Que o nosso maior arrependimento nunca seja o de não ter vivido.
Há dois anos, o Rio Grande do Sul foi atravessado por uma das maiores enchentes da história do país. Não aconteceu à beira-mar, nem em regiões que, por vezes, imaginávamos mais vulneráveis. Aconteceu aqui, entre nós, nas nossas cidades, nas nossas ruas, nas nossas casas.
Foram dias de perdas difíceis de dimensionar: acessos interrompidos, pontes levadas pela força da água, famílias desalojadas e, o mais doloroso, vidas interrompidas. Algumas delas, até hoje, sem resposta, sem despedida. Desde então, o 1º de maio passou a carregar um novo significado para o povo gaúcho: não apenas o dia do trabalhador, mas também a memória de um tempo marcado por dor, incerteza e luta.
Diante de tudo isso, fica a pergunta: o que aprendemos?
Talvez a maior lição tenha sido a resiliência. Quando faltou estrutura, sobrou humanidade. Quando a esperança parecia distante, surgiram mãos estendidas. Sem esperar por respostas imediatas, as pessoas fizeram o que estava ao seu alcance, com o próprio esforço, com recursos próprios, com doações, com presença. Cada um ajudou como pôde. E isso fez toda a diferença.
Vínhamos de uma pandemia global e acreditávamos já ter enfrentado o pior. Mas a vida, por vezes, nos surpreende de formas que não escolhemos. Hoje, mesmo com o passar do tempo, qualquer sinal de alerta desperta memórias e um medo silencioso de reviver tudo aquilo.
Se há algo que podemos fazer, é nos preparar não apenas estruturalmente, mas emocionalmente. Preparar-se é também fortalecer laços, cultivar empatia e manter viva a disposição de agir. Como diz o nosso hino: “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a Terra.” Talvez tenhamos aprendido isso da forma mais dura possível.
Aprendemos a silenciar a própria dor para acolher a dor do outro. Aprendemos que solidariedade não é discurso, é ação. Aprendemos que a união de forças pode reconstruir caminhos mesmo quando tudo parece perdido.
Ainda hoje, ao percorrer algumas regiões, vemos marcas daquele período: obras inacabadas, pontes que ainda não voltaram a existir, lembranças espalhadas em fotografias e histórias interrompidas. Um cenário que, por vezes, se assemelha ao de uma guerra não declarada, mas profundamente sentida.
Mas, entre as perdas, também ficou um ensinamento essencial: a urgência de viver. Valorizar quem está ao nosso lado. Aproveitar os pequenos momentos. Diminuir o peso das preocupações que, diante do inesperado, perdem o sentido. Sorrir mais. Estar presente.
A vida é breve e, muitas vezes, imprevisível.
Que aquela enchente nunca mais se repita. Mas, se um dia viermos a enfrentar algo semelhante, que estejamos mais preparados, não apenas com estruturas mais seguras, mas com corações mais fortes, solidários e conscientes do que realmente importa.
No fim, talvez a maior verdade seja simples: ninguém precisa de muito. Precisamos, apenas, focar no essencial.
E o essencial… é a vida.