Produção recorde deve ultrapassar 900 milhões de quilos e direciona vitivinicultura para ampliar consumo, competitividade e presença no comércio
A safra de uvas de 2026 na Serra Gaúcha caminha para consolidar um marco histórico para a vitivinicultura brasileira. Com volume superior ao inicialmente projetado e qualidade considerada muito satisfatória, o ciclo produtivo deste ano reforça a recuperação do setor após uma colheita menor em 2025 e amplia as expectativas quanto ao desempenho econômico da cadeia produtiva nos próximos meses. A avaliação é do presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), Luciano Rebellatto, que acompanha de perto o desempenho das propriedades e as estratégias do setor para enfrentar um cenário cada vez mais competitivo.
A previsão inicial apontava para um crescimento moderado. “Falávamos em torno de 10% a 15% de aumento em relação a 2025. Essa estimativa se concretizou e até foi superada. Acreditamos que teremos números acima de 15% de acréscimo. Estimamos que a safra de 2026 seja a maior de todos os tempos”, afirma. O dirigente destaca que a produção destinada à indústria deve ultrapassar a marca de 900 milhões de quilos, podendo chegar a 950 milhões. Somadas as uvas comercializadas in natura e as vendas diretas realizadas pelos produtores, o volume total tende a ser ainda maior.
Fatores determinantes
O desempenho climático foi decisivo para o resultado. Embora o início da colheita tenha sido marcado por períodos de chuva, as condições gerais favoreceram o desenvolvimento das uvas. “Tivemos instabilidades na primeira quinzena de janeiro, mas havia poucas uvas sendo colhidas nessa época. O grande volume da safra aconteceu em fevereiro e início de março, quando tivemos tempo seco, muito bom para os viticultores”, explica. A combinação entre clima favorável e maturação adequada contribuiu para índices de açúcar superiores aos registrados no ciclo anterior, refletindo diretamente na qualidade da matéria-prima.
Segundo Rebellatto, a graduação atingiu patamares considerados positivos tanto para uvas híbridas quanto para viníferas. “Tivemos uma graduação média em torno de 15 para as uvas híbridas americanas e cerca de 17 para as viníferas. Ou seja, além de volume, tivemos qualidade dentro do esperado e até um pouco acima da média”, ressalta.
Entre as variedades, as uvas viníferas destacaram-se, com desempenho superior ao registrado em 2025. A Chardonnay, tradicionalmente mais sensível e de produção limitada, apresentou crescimento expressivo. “Ela teve uma produção muito maior do que no ano passado e atendeu plenamente a demanda das vinícolas. Em 2025 tivemos relatos de falta dessa variedade, o que não ocorreu neste ano”, pontua.
O cenário reforça a expectativa de bons produtos derivados ao longo do ano, incluindo vinhos, espumantes e sucos. Para o setor, a safra representa não apenas recuperação produtiva, mas também uma oportunidade estratégica para reposicionar a oferta no mercado interno e externo.

Mão de obra estrangeira ganha protagonismo na colheita
O aumento expressivo do volume de uvas trouxe um desafio recorrente para a vitivinicultura: a necessidade de mão de obra temporária para a colheita. A Serra Gaúcha, com economia diversificada e forte presença industrial, enfrenta dificuldades históricas para atrair trabalhadores locais para atividades sazonais. Como consequência, a safra depende cada vez mais de trabalhadores vindos de outras regiões e países.
Rebellatto explica que a atividade exige um perfil específico de trabalhador, habituado a deslocamentos e períodos curtos de contratação. “Não existem profissionais locais que se disponham a permanecer aguardando o período da safra. Quem vem para cá são pessoas que já têm a característica de trabalhar em colheitas, como maçã, ameixa, pêssego e, depois, uva”, afirma.
Em 2026, a presença de argentinos se destacou. “Eu diria que 70% a 80% dos trabalhadores que estiveram aqui para a colheita da uva eram argentinos. Eles veem esse período como uma oportunidade de fazer caixa e têm sido muito importantes para o setor”, relata.
Além do aumento da participação estrangeira, a safra também consolidou a formalização das contratações. Segundo o dirigente, a profissionalização do processo avançou rapidamente nos últimos anos, com apoio decisivo dos sindicatos rurais. “Praticamente 100% das propriedades têm seus trabalhadores formalizados”, afirma.
O processo de regularização exigiu adaptação dos produtores, em especial os agricultores familiares, que concentram a maior parte da produção. “O agricultor sabe produzir uva, mas muitas vezes não tem conhecimento em contabilidade ou legislação trabalhista. Os sindicatos tiveram papel fundamental na orientação e na legalização dessas contratações”, explica.
A formalização representa um avanço importante para o setor, garantindo segurança jurídica e melhores condições de trabalho, além de contribuir para a profissionalização da atividade.
Desafio é a competitividade
Se a produção e a qualidade trazem otimismo, o cenário de mercado exige cautela. O setor enfrenta a crescente concorrência de produtos importados, impulsionada por acordos comerciais e pela carga tributária brasileira. “Qualidade não se discute mais. Nossos vinhos, espumantes e sucos têm reconhecimento nacional e internacional. O que nos prejudica é a competitividade, especialmente na questão de preços”, afirma.
Diante desse cenário, o Consevitis tem concentrado esforços na promoção do consumo de produtos nacionais, especialmente aqueles de maior volume, como o suco de uva e o vinho de mesa. “O espumante cresce ano após ano, o vinho se mantém estável, mas o suco precisa crescer. Precisamos incentivar o consumidor a escolher o produto nacional”, destaca.
O vinho de mesa, produzido a partir de uvas americanas e híbridas, é apontado como segmento estratégico por competir diretamente com importados na faixa de preço. Já o suco de uva é visto como produto com grande potencial de expansão. “É natural, não tem contraindicações e pode ser consumido por qualquer pessoa”, ressalta.
Estratégias para ampliar mercados
Com a safra recorde, a ampliação da demanda tornou-se prioridade. Entre as iniciativas em discussão, está a inclusão do suco de uva no acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. “Queremos vender nosso suco lá fora e ampliar mercados”, afirma o dirigente.
Outra proposta envolve a criação de legislação que estabeleça percentuais mínimos de suco em refrigerantes. “Seria uma forma de aumentar a comercialização do nosso produto, especialmente diante do grande volume que temos para vender”, explica.
Para o setor, a combinação entre produção elevada e qualidade consistente cria uma janela de oportunidades, mas exige ações coordenadas para garantir competitividade e ampliar o consumo.
No balanço geral, Rebellatto resume o momento como positivo e desafiador. “Temos um volume acima do esperado, qualidade muito boa e excelentes produtos derivados. Agora o foco é comercializar e incentivar o consumidor a escolher o produto nacional”, conclui.