Representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Imperatriz do Vinho leva para a corte a vivência do interior, o vínculo comunitário e o compromisso de preservar a tradição vitivinícola
Há quem chegue à corte da Fenavinho movida pelo encanto de um sonho recém-realizado. Laura Caroline Pouluk Strozak vive um momento diferente. Com a experiência de quem já percorreu a rotina intensa de compromissos, eventos e contato direto com a comunidade, ela atua com a segurança de quem conhece o peso simbólico da faixa que carrega. No segundo ano como Imperatriz do Vinho, assume a função com ainda mais consciência do papel cultural, histórico e comunitário que a representação exige.
Mais do que a imagem da festa, Laura entende que a coroa simboliza pertencimento. Representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, ela se vê como ponte entre a tradição vitivinícola, as famílias do interior e o público que visita a maior celebração de Bento Gonçalves. Uma responsabilidade que, segundo ela, significa dar voz às origens, valorizar o trabalho no campo e manter viva a identidade construída em torno do vinho e da imigração italiana.
Valores que começam em casa
A postura firme com que fala da função pública tem raízes na educação familiar. Filha do motorista Clélio Antônio Strozak e da professora Cleusa Salete Pouluk Strozak, Laura atribui aos pais os princípios que norteiam suas escolhas. “Com eles, aprendi a nunca desistir daquilo que faz meu coração bater mais forte, dos meus sonhos e do que realmente quero conquistar. Eles me ensinaram a honrar minha origem, cuidar das minhas pessoas e respeitar todos à minha volta”, afirma.
Quando decidiu se candidatar à corte, o apoio foi imediato. “Recebi apoio desde o primeiro momento. Fizeram-me sentir capaz de alcançar o sonho de fazer parte do trio de soberanas. Durante todo o processo, foi minha família que me apoiou incondicionalmente, é a torcida mais vibrante de todas”, relata.
Entre dois bairros, a construção de identidade
Hoje morando no Maria Goretti por questões logísticas ligadas ao período da graduação, Laura deixa claro que sua história começa no Vila Nova 2, onde constrói memórias afetivas, amizades e referências que a acompanham até hoje. “Foi ali que cresci, cursei o ensino fundamental, construí minhas primeiras amizades, aprendi muito e me desenvolvi. Junto de pessoas que me ensinaram tanto, como minhas primeiras professoras, que sempre incentivaram meus estudos, fui me tornando quem sou hoje”, conta.
O sentimento de pertencimento se amplia quando fala da cidade. “Bento Gonçalves é meu berço, minha raiz, minha cidade do coração. Nasci aqui e é aqui que me sinto completa”, declara. Ela descreve o município como acolhedor, hospitaleiro e marcado por histórias, costumes e tradições que servem de referência até quando pensa em conhecer outros destinos.
Uma cidade em evolução
Atenta ao cenário social, Laura avalia Bento Gonçalves como uma comunidade em transformação constante, moldada pela diversidade cultural das etnias que formaram o município. “A sociedade bento-gonçalvense segue em constante desenvolvimento. De diferentes formas, conseguimos avançar e evoluir continuamente. A cidade reflete o seu povo e possui um carisma único e características plurais”, analisa.
Ela também observa maior participação feminina e juvenil em diferentes espaços. “Percebo espaços sendo conquistados e caminhos sendo desbravados, cada vez mais, por jovens e mulheres. Reconheço que ainda há muito a ser alcançado, mas valorizo os espaços já ocupados”, pontua. Segundo ela, sua própria trajetória e a estabilidade construída pela família refletem as oportunidades encontradas na cidade.
Do encanto ao protagonismo

O vínculo com a Fenavinho nasce ainda como visitante. Laura recorda o fascínio pelas cortes que circulavam próximas da comunidade, conversando com o público e apresentando a história da festa. “Sempre tive encanto pela corte da Fenavinho”, relembra.
A decisão se consolida em 2023, quando, ao prestigiar o evento e observar a atuação das soberanas no contato direto com os visitantes, sente que também queria assumir aquele papel.
A caminhada até a escolha envolve uma rotina intensa de formação cultural, histórica e comportamental. As candidatas passam por aulas de postura, dicção, oratória, ensaios e visitas técnicas que aproximam cada uma das raízes da festa. “O processo de preparação foi intenso, com uma agenda pensada para nos preparar em diversos aspectos, culturais, posturais e artísticos”, explica Laura. Segundo ela, as visitas a vinícolas, museus, tanoarias e restaurantes típicos, além dos estudos sobre a imigração italiana, ajudaram a compreender profundamente a origem da cidade e da própria Fenavinho.
A noite que fica na memória
Entre as muitas vivências, um momento permanece intocável: a noite da escolha da corte. A emoção, diz, ultrapassa a conquista pessoal. “Viver uma edição como representante dessa festa é uma das experiências mais enriquecedoras e felizes que já tive em minha vida. O momento que ficará guardado para sempre é quando vi as pessoas mais importantes da minha vida vibrando, torcendo e se emocionando pela conquista que ajudaram a construir”, afirma.
Com a experiência acumulada, Laura enxerga a função de forma mais ampla. Para ela, a corte é instrumento de preservação cultural e diálogo com a comunidade. “Ser Imperatriz dessa festa e representar nossa cidade é uma honra, uma conquista e um capítulo inesquecível da minha vida”, afirma.
Ela ressalta que o trabalho envolve falar da história local, divulgar o esforço coletivo de organizadores e produtores e valorizar os agricultores que sustentam a vindima. “Além de sermos o rosto dessa festa, somos também a voz que anuncia pela região o trabalho de todos os envolvidos para a consolidação da nossa tradição, do nosso povo e da nossa história”, destaca.
Um convite para viver a festa
Ao projetar a próxima edição, Laura espera que visitantes tenham experiências completas, que envolvam sabores, sons e memórias. “Quero convidar a todos para se permitirem visitar nossa feira e festa de coração aberto, recebendo o acolhimento caloroso da nossa cidade, servindo-se de uma boa taça de vinho, apreciando boa música e conhecendo nossa cultura”, convida.
Aprendizados que ficam
Formada em agronomia e com planos de seguir estudando, ela pretende voltar à sala de aula para se aperfeiçoar. A comunicação, diz, tornou-se uma das principais ferramentas pessoais durante o reinado. “Com a Fenavinho, pude lapidar essa habilidade e torná-la parte importante do meu reinado, pois, por meio dela, comunico quem sou e tudo o que essa jornada representa”, afirma.
Grata pelas experiências e pelas pessoas que encontra ao longo do caminho, Laura deseja ser lembrada pela entrega genuína. “Espero ser lembrada pelo meu amor e dedicação à Fenavinho, pois em todos os momentos entrego a minha melhor versão”, conclui.