Durante décadas, o Carnaval de Bento Gonçalves teve endereço certo: os salões dos clubes sociais. Antes das festas em outras cidades e das viagens em massa para o litoral, eram o Botafogo, Aliança, Ipiranga e Susfa que concentravam a folia e transformavam a cidade em um grande baile coletivo, marcado por marchinhas, fantasias e disputas saudáveis entre as entidades.

Nos anos 1970, 1980 e 1990, considerados os anos áureos, a expectativa começava meses antes. “Era visto com muita animação. Existia uma grande expectativa nos bailes do Clube Botafogo”, relembra o presidente Antônio Natal de Barba. As três noites de Carnaval reuniam sócios e comunidade em geral, com salões lotados e bandas que traziam os sucessos do momento. “Cada ano aparecia uma música nova e o ‘point’ era a música nova do carnaval que as bandas tocavam. Existia a disputa entre os clubes de quem fazia a melhor festa”, destaca.

Fotos com foliões em 1968

No Clube Aliança, o cenário era semelhante. “Inicialmente, o carnaval era somente nos clubes de Bento Gonçalves. As sociedades organizavam as festas para seus associados, parecidos com bailes tradicionais”, conta o presidente Antônio Frâncio. As mesas eram disputadas ao redor da pista e famílias inteiras participavam. “O Clube lotava nas noites realizadas”, relembra.

Fantasias, blocos e decoração temática

Se a música era a alma da festa, a decoração e as fantasias completavam o espetáculo. No Botafogo, praticamente todos iam fantasiados. “Tinham pessoas que se preparavam, faziam as fantasias em casa. Existiam blocos, cada um com uma fantasia ligada ao movimento”, recorda De Barba. O clube era decorado de acordo com o enredo de cada ano.

No Aliança, pierrots e colombinas dividiam espaço com foliões sem fantasia, enquanto no Ipiranga a organização apostava em balões coloridos, serpentinas e máscaras gigantes.

Alguns se fantasiavam de pierrot e colombinas

“A ideia nunca era repetir a decoração”, destaca Teresinha A. Toffoli, funcionária do Clube Ipiranga há mais de 30 anos. A programação incluía jantar de casais na sexta-feira, bailes no sábado e na segunda e matiné infantil no domingo, muitas vezes com parceria entre clubes, permitindo que associados circulassem entre eles.

As marchinhas eram obrigatórias. “A abertura do baile já era com marchinha, estas não podiam faltar nunca”, afirma Teresinha. Além delas, frevo e samba-enredo animavam as pistas, com bandas locais e regionais, como o grupo Arpege e a banda de Agenor Pertile.

Salões lotados e histórias marcantes

A popularidade dos bailes era tamanha que, em algumas noites, faltava espaço. Antônio Frâncio relembra um episódio inusitado no Aliança: “Numa noite o clube lotou e não cabia mais ninguém, nem nas escadas. Tivemos de fechar as portas, e o pessoal que ficou de fora tentou arrombar. A Brigada Militar interveio lançando bombas de gás lacrimogêneo”, revela.

Carnavais aconteciam principalmente nos Clubes Susfa, Ipiranga, Botafogo e Aliança

No Ipiranga, também houve madrugadas memoráveis. “Teve uma noite em que baixou uma neblina tão forte que não dava para ver o outro lado da rua. Tivemos que fechar a porta. Foi muito legal”, conta Teresinha.

Os blocos desfilavam pelas ruas e passavam de clube em clube ao longo da noite, levando bateria e escolas de samba até de outras cidades. “Era uma atração muito linda”, lembra De Barba. Mais do que festa, o Carnaval criava laços. “Muitas pessoas que continuam casadas se conheceram nos carnavais do Botafogo”, destaca.

Mudança de hábitos e perda de público

Com o passar dos anos, o cenário começou a mudar. Para Eduardo Belatto, presidente do Clube Susfa, a transformação dos hábitos sociais foi determinante. “Nos anos 70, 80 e 90, as pessoas eram mais caseiras. Não tínhamos quase carros. Íamos a pé aos clubes e caminhávamos de madrugada sem problema algum”, conta.

Hoje, com maior acesso a veículos e viagens, muitos preferem aproveitar o feriado prolongado na praia ou no campo. “Ficou mais fácil as pessoas se dividirem”, observa.

Outros fatores também contribuíram para o declínio. A realização de carnavais em galpões e ginásios, com foco comercial, afastou o público dos clubes. “A juventude trocou os clubes por esses lugares e por muitos anos as festas foram suspensas”, relata Frâncio. Teresinha acrescenta que eventos itinerantes também impactaram negativamente: “Os clubes perderam público e não se interessaram mais em retomar”, destaca.

Para o presidente do Botafogo, faltou preparar as novas gerações para dar continuidade à tradição. “As pessoas mais de idade foram se cansando e a juventude não veio aderindo”, diz. Ele acredita que o poder público poderia incentivar o resgate gradual da festa nos clubes.

Tentativas de retomada

Apesar das dificuldades, algumas iniciativas resistem. O Clube Susfa mantém o Carnaval infantil, com confetes, espuma, recreacionistas e fantasias, como forma de preservar a tradição. O Aliança aposta no Jantar Baile de Carnaval, que em 2026 chega à segunda edição, já com mesas esgotadas.

Para os dirigentes, o legado dos antigos carnavais permanece na memória coletiva da cidade. “É uma pena que as novas gerações não conheceram o quanto o carnaval era divertido”, lamenta Teresinha.