Na minha infância, meu pai sempre trabalhou com móveis. Uma fabriqueta pequena, como ele mesmo dizia: dois sócios, meu irmão e sua D10 azul.
Certa vez, ele fez móveis para uma grande loja de brinquedos da cidade, que depois veio a fechar. Uma noite, lembro como se fosse hoje, eu devia ter uns 8 anos, e ele me disse: “Amanhã nós vamos na loja, e tu pode pegar tudo o que quiser. Tudo!”
Eu não dormi naquela noite. Nem acreditava que aquilo era verdade. Para uma família de classe média baixa, sem muitos brinquedos, ter esse sonho realizado era algo imenso.
Então chegou o dia seguinte, e fomos até a loja. Eu fico extasiada só de lembrar. Varri a loja inteira com os olhos em poucos segundos. Fui para a seção dos ursos de pelúcia, dos brinquedos, dos materiais escolares… enfim, queria tudo. Peguei o que podia, enchemos o carro e sei que aquela foi a forma como meu pai conseguiu receber um pouco pelo trabalho. Ele, no caso, não recebeu quase nada. Mas eu, certamente, vivi um dos melhores dias da minha infância, que guardei na memória como um verdadeiro sonho realizado.
Entre tantos outros momentos que vivi, hoje percebo o quanto tudo era diferente. Brincar na rua sem hora para acabar, ir à praia uma vez por ano com os pais, brincar na terra fazendo comidinha, no balanço ou de faz de conta com as colegas da escola — de professora, de cantora famosa, de Power Ranger…
Hoje, a infância melhorou muito na questão da presença dos pais e da oferta de passeios. Mas a criança não precisa só disso. Precisa de adultos presentes, emocionalmente fortes, que a direcionem com limites, regras e afeto. A criança só quer ser criança em um lar funcional, com amor, respeito e alguém que olhe por ela e diga: “Isso não pode.” “Agora não.”
E, ao mesmo tempo, proporcione o brincar livre, em vez de apenas o celular.
A infância dura pouco. As apresentações da escola são uma ou duas por ano. Os aniversários com balões são menos de doze. A fada do dente fica por pouco tempo. As roupas lindas infantis servem por tão pouco… Mas os rastros que deixamos na memória e a felicidade que proporcionamos são infinitos.
Não deixe morrer o sonho de uma criança. Isso é o que há de mais belo. Conviver com uma criança nos dá a oportunidade de viver de novo, outra vez. Brincar, rir, se sujar, passear e perceber que a infância é, sem dúvida, o melhor lugar do mundo.
Hoje, vivemos o que muitos especialistas já chamam de “geração do quarto”: crianças que têm tudo, menos o essencial. Estão cercadas de tecnologia, estímulos e entretenimento, mas cada vez mais distantes do brincar livre, da imaginação e das relações reais.
Se antes o desafio era a falta, hoje é o excesso. Excesso de telas, de facilidades, de respostas prontas. Falta o tédio que cria, a espera que ensina, o limite que estrutura.
E então fica a pergunta: estamos formando crianças felizes ou apenas crianças entretidas?
Não se trata de voltar no tempo, mas de resgatar o que nunca deveria ter se perdido. Porque nenhuma tecnologia substitui o olhar atento, o “não” necessário, o tempo de qualidade e o convite para brincar de verdade.