VIDA VIVIDA O PLANO DE BAIXA

Na semana que passou eu estava num grupo de amigos quando, assim do nada, um deles falou que ele fugia do exército pelos trilhos e que tinha um amigo que fugiu pelos trilhos “levando o fuzil junto”. Eu perguntei: “na fuga, ao chegar na cidade, onde ele enterrou o fuzil”? Obtive a resposta: “quando ele chegou na “ponte seca” ele deixou na casa de um amigo”. Fico imaginando a cara da mãe do amigo ao ver a arma e exclamando “Virgine Maria”! Fugas do Batalhão eram uma constante, com elas os trilhos presenciaram muitas cenas de nudez (troca da farda pelas roupas civis) e a zona de meritricio, comandada pela Maria Marques, que ficava na metade do caminho, ou servia de “parada técnica” ou “esconde-esconde” diante da iminente chegada da patrulha. O patrulhamento do exército era constante, mas, era à noite que ele era apavorante, aparecia de repente na madrugada em meio a escuridão e precária iluminação dos lampiões. Esse patrulhamento era temido, os soldados “desgarrados” se escondiam entre os prédios da cidade e os flagrados eram recolhidos ao presídio do quartel, aí estava o pavor, além de terem a “ficha suja” e o perigo da expulsão. O meu “esconderijo” era no Clube Aliança em dias de baile, de resto quietinho dentro de casa. O fuzil? Debaixo do colchão na cabeceira da cama, no alojamento. Ao entrar no salão eu olhava à direita para ver se não havia, entre os presentes, oficial militar e não identificado. O Tenente Reck e o Capitão Freire estavam sempre nos bailes (foram 2 enquanto eu servi o exército) eu já era “um transgressor familiar” eles sabiam que eu não deveria estar aí, mas não davam bola porque eu estava aí. Vale lembrar que o Jeep “caça soldados” contribuía muito para o policiamento da cidade se bem que naquela época, depois das 22h, nem raposas e nem os ratos, que voltaram agora a atacar a cidade, se atreviam a circular pelas ruas.

A BAIXA

Era quarta-feira, às 7h30, eu cheguei ao alojamento “vindo dos trilhos” com a carteira de piloto no bolso e que, no dia anterior, havia sido exibida, com o pedido de baixa, ao Comandante do Batalhão por um padrinho meu que se fazia acompanhar pelo DR. LAGO, Médico e Diretor do Hospital do Exército, ambos, o Hospital e o Dr. Lago, de inestimáveis serviços prestados à comunidade na área da saúde pública. No acampamento vesti a minha farda “nova” trazida de casa, “lavada e passada” depois de 3 dias de “férias” enquanto a turma estava na marcha. De fuzil e em punho, todos alinhados, chamada feita sem nenhum “olhar para os trilhos”, estava todo mundo aí. O Sargento Instrutor falou “DESCANSAR!” e aí veio um Tenente e falou “SOLDADO 1037, GENTILEZA SE APRESENTAR!” e lá fui eu com aquela carga “incômoda” que era o fuzil. Aí, ele, solenemente, sem dar muitas explicações, falou “O SENHOR ESTÁ DISPENSADO DO SERVIÇO MILITAR!” foi um Deus nos acuda, fuzis caídos no chão, bonés para o alto, gritos de indignação “não era possível ter acontecido. Na turma, naquele momento” eu não era um líder, entre os transgressores eu era “THE BEST”, como então estava me sendo concedida a “GRAÇA DA DISPENSA”? Deve ter passado pela cabeça deles: Como auxiliar de cozinheiro a porção de carne era maior; ia almoçar em casa quando queria; não foi a nenhuma marcha; não sabia montar o fuzil; era instrutor de “fugas”; ia aos bailes do Clube Aliança e não era punido”; tava condenado a 4 fins de semana de serviço e não vai mais cumprir, essas coisas. Questionado por eles eu dava uma de JOÃO PLENÁRIO e dizia “TÔ DOENTINHO, TÔ DOENTINHO, MUITO DOENTINHO! De volta ao acampamento não me faltaram pedidos de doação da farda, dos coturnos, das revistas, saí despido de qualquer vestígio militar. Em trajes civis passei pelo GILBERTO TIM, ele ainda estava lá, dei um bye, bye, ele retrucou “onde tu vai cara, aconteceu alguma coisa”? caminhando e, sem olhar pra trás, subi no ônibus em direção ao “risotinho da mamãe”. “OH BATALHÃO, OH BATALHÃO, QUANTA SAUDADE VOCÊ ME TRAZ”.

LIVRE PARA VOAR

Encontro amigos hoje que me dizem: “aos 12 anos eu já estava trabalhando com carteira assinada”. Eu também, nesta idade, comecei a trabalhar só que, como eu já escrevi, eu era autônomo, só tive carteira assinada aos 21 anos como funcionário da Isabela, fugi das marchas do exército, mas não das marchas em direção ao trabalho, bairro Humaitá, onde morava, ao bairro Botafogo onde estava a ISABELA. No meio do caminho os trilhos de novo. A caminhada diária era de 20kms. Nesse período, dos 18 anos aos 21 anos, eu me dediquei a pilotagem, na condição de “RESERVA DA FORÇA ÁREA BRASILEIRA”, para a segunda guerra só foram os soldados da infantaria lutar na Itália, pela história eu deduzo que o pelotão tava “CHEIO DE HENRIQUES CAPRARA”! O meu temor, diante da possibilidade da Força Área Brasileira ser convocada guerrear residia num “INIMIGO” oculto: “PERDER A COMIDINHA DA MAMÃE”.

MEU QUERIDO PAULISTINHA

Eu adorava voar, me arrisco dizer que devo ter chegado a voar umas trezentas horas ao todo, acho que foi por aí. Eu sempre dava um jeito de estar nas nuvens, “na terra e no ar”, voava solo, mas o custo da hora de voo era alto, como trabalhador autônomo era pesado para o bolso. Essa condição me fazia estar em disponibilidade como piloto, plantonista que era ao lado do “meu” querido avião paulistinha. Passei então, pela disponibilidade de horários, a prestar “serviços aeronáuticos” as pessoas pagavam ao Aeroclube pelo uso da aeronave e combustível e a mim, pelos serviços de pilotagem. De vez em quando me era dada a missão de voar com os MANICACAS, pilotos iniciantes, fazia isso pelo amor ao Aeroclube e carregava um orgulho “há pouco tempo eu era aluno e, agora, até instrutor, de vez em quando”. Um serviço que eu prestava era levar crianças com coqueluche a 1500 metros de altura. As mães vinham com atestado médico, elas voavam comigo com a criança no colo e lá íamos nós “com a tosse como música de fundo”, hora e meia para chegar lá e quase duas para voltar, exigia mais cuidado. Chegando lá encima o avião perdia sustentação e tremia todo, eu segurava a sustentação até a criança parar de tossir e, acreditem, isso funcionava, as mães ficavam exultantes. Só teve uma criança, devia ser um “Joãonzinho terrível” ou um “cebolinha”, concluída a “OPERAÇÃO PARA DE TOSSIR” ele continuava, então desci para 1200 metros e disse ao “capeta” “tá vendo aquela nuvem branca?” E ele, choramingando, “siiim, é grande e branca”. Eu falei, mesmo sabendo que era transgressão, “vamos furar”? E fui, meio que me assustei, nunca tinha feito isso, sai dela, vi que o guri estava mais calmo, subi de novo, segurei a tremedeira e a criança parou de tossir. Eu nunca perguntei a um médico qual o fundamento desta cura, mas eu ficava incrédulo. Devo ter levado umas 4 ou mais crianças lá para cima e “nenhuma voltou tossindo”.

AS VAQUINHAS DO ARMANDO

Armando Guerra era um próspero empresário do ramo de transportes. Ele tinha uma fazenda em Lagoa Vermelha, tinha inclusive campo de pouso, o cenário está na minha retina até hoje. Ele me “contratou” para levá-lo até a fazenda, ir de manhã, voltar de tarde, tempo de voo hora e meia. Chegando lá a pista de pouso toda estava tomada pelas vaquinhas da fazenda, ele abria a janela do Paulistinha e gritava “sai Filomena”, “sai Gertrudes” e, elas, olhavam para cima e “admiravam aquele estranho objeto voador”. Eu ia pra cá e pra lá até que enchi o saco das vaquinhas com o barulho e elas abandonaram o pedaço. Ai então, enquanto almoçávamos, o capataz da fazenda ia até a cidade, 20km de distância, buscar combustível. No mês seguinte, nova visita e lá estavam elas no meio da pista e, ele, na janela, ‘sai Filomena, saí Gertrudes”. Eu dizia, “seu Armando, elas não lhe ouvem’ e, ele “sai Filomena, sai Gertrudes”. Ai eu não aguentei e falei “seu Armando eu vou tirar um razante no lado da pista e o senhor vai me mostrar quem é a Filomena e quem é a Gertrudes”, ele “eu sei, eu conheço”. E lá fui eu, com o razante e deslocamento do ar elas se mandaram, para minha surpresa elas deixaram a pista e eu pousei tranquilamente. Em terra eu fui conhecer a Filomena e a Gertrudes. Eram “vacas de presépio” tinham todas, umas 50, etiquetas de identificação no pescoço com o nome, nascimento, procedência, não lembro se tava lá que se eram gremistas ou coloradas. Precisava ver elas irem de encontro ao seu Armando. No almoço o capataz estava lá, não precisou ir buscar combustível. E o meu patamar de remuneração subiu. Na terceira vez, de cara, ao chegar, fui direto para o razante mas antes disso elas já estavam se afastando a Filomena deve ter falado “ei turma, o patrão está chegando, vamos dar espaço”. Depois desta terceira viagem não fui mais, não sei o que aconteceu. “AD PERPETUAM”, NÃO TE ESQUECEREI FILOMENA.

SOMOS TODOS FENAVINHO

Serão 42 alas desfilando amanhã integrando as festividades da FENAVINHO. É O POVO DENTRO DA FENAVINHO. São nossas origens, a nossa obra comunitária existencial, a grandeza do que somos e o que fazemos. Minha existência está mergulhada na sua existência, não vou poder estar no desfile, vou estar pesaroso pela ausência, sei que será inesquecível, vi nos olhos das soberanas e dos dirigentes que, ao me convidar trouxeram um mimo valioso, resplendor do estágio de qualificação e significado que o evento, em mãos do CIC, alcançou. Em nome dos meus BISAS, agradeço a dignificação dessa saga que eles viveram, memorável e imorredoura em nossas mentes, da imigração que nos formatou e nos trouxe inclusive esse momento de paz e prosperidade que estamos vivendo. FENAVINHO, UM SÍMBOLO DOS QUE VIERAM, DO QUE FIZEMOS E DO QUE SOMOS EM NOME DELES.