Nos últimos anos, a proliferação de produtos falsificados tem gerado crescente preocupação entre consumidores e autoridades sanitárias. Os cosméticos, por exemplo, tornaram-se um dos alvos mais comuns de contrabando e pirataria. Por trás de embalagens atraentes e promessas de eficácia milagrosa, muitos desses itens, frequentemente vendidos por preços baixos, escondem riscos à saúde que podem ser devastadores. Ingredientes não regulamentados, contaminantes e substâncias perigosas são apenas alguns dos perigos que esses produtos representam para a pele e o bem-estar dos consumidores.
Com a popularidade das compras online e a dificuldade de distinguir produtos legítimos de falsificados, o mercado de cosméticos tornou-se um campo fértil para práticas ilícitas. A escassez de fiscalização rigorosa, aliada à busca por descontos e ofertas tentadoras, faz com que muitos consumidores não percebam os danos que estão prestes a causar ao seu corpo. Por isso, é fundamental tornar-se mais vigilante e informado, a fim de evitar danos irreversíveis causados pelo uso de produtos adulterados.

Riscos à saúde
De acordo com a médica dermatologista Caroline Dalla Costa, as principais ameaças ocorrem pelo contato com substâncias e ativos inadequados. “A aplicação cutânea pode ter potencial irritativo, tóxico ou carcinogênico. Além disso, essas substâncias podem ser absorvidas pela pele, causando efeitos colaterais sistêmicos, queimaduras, infecções e cicatrizes”, alerta a especialista.
Segundo a médica, os produtos usados nas áreas mais sensíveis, como as regiões periocular e labial, podem causar ainda mais danos, especialmente aqueles de uso diário, como maquiagem e protetor solar. “O contato com as substâncias adulteradas será maior e constante. No caso dos protetores solares, há ainda o risco de queimaduras graves, uma vez que o filtro presente nesses produtos pode não exercer sua função adequadamente”, observa.

Médica Dermatologista Caroline Dalla Costa

Por que fazem mal?
Caroline alerta que os cosméticos que não seguem as normas estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) representam riscos severos. “Esses produtos não passam por controle de qualidade, o que significa que não há como garantir a procedência das substâncias. Não existem testes de matéria-prima nem a certeza de segurança para o uso. Em alguns casos, isso leva à proliferação de microrganismos causadores de infecções. Há registros de produtos falsificados que contêm substâncias altamente tóxicas, como mercúrio, chumbo e arsênico”, destaca.

Como identificar falsificações
De acordo com Maciel Giovanella, advogado e assessor de políticas públicas do consumidor do Procon Municipal de Bento Gonçalves-RS, o consumidor deve desconfiar de ofertas milagrosas. “Na compra em loja física, deve-se verificar as especificações e solicitar ao vendedor informações sobre a autenticidade. O produto deve estar embalado, com certificado de garantia e manual de instrução. O consumidor deve sempre exigir a nota ou cupom fiscal no momento da compra”, orienta.
A dermatologista enfatiza a importância de escolher com cuidado os fornecedores. Segundo ela, preços muito abaixo da média do mercado são o primeiro sinal de alerta. “É essencial verificar detalhes nas embalagens, como o número do lote e a data de validade. Além disso, odor ou textura diferentes do habitual também indicam que algo pode estar alterado”, adverte. Giovanella acrescenta que já houve casos em que o consumidor adquiriu produtos em sites que simulavam lojas oficiais, mas recebeu réplicas falsas.

Cuidados imediatos
Ao suspeitar que utilizou um produto falsificado, o consumidor deve adotar os seguintes passos:

  • Suspender imediatamente o uso do produto;
  • Lavar a região com água corrente em abundância;
  • Procurar atendimento médico na presença de prurido (coceira) intenso, vermelhidão, bolhas, ardência, mal-estar ou sintomas oculares.

O papel das redes sociais
Para a dermatologista, as redes sociais impulsionam esse fenômeno através das rotinas de skincare. “Vemos constantemente leigos indicando produtos de forma inadequada. A influência das mídias gera uma onda de consumo nem sempre consciente. Isso abre espaço para a circulação de falsificados, cujo preço é o principal fator atrativo”, observa.

Danos permanentes
A médica frisa que pode haver prejuízos irreversíveis: “Dermatites de contato, queimaduras e infecções podem deixar sequelas como manchas hipo ou hiperpigmentadas (claras ou escuras), cicatrizes e até alterações visuais permanentes”.

Fiscalização e direitos
Segundo Giovanella, o Procon atua de forma orientativa. “O principal problema é que, quando esses produtos apresentam defeitos ou causam danos, o consumidor não tem a quem recorrer. Não há documentos ou nota fiscal para respaldá-lo. Além do prejuízo econômico, é o famoso ‘barato que sai caro’”, afirma.
No município de Bento Gonçalves, casos desse tipo ainda são raros no comércio local. “Felizmente, não temos um grande volume de reclamações no comércio físico local, mas o alerta deve ser constante”, ressalta o advogado. Caso o cliente desconfie da procedência após a compra, o ideal é procurar o Procon munido de qualquer comprovante (recibo ou nota). “A loja será notificada para prestar esclarecimentos e poderá ser devidamente multada”, conclui.

Entenda as substâncias ocultas

  • Arsênio: metal pesado altamente tóxico. Em produtos piratas, é usado para dar pigmentação, mas pode causar feridas na pele e é considerado cancerígeno;
  • Cianeto: substância venenosa encontrada em perfumes falsificados. É usada ilegalmente para “segurar” o cheiro da fragrância, mas pode causar tonturas e intoxicações;
  • Contaminação biológica: presença de seres vivos invisíveis a olho nu, como fungos e bactérias (ex: E. coli). Ocorre em fábricas clandestinas sem higiene, causando infecções graves;
  • Corantes industriais: pigmentos feitos para pintar objetos (como carros ou tecidos). Por serem baratos, são usados em maquiagens falsas, mas causam alergias severas e manchas;
  • Dermatite de contato: uma reação inflamatória na pele (vermelhidão, coceira ou bolhas) que surge logo após o uso de uma substância irritante ou alérgica;
  • Efeitos sistêmicos: quando uma substância tóxica passa pela pele, entra na corrente sanguínea e afeta órgãos internos, como rins e fígado;
  • Metais pesados: grupo de elementos químicos (chumbo, mercúrio, cádmio) que o corpo humano não consegue eliminar facilmente, acumulando-se e causando doenças crônicas.