Silenciosa, cercada por desinformação e ainda marcada pelo estigma social, a hanseníase continua sendo um desafio de saúde pública no Brasil. Para ampliar a conscientização sobre os sinais, as formas de transmissão, o diagnóstico precoce e o tratamento da doença, o mês de janeiro é marcado pela campanha Janeiro Roxo, que mobiliza órgãos de saúde, profissionais e a população em geral. A iniciativa reforça que a hanseníase tem cura e que o acesso rápido ao tratamento é fundamental para evitar complicações e interromper a cadeia de transmissão.
O Dia Mundial contra a Hanseníase é comemorado no último domingo do mês, que, neste ano, ocorre no dia 25. A dermatologista Thaísa Hanemann explica que ela é uma doença infecciosa causada por uma bactéria chamada Mycobacterium leprae. “Afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. As lesões de pele resultam da infiltração bacteriana e da resposta do sistema imunológico da pessoa a essa infecção”, menciona.

Sintomas
De acordo com Thaísa, os principais indícios da doença são:

  • Manchas esbranquiçadas, avermelhadas ou amarronzadas, com perda ou alteração da sensibilidade ao toque;
  • Alterações na sensibilidade à dor e à temperatura, além de áreas de pele seca, com ausência de suor e pelos;
  • Possível aparecimento de caroços (nódulos).
    Além desses sinais, ela destaca que também podem ocorrer formigamento, fisgadas, inchaço nas mãos e nos pés e diminuição da força muscular, podendo evoluir para feridas e deformidades em casos mais avançados.
    Muitas pessoas ainda acreditam que as manchas provocadas pela hanseníase costumam coçar ou causar dor, o que nem sempre corresponde à realidade. Na maioria dos casos, a doença se manifesta de forma silenciosa, sem desconforto aparente. “O sintoma predominante é a perda de sensibilidade, perda de pelos e ausência de suor. Prurido e dor são raros e, quando presentes, costumam estar associados a reações agudas que podem ocorrer durante o quadro prolongado da doença ou secundárias à inflamação dos nervos que a bactéria ataca”, explica.

Contágio
A dermatologista destaca que a hanseníase apresenta baixa transmissibilidade, uma vez que a infecção exige contato próximo e prolongado com pessoas que ainda não iniciaram o tratamento. “Não sendo transmitida por abraços, beijos ou objetos. A transmissão ocorre principalmente por gotículas de secreções nasais de pacientes não tratados, por meio de tosse, espirro e fala. A hanseníase tem alta capacidade de infectar, mas baixa capacidade de causar a doença. Isso significa que, embora o bacilo Mycobacterium leprae possa ser transmitido, a maioria das pessoas expostas não desenvolve a doença devido à resposta do seu sistema imunológico”, salienta.

Incubação
Thaísa frisa que a doença possui um longo período de incubação, que corresponde ao tempo entre a infecção e o surgimento dos primeiros sintomas. “Geralmente, eles surgem, em média, de cinco a sete anos após a infecção. Mas, em alguns casos, os primeiros sinais podem aparecer em menos de dois anos, enquanto, em outros, a manifestação completa da doença pode levar de 20 a 30 anos ou mais”, menciona.

Tratamento
A dermatologista destaca que o tratamento é eficaz e que a doença tem cura. “A boa notícia é que, após o início do tratamento com a combinação de medicamentos, conhecida como multidrogaterapia, o paciente deixa de transmitir a doença em um período muito curto, geralmente após as primeiras doses. O tratamento é gratuito e está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). A Intervenção precoce é muito importante, pois previne sequelas graves e interrompe o ciclo de transmissão da doença”, orienta.

Prevenção
A médica enfatiza a importância do diagnóstico precoce. “A vacinação dos contatos próximos, conforme indicação, podendo ser realizada a vacina BCG, da tuberculose, que confere proteção cruzada contra a hanseníase, e o acompanhamento de pessoas que convivem ou conviveram com pacientes infectados, que devem ser examinadas periodicamente”, ressalta.
Diagnóstico
Thaísa destaca que o paciente deve estar atento aos sintomas mencionados anteriormente. Segundo a dermatologista, para diferenciar as manchas da hanseníase de outras doenças de pele, é fundamental a avaliação médica. “Iremos avaliar o aspecto das lesões e a sensibilidade no local. Geralmente, a mancha apresenta, inicialmente, alteração da sensibilidade à temperatura, quando o paciente não consegue diferenciar quente de frio, podendo sofrer queimaduras, por exemplo, ao manusear panelas. Depois ocorre a alteração da dor e, por isso, em casos avançados, surgem feridas e machucados nas mãos e nos pés que o paciente não percebe e só visualiza dias depois. Por último, ocorre a perda da sensibilidade ao toque, quando o paciente não sabe indicar onde estamos tocando, pois não sente”, esclarece.
Ela acrescenta que a investigação clínica também inclui a palpação dos nervos, para verificar se há espessamento ou dor ao longo de seu trajeto. “Fazemos o teste de baciloscopia e/ou coletamos um pequeno fragmento de pele do paciente para a identificação da bactéria. O acompanhamento desses pacientes geralmente é realizado por várias especialidades, que incluem dermatologistas, infectologistas e neurologistas”, conta.

Dados
Os números do Boletim Epidemiológico de Hanseníase 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde em conjunto com a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, mostram que, entre 2014 e 2023, o Brasil registrou 309.091 notificações da doença. Desse total, 80% correspondem a casos novos, o que evidencia a permanência da hanseníase como um problema relevante de saúde pública no país. Ao longo da série histórica, houve uma queda acentuada na detecção de novos casos, fenômeno atribuído principalmente aos impactos da pandemia de covid-19 sobre os serviços de saúde. Nos anos seguintes, no entanto, observou-se a retomada gradual das notificações, culminando, em 2023, em uma taxa de 10,68 casos por 100 mil habitantes, índice classificado como alto pelos parâmetros oficiais.
Em 2023, dos 22.773 novos casos de hanseníase registrados no país, 55,4% ocorreram em homens, o que corresponde a 12.618 notificações. Os dados indicam que a doença segue afetando mais a população masculina, com uma razão de sexos de 1,2, ou seja, cerca de 12 homens para cada 10 mulheres diagnosticadas no período. Ao longo dos anos analisados, esse indicador apresentou pouca variação, mantendo-se entre 1,2 e 1,3, o que reforça um padrão consistente na distribuição dos casos entre os sexos.
Ainda em 2023, a distribuição dos novos casos evidenciou maior concentração entre adultos e idosos. Do total de diagnósticos, 53,6% ocorreram em pessoas de 30 a 59 anos, enquanto 29,6% atingiram indivíduos com 60 anos ou mais. As faixas etárias mais jovens representaram proporções menores, com 4,2% dos casos em menores de 15 anos e 12,6% entre pessoas de 15 a 29 anos. Ao longo do período analisado, os dados apontam uma redução expressiva na participação de crianças e jovens, com queda de 44% nos casos em menores de 15 anos e de 24,5% na faixa de 15 a 29 anos. Em contrapartida, houve um aumento de 35,2% na proporção de casos entre idosos, enquanto o grupo de 30 a 59 anos manteve participação estável, consolidando-se como o mais afetado pela doença.