga de emprego ou tentam permanecer competitivos em um ambiente cada vez mais marcado pela inovação tecnológica e pelas mudanças rápidas nas relações de trabalho.

Em Bento Gonçalves, a situação apresenta características próprias. Enquanto especialistas apontam que o preconceito etário ainda existe, representantes do setor de recrutamento e do mercado local observam avanços impulsionados, principalmente, pela escassez de mão de obra e pela valorização da experiência profissional.

Segundo levantamento das empresas Robert Half e Labora, aproximadamente 70% das organizações contrataram pouco ou nenhum profissional acima dos 50 anos, percentual que demonstra que a diversidade geracional ainda enfrenta obstáculos. O estudo também revela que apenas 5% das novas contratações são destinadas a trabalhadores dessa faixa etária. Além disso, cerca de 80% das empresas entrevistadas não possuem métricas para avaliar iniciativas voltadas à inclusão geracional.

Outro dado chama atenção. Conforme levantamento da consultoria IDados, o número de desempregados com mais de 50 anos saltou de cerca de 508 mil pessoas em 2012 para aproximadamente 1,4 milhão nos últimos anos.

A pesquisa também revela que o desafio é ainda maior para as mulheres. Entre as 258 empresas participantes do levantamento, 36,47% afirmaram ter menos de 5% de mulheres com mais de 50 anos no quadro de funcionários, enquanto 9% disseram não contar com nenhuma profissional dessa faixa etária. Os dados indicam que gênero e idade podem ampliar as dificuldades de inserção e permanência no mercado de trabalho.

Realidade local

No Sistema Nacional de Emprego (Sine) de Bento Gonçalves, as vagas não são classificadas por faixa etária. Conforme o coordenador da unidade, Larri Antônio Strapasson, todos os candidatos podem concorrer às oportunidades disponíveis.

Atualmente, o Sine registra uma média de 120 vagas ofertadas semanalmente, com maior concentração nos setores moveleiro, metalúrgico e frigorífico.

Ao analisar os desafios enfrentados pelos trabalhadores mais experientes, Strapasson afirma que a escolaridade ainda aparece como uma das principais barreiras para a recolocação profissional. “O que ocorre não é a falta de mão de obra, mas sim o baixo nível escolar. Muitos que procuram o Sistema Nacional de Empregos nem terminaram o ensino fundamental e muitos deles não estão dispostos a concluir”, afirma.

Ele também avalia que a idade, por si só, não costuma ser um fator determinante para a contratação. “Atualmente as empresas não contratam pessoas baseado em idade e sim em qualificações ou escolaridade e principalmente na disposição de permanecer no local de trabalho”, ressalta.

O coordenador acrescenta que todos os segmentos estão abertos à contratação, desde que o profissional esteja alinhado ao perfil exigido e demonstre interesse em permanecer na função.

Preconceito ainda existe

Coordenadora de Recursos Humanos da Tomasi RH, Julia Basso

A percepção do setor de recrutamento, entretanto, aponta que o etarismo continua presente em muitas etapas dos processos seletivos.

Coordenadora de Recursos Humanos da Tomasi RH, Julia Basso afirma que o preconceito relacionado à idade ainda é relatado por uma parcela significativa dos candidatos. “Embora o tema esteja sendo cada vez mais debatido, o etarismo ainda faz parte da realidade do mercado de trabalho. Pelo menos 50% dos candidatos relatam já ter sofrido algum tipo de preconceito em processos seletivos”, relata.

Entre os estereótipos mais frequentes estão a suposta dificuldade de adaptação às novas tecnologias, a resistência a mudanças e expectativas salariais consideradas mais elevadas. “Na prática, esses preconceitos muitas vezes não refletem a realidade e acabam fazendo com que empresas deixem de aproveitar talentos altamente qualificados”, afirma.

Segundo ela, ainda existem organizações que priorizam profissionais mais jovens, especialmente para cargos de entrada. Em contrapartida, cresce o número de empresas que reconhecem a diversidade geracional como uma estratégia importante para os negócios.

O valor da experiência

Em uma região marcada pela força da indústria, profissionais experientes encontram espaço justamente em segmentos que valorizam conhecimento técnico e vivência prática.

De acordo com Julia, áreas como indústria, metalmecânica, moveleira, logística, administração, comercial e atendimento ao cliente costumam reconhecer a importância da experiência acumulada ao longo da carreira.

Ela comenta que características como inteligência emocional, comprometimento, responsabilidade, capacidade de resolver problemas e visão estratégica costumam diferenciar candidatos mais maduros. “Muitas empresas também apontam a estabilidade e a maturidade profissional desses candidatos”, observa.

A especialista afirma ainda que o receio em relação à adaptação tecnológica vem diminuindo. “Hoje, o que as empresas realmente observam é a disposição para aprender e se atualizar continuamente, independentemente da idade”, afirma.

Para os profissionais que buscam recolocação, manter-se atualizado tornou-se um diferencial competitivo. Segundo Julia Basso, currículos desatualizados, resistência ao aprendizado contínuo e pouca presença em plataformas profissionais, como o LinkedIn, ainda são erros frequentes entre candidatos mais experientes.

A coordenadora destaca que demonstrar familiaridade com ferramentas digitais, investir em capacitação e evidenciar a disposição para aprender novas tecnologias ajudam a desconstruir estereótipos relacionados à idade e aumentam as chances de contratação.

Projeto tenta aproximar profissionais e empresas


Presidente da CDL-BG, Helenir Bedin

Em Bento Gonçalves, uma das iniciativas voltadas à inclusão de trabalhadores maduros é o projeto CDL-BG 50+, lançado pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves em parceria com o Senac. A proposta busca estimular a reinserção profissional de pessoas com mais de 50 anos por meio de cursos de atualização e capacitação, além de aproximar os participantes das empresas com oportunidades de contratação.

Segundo a presidente da CDL-BG, Helenir Bedin, a iniciativa surgiu a partir da percepção de que muitos profissionais experientes enfrentam dificuldades para retornar ao mercado, enquanto empresas convivem com a escassez de mão de obra qualificada. “Identificamos uma lacuna no comércio local e decidimos atuar de forma direta, valorizando a experiência acumulada por esses profissionais. É também uma resposta às próprias necessidades do comércio, que busca mão de obra qualificada e comprometida”, afirma.

O projeto teve início com uma capacitação voltada a mulheres acima dos 50 anos, focada em vendas, negociação e atendimento ao cliente. Apesar da relevância da proposta, a adesão ficou abaixo da expectativa da entidade.
Para Helenir, o resultado evidencia desafios que vão além da oferta de vagas. “Parte considerável dos profissionais maduros carrega insegurança em relação à própria empregabilidade e desconhece iniciativas voltadas a eles. Não é falta de interesse em trabalhar, mas um misto de descrença no próprio potencial e falta de informação sobre onde buscar essas oportunidades”, observa.

Diante desse cenário, a CDL-BG estuda novas estratégias para ampliar o alcance da iniciativa e fortalecer a conexão entre empresas e profissionais 50+. “Do lado das empresas, é preciso superar a ideia de que idade é sinônimo de menor produtividade ou dificuldade de adaptação. A experiência de quem já passou por diferentes fases do mercado de trabalho tem valor concreto no atendimento, na negociação e na relação com o cliente”, afirma. Ela acrescenta que os próprios profissionais também precisam investir em atualização contínua e acreditar no valor de sua trajetória. “O caminho passa por acreditar no próprio valor e buscar atualização constante, especialmente em ferramentas e processos que mudaram nos últimos anos”, ressalta.

Quando a competência não tem idade

A especialista em Direito do Trabalho Hellen Waskievicz Locatelli comenta que: “Equipes compostas por diferentes gerações costumam reunir inovação, experiência e troca de conhecimento”, afirma.

Com relação ao etarismo, ela ressalta: “Essa conduta passa a configurar discriminação quando interfere no acesso ao emprego, na remuneração, nas oportunidades de crescimento, na permanência no cargo ou em qualquer outro direito do trabalhador em razão exclusivamente da idade”, explica.

Entre os principais sinais estão perguntas sobre idade sem justificativa relacionada à função, comentários depreciativos sobre o envelhecimento, exclusão de treinamentos e oportunidades de promoção, substituição de trabalhadores experientes por profissionais mais jovens sem critérios objetivos e até piadas envolvendo a idade.

Caso o trabalhador suspeite de discriminação, a advogada explica que mensagens, e-mails, anúncios de vagas, gravações feitas por um dos participantes da conversa, testemunhas e documentos internos podem servir como provas em eventual ação judicial. Ela ressalta que, além de indenizações por danos morais, empresas podem ser condenadas à reintegração do empregado quando ficar comprovado que a demissão teve caráter discriminatório.

Ela lembra que a legislação brasileira garante proteção contra esse tipo de prática. “A Constituição Federal assegura o princípio da igualdade e proíbe qualquer forma de discriminação. Além disso, a Lei nº 9.029/95 veda práticas discriminatórias para acesso e manutenção da relação de emprego”, esclarece.
O Estatuto da Pessoa Idosa também reforça o direito ao trabalho e proíbe discriminações relacionadas à idade.

Advogada Hellen Waskievicz Locatelli

Sinais de alerta

De acordo com a advogada, o etarismo pode surgir de forma explícita ou velada.

A discriminação aparece, por exemplo, quando candidatos são descartados apenas pela idade, quando profissionais experientes deixam de receber promoções porque a empresa procura um perfil “mais jovem” ou quando trabalhadores mais velhos são substituídos sem justificativa relacionada ao desempenho.
Expressões frequentemente utilizadas em anúncios de vagas também podem representar um problema.

“Associar dinamismo, inovação ou produtividade exclusivamente à juventude pode excluir candidatos aptos apenas em razão da idade”, alerta.

Perguntas desnecessárias sobre idade, comentários depreciativos, exclusão de treinamentos, ausência de oportunidades de crescimento e piadas relacionadas ao envelhecimento também podem indicar situações discriminatórias.

Mercado mais maduro

Apesar dos desafios, especialistas acreditam que a tendência é de maior valorização dos trabalhadores maduros.

A própria dinâmica demográfica brasileira aponta para esse caminho. O envelhecimento populacional vem alterando a composição da força de trabalho e exigindo novas estratégias de gestão de pessoas.
Para Hellen, a convivência entre diferentes gerações tende a produzir ambientes de trabalho mais equilibrados.

Ela explica que profissionais experientes agregam estabilidade, responsabilidade e conhecimento prático, enquanto trabalhadores mais jovens contribuem com novas perspectivas e domínio de tecnologias.
A advogada observa que, diante das discussões atuais sobre saúde mental no ambiente corporativo e da implementação da NR-1, equipes multigeracionais favorecem relações mais colaborativas e respeitosas.

Na avaliação dela, Bento Gonçalves e a Serra Gaúcha já demonstram sinais dessa transformação. “Em razão da escassez de mão de obra, muitas empresas passaram a valorizar cada vez mais profissionais experientes, reconhecendo sua capacidade técnica, comprometimento e disponibilidade para permanecer no mercado de trabalho”, afirma.Ela aponta ainda que equipes multigeracionais tendem a produzir ambientes mais equilibrados e colaborativos. “Além da experiência acumulada, muitos trabalhadores acima dos 50 anos demonstram estabilidade, responsabilidade, comprometimento e excelente capacidade de relacionamento interpessoal”, conclui.

Confira a matéria completa no site do Jornal Semanário.

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