Tontura, náusea, suor frio e aquela sensação de que o estômago “vira” são sinais clássicos da cinetose, condição popularmente conhecida como enjoo de movimento. O problema é mais comum do que se imagina e afeta milhões de pessoas diariamente em deslocamentos de carro, ônibus, avião, navio e até mesmo em experiências com realidade virtual. Apesar de não ser considerada uma doença, a cinetose pode comprometer significativamente o bem-estar, a produtividade e a qualidade de vida de quem convive com o desconforto, levantando questionamentos sobre suas causas, formas de prevenção e tratamentos disponíveis.
A cinetose é considerada um problema de alta prevalência na população mundial. Estima-se que cerca de um em cada três pessoas seja altamente suscetível ao enjoo de movimento, mesmo em condições consideradas normais de estímulo, como viagens terrestres, aéreas ou aquáticas. Esse dado reforça que o desconforto não é um evento isolado, mas uma condição frequente que pode impactar significativamente a qualidade de vida, o desempenho em deslocamentos e até atividades profissionais que envolvem movimento. A estimativa é divulgada pela MedlinePlus, serviço de informação em saúde da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos.
De acordo com o médico Mário Bettinelli, otorrinolaringologista do Tacchini, ela é uma síndrome caracterizada pela apresentação de alguns sintomas, como:
- Tontura;
- Palidez;
- Sudorese;
- Náuseas e vômitos;
- Mal -estar generalizado.
Segundo ele, é originada pela estimulação excessiva do labirinto no cérebro através de um conflito de informações sensoriais entre as estruturas. “São responsáveis pela estabilização do nosso equilíbrio (sistema proprioceptivo, visual e vestibular)”, explica.
Causa
Os enjoos em meio de transporte estão diretamente relacionados a um desequilíbrio na forma como o corpo interpreta o movimento. “Ocorrem devido ao conflito sensorial que se estabelece entre a percepção que estamos em movimento (carro na estrada) com o nosso corpo que está parado dentro do veículo. Por exemplo, ao ler durante uma viagem de carro nossos olhos estão fixos dando uma ideia de que estamos parados, contudo o nosso sistema vestibular (ouvido) percebe o movimento do carro, assim geramos um conflito de informações no nosso sistema nervoso central”, menciona o médico.
Quando deixa de ser normal
Na ocasião em que os episódios de enjoo estão associados ao movimento, como em deslocamentos de carro, barco ou até mesmo em brinquedos de parques de diversão, o quadro mais compatível costuma ser a cinetose.
No entanto, o médico alerta que nem toda situação de enjoo ou tontura deve ser automaticamente atribuído a síndrome. “No caso de enjoos ou tonturas frequentes, a avaliação médica especializada (otorrinolaringologista e otoneurologista) sempre é recomendada em busca de diagnósticos diferenciais que necessitarão de abordagens distintas”, destaca.
Tendência
O especialista explica que as crianças a partir de dois anos e mulheres têm mais prevalência a desenvolver. “A cinetose depende da sensibilidade individual de cada pessoa. Acaba sendo mais raro em indivíduos acima dos 50 anos”, menciona Bettinelli.
Diagnóstico
O otorrinolaringologista destaca que a identificação da síndrome é clínica com o conjunto de informações da anamnese (entrevista com paciente) e do exame físico realizado pelo seu médico assistente. “A avaliação do labirinto através de exames como eletronistagmografia e posturografia dinâmica, são exames solicitados para investigação de patologias primárias”, frisa.
Tratamentos
O cuidado da cinetose tem como principal objetivo aliviar os sintomas e auxiliar o organismo a se adaptar aos estímulos de movimento. “A fundamentação do tratamento se dá em reduzir sintomas e estimular a compensação vestibular. Geralmente, assim que o estímulo desencadeia, os sintomas tendem a ir desaparecendo”, explica.
Além disso, mudanças na rotina também são consideradas fundamentais no controle do problema. “Consistem em modificações do estilo de vida para melhora funcional do labirinto (como prática regular de exercícios físicos e alimentação equilibrada)”, medidas que contribuem para fortalecer o sistema vestibular e reduzir a frequência dos episódios.
Em situações específicas, especialmente antes de deslocamentos prolongados, o uso de medicamentos pode ser indicado. “Medicações como o dimenidrato e a meclizina (anti-vertiginosos) são úteis para serem usados uma hora antes de viagens mais longas”, menciona.
Ela desaparece com o tempo?
Bettinelli explica que a cinetose não costuma aparecer de forma repentina, principalmente em pessoas que possuem mais de 50 anos. “Contudo, aqueles pacientes que têm uma predisposição a esse quadro, devem adotar medidas de prevenção (principalmente antes de suas viagens) para que os sintomas não apareçam. Exercícios de reabilitação vestibular, por exemplo, são uma boa medida para que o paciente tenha menos sintomas frente e situações de estímulo”, orienta.
Orientações
O otorrinolaringologista menciona que há práticas que as pessoas podem realizar para diminuir os sintomas, como:
- Sentar-se na frente do automóvel;
- Fixar um olhar mais para a frente, evitando movimentos da cabeça enquanto o veículo está em movimento;
- Evitar telas;
- Fazer refeições leves antes das viagens – evitando cafeína em excesso, por exemplo.
Embora não seja uma doença, a cinetose interfere diretamente na mobilidade e no lazer de milhões de pessoas, mostrando que até desconfortos considerados “simples” merecem atenção médica e informação de qualidade.
Cinetose não é labirintite
Apesar de apresentarem sintomas semelhantes, como tontura, náusea e mal-estar, cinetose e labirintite não são a mesma coisa e exigem abordagens diferentes. A confusão é comum, já que ambas envolvem o sistema vestibular, responsável pelo equilíbrio do corpo.
A cinetose está diretamente relacionada ao movimento. Ela ocorre, por exemplo, durante viagens de carro, ônibus, avião ou barco, quando há um conflito entre as informações captadas pelos olhos e pelo ouvido interno. Nesse caso, a tontura tende a desaparecer assim que o estímulo termina, como ao sair do veículo.
Já a labirintite é uma inflamação do labirinto, estrutura localizada no ouvido interno, e não depende de movimento para se manifestar. Os sintomas podem surgir mesmo com a pessoa parada e costumam ser mais intensos, incluindo vertigem forte, dificuldade para andar, náuseas persistentes, zumbido e, em alguns casos, perda de audição.