Garibaldi, Aurora e Famiglia Valduga encerram ciclos de colheita expressivos e projetam lançamentos, ampliação de portfólio e avanço tecnológico para os próximos anos
O encerramento da última safra na Cooperativa Vinícola Garibaldi consolidou um ciclo considerado histórico tanto pelo volume quanto pelo potencial enológico das uvas colhidas. Com mais de 30 milhões de quilos processados, o resultado reflete uma combinação de condições climáticas favoráveis, planejamento técnico e investimentos contínuos em manejo e tecnologia. Para o enólogo Ricardo Morari, o comportamento do clima ao longo do ciclo da videira foi decisivo para o desempenho da safra. “De maneira geral, as condições climáticas foram bastante favoráveis em todas as etapas do desenvolvimento. O inverno contribuiu para o adequado acúmulo de reservas, e os períodos de brotação e floração ocorreram sob clima seco, favorecendo a sanidade e o pagamento dos frutos”, explica.
O período de maturação e colheita, estendido de janeiro ao fim de março, ocorreu com baixa incidência de chuvas, permitindo maior segurança na definição do ponto ideal de colheita. O resultado foi a obtenção de uvas saudáveis e no estágio adequado de maturação, elemento considerado essencial para as características finais dos rótulos. “A qualidade de um vinho começa, essencialmente, na sanidade das uvas, aliada ao seu correto ponto de maturação. Esse cenário projeta uma safra de alto nível, com potencial tanto para vinhos jovens quanto para rótulos destinados ao envelhecimento”, afirma Morari.

Condições favoráveis
Entre os produtos beneficiados pelo ciclo, os espumantes voltam a ganhar protagonismo. A oscilação de temperatura registrada durante o período de maturação contribuiu para a preservação da acidez natural das uvas e para um amadurecimento mais lento e equilibrado, favorecendo a elaboração de rótulos aromáticos e frescos. “Tivemos uma amplitude térmica favorável, que contribuiu para a preservação da acidez natural e para uma maturação mais equilibrada. No caso do Floratta Rosé, elaborado a partir de uvas moscatéis, esse cenário foi ainda mais benéfico”, destaca o enólogo. O resultado, segundo ele, é um espumante marcado pelo frescor e pelo equilíbrio entre açúcar e acidez.
O reconhecimento técnico conquistado ao longo dos anos tem sido acompanhado pela aceitação do público consumidor, fator considerado estratégico para a Cooperativa. “Mais do que acumular premiações, é fundamental que o consumidor perceba e valorize essa qualidade no dia a dia”, ressalta o enólogo.

Novidades da marca
O ciclo também marca uma fase de renovação do portfólio. Entre as mudanças confirmadas está a continuidade do varietal Pálava, que passará a integrar a linha In Veritas ao lado do Irsai Oliver, ambos provenientes do vinhedo experimental da Cooperativa. A iniciativa reforça a estratégia de explorar variedades exclusivas e ampliar a diversidade de rótulos disponíveis. A Garibaldi confirma ainda a previsão de novos lançamentos ao longo de 2026, embora detalhes ainda não tenham sido divulgados. A expectativa é de que as novidades reforcem o posicionamento da marca em diferentes segmentos de consumo.
O planejamento estratégico segue orientando o equilíbrio entre a produção de vinhos tranquilos e espumantes, alinhando a destinação das uvas às demandas de mercado e à capacidade produtiva. “Projetamos os próximos anos e guiamos a destinação das uvas para as diferentes linhas do portfólio, mantendo o equilíbrio entre a demanda e a capacidade produtiva”, afirma o enólogo. Uvas brancas destinadas aos espumantes mantiveram elevado padrão desde as colheitas mais precoces até as tardias, enquanto variedades tintas como Merlot e Marselan permaneceram no vinhedo até o ponto ideal de maturação.
Os investimentos recentes reforçam esse movimento de qualificação. Entre os avanços está a implementação de um filtro tangencial para borras de vinho e a incorporação de uma nova prensa pneumática a vácuo de grande capacidade. No campo ambiental, a adoção de tecnologia inédita no tratamento de efluentes marca um passo relevante em sustentabilidade. “O equipamento trouxe ganhos significativos de eficiência e passa a integrar de forma permanente o processo”, afirma Morari.

Cooperativa Vinícola Aurora
Assim como na Garibaldi, a Cooperativa Vinícola Aurora encerrou a última vindima com números expressivos e perspectiva de crescimento sustentada por investimentos no campo e na indústria. A safra alcançou 93 milhões de quilos de uva processados, cerca de 30% acima do registrado no ano anterior, consolidando a maior colheita da história da Cooperativa. Para o gerente agrícola Maurício Bonafé, o resultado reflete um trabalho estruturado e contínuo com todos os envolvidos. “A consolidação dessa posição passa, principalmente, pela continuidade dos investimentos no campo e pela atuação próxima junto aos associados, com suporte técnico e incentivo a práticas sustentáveis”, afirma.
O crescimento ocorre em paralelo à estratégia de expansão no segmento de espumantes, considerado um dos mais promissores do mercado nacional. A área destinada às uvas voltadas a esse tipo de produto foi ampliada em 12%, reforçando a presença da Cooperativa no setor. “Essa ampliação permitirá fortalecer a presença e ampliar o portfólio, com novos lançamentos, incluindo produtos premium e bebidas desalcoolizadas”, explica Bonafé, indicando um movimento alinhado às novas demandas de consumo.

Separação para os derivados
Apesar de condições climáticas que exigiram ajustes no calendário da colheita, a qualidade das uvas foi preservada. Temperaturas mais baixas na primavera e chuvas intensas no fim de dezembro atrasaram a safra de variedades precoces, mas a falta de chuva durante a maturação favoreceu a concentração de açúcares. “A escassez hídrica durante a maturação ajudou a elevar ainda mais a qualidade das uvas”, destaca.
Entre as variedades que mais se destacaram estão as da família Moscato, essenciais para a elaboração de espumantes aromáticos. Também tiveram bom desempenho Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Pinot Noir. Entre as variedades americanas e híbridas, Isabel, BRS Magna, BRS Lorena e Bordô apresentaram resultados expressivos. A distribuição da produção evidencia a diversidade da Cooperativa: cerca de 60% da uva é destinada à elaboração de sucos, enquanto 40% abastecem vinhos e espumantes.
O aumento da área destinada às uvas para espumantes reforça a estratégia de crescimento em um segmento que segue em expansão no Brasil. A Cooperativa aposta na ampliação da linha e na introdução de novos produtos para acompanhar as tendências de consumo.
Mais do que só um produto
Os investimentos em tecnologia e estrutura industrial acompanham o crescimento da produção. Novos tanques e equipamentos foram incorporados para ampliar a capacidade de processamento e armazenamento. “A continuidade dos investimentos no campo e na indústria é fundamental para sustentar o crescimento”, reforça Bonafé.
Embora aposte na inovação, a Cooperativa mantém cautela na introdução de novas variedades específicas, priorizando o fortalecimento das linhas já consolidadas. Ainda assim, a ampliação da linha premium e o avanço em bebidas desalcoolizadas indicam uma estratégia voltada à diversificação e à adaptação às mudanças no perfil de consumo.

Famiglia Valduga
Se Garibaldi e Aurora avançam em volume e expansão produtiva, a Famiglia Valduga reforça a valorização da origem e a consolidação de rótulos premium. Para o enólogo Daniel Dalla Valle, a Denominação de Origem Vale dos Vinhedos representa um marco decisivo para a vitivinicultura nacional. “Ela estabelece critérios rigorosos de produção, garantindo rastreabilidade, tipicidade e padrão qualitativo”, afirma.
Entre os rótulos que simbolizam essa trajetória está o espumante Maria Valduga Nature, reconhecido com 95 pontos no Descorchados 2025 e eleito o melhor espumante do Brasil. “Esse reconhecimento reforça a consistência do trabalho ao longo dos anos e consolida o rótulo como uma das principais referências nacionais”, destaca.
Colheita expressiva
A safra registrou incremento aproximado de 15% no volume colhido, sustentado por práticas de manejo voltadas ao equilíbrio produtivo e ao monitoramento técnico das videiras. Chardonnay e Pinot Noir se destacaram para a base dos espumantes, enquanto o Merlot apresentou bom desempenho entre as tintas. “Essa safra favorece especialmente a elaboração de espumantes”, projeta o enólogo.
A infraestrutura produtiva surge como um dos pilares desse crescimento. A maior cave da América Latina, mantida pelo grupo, oferece condições ideais de espaço, temperatura e umidade para maturações prolongadas, fundamentais na elaboração de espumantes pelo método tradicional. “A cave viabiliza escala produtiva com controle rigoroso de qualidade, essencial para a consistência dos nossos espumantes”, ressalta.
O equilíbrio entre tradição e inovação também se manifesta na elaboração de rótulos como o Praeteritum, inspirado no método italiano appassimento. A técnica ancestral é adaptada às condições do terroir local por meio de inovações e conhecimento técnico. “Utilizamos tecnologia para adaptar essa prática às nossas condições, garantindo um vinho equilibrado, estruturado e com identidade própria”, explica.
Os investimentos recentes incluem melhorias nos processos de controle fermentativo, monitoramento mais preciso das etapas de vinificação e aperfeiçoamento das condições de maturação. O objetivo, segundo Dalla Valle, é aumentar a precisão técnica sem abrir mão da identidade dos vinhos e espumantes.
Enoturismo e mercados internacionais
Outro vetor estratégico para o fortalecimento da marca é o enoturismo. A experiência direta com o território e o processo produtivo contribui para a percepção de valor dos rótulos premium e fortalece a conexão do consumidor com a origem. “Ao vivenciar o processo e entender a história da vinícola, o consumidor passa a perceber o valor agregado de forma mais clara. Isso contribui diretamente para a valorização dos espumantes premium”, afirma.
No exterior, mercados maduros como Estados Unidos e países europeus têm demonstrado crescente receptividade aos espumantes com certificação de origem. A Denominação de Origem tornou-se atributo relevante na decisão de compra, ampliando oportunidades de internacionalização.
A busca por novas técnicas e direções segue em curso. “Continuamos explorando diferentes abordagens enológicas, sempre respeitando nossa identidade. Técnicas de origem europeia, especialmente italianas, fazem parte do nosso DNA e continuam sendo estudadas e aplicadas de forma criteriosa”, conclui o enólogo.