O Hemocentro Regional de Caxias do Sul (Hemocs), responsável por fornecer hemocomponentes vitais para diversas instituições de saúde, incluindo o Hospital Tacchini em Bento Gonçalves, opera com baixo estoque, devido à diminuição nas doações de sangue. A situação exige uma mobilização da comunidade de toda a região para reverter a queda nos estoques e garantir o suprimento essencial para pacientes que dependem de transfusões.
Amanda Dendena, biomédica líder da Agência Transfusional do Hospital Tacchini, que depende do fornecimento do Hemocentro de Caxias do Sul, explica que a redução na captação de bolsas é multifatorial. Além do período de feriados, historicamente marcado por uma diminuição na frequência de doadores, a biomédica destaca a redução na mobilização e conscientização da população sobre a importância da doação regular de sangue. “Muitas vezes, as pessoas doam apenas em campanhas pontuais, e isso faz com que os estoques diminuam nos períodos em que não há ações de incentivo mais intensas”, explica.

Tipos necessários
O componente sanguíneo em situação mais crítica no momento é o concentrado de hemácias, fundamental para pacientes em cirurgias, vítimas de trauma e com quadros de anemia severa. A urgência concentra-se nos grupos sanguíneos O-, O+ e A+. Apesar da necessidade permanente por estes grupos específicos, Amanda salienta a importância de manter níveis adequados de todas as tipagens e dos demais hemocomponentes, como plaquetas, plasma e crioprecipitado, essenciais para o tratamento de diversas condições médicas.
O impacto direto da baixa nos estoques pode ser grave, afetando diretamente o atendimento a pacientes do Hospital Tacchini e das demais instituições que dependem do fornecimento caxiense. Quando os níveis atingem um patamar crítico, há a necessidade de priorizar casos de urgência e emergência, o que pode resultar no adiamento de cirurgias eletivas e na restrição de transfusões programadas. A biomédica reforça que, embora o Hospital Tacchini ainda não tenha chegado a esse estágio de colapso, a situação requer atenção máxima. “Por isso, o apoio da comunidade é essencial para manter os estoques em níveis seguros e garantir que todos os pacientes continuem recebendo o atendimento necessário”, afirma.

Variedade de utilizações
Uma única bolsa de sangue é capaz de salvar até quatro vidas, dado que o material doado é fracionado e gera diferentes hemocomponentes, utilizados conforme a necessidade individual de cada paciente. A partir da bolsa são obtidos o concentrado de hemácias (para transporte de oxigênio), o concentrado de plaquetas (para coagulação), o plasma fresco congelado (rico em fatores de coagulação) e o crioprecipitado (usado em deficiências específicas de proteínas de coagulação).
Em relação aos tipos mais procurados, os negativos permanecem em constante necessidade devido à sua raridade. “O O-, em especial, é o mais procurado, porque pode ser usado em emergências, já que é o doador universal. Mesmo assim, tipos mais comuns como O+ e A+ também são muito importantes, pois correspondem à maioria dos pacientes que precisam de transfusão”, explica.
Dirigindo-se aos moradores de Bento Gonçalves e da região, cuja participação é fundamental para o Hemocentro de Caxias do Sul, Amanda deixa uma mensagem de conscientização e apelo. “A doação de sangue é um gesto simples que pode mudar o destino de muitas vidas. Cada bolsa doada representa esperança para quem enfrenta um momento difícil. Nunca sabemos quando alguém próximo pode precisar, e por isso a conscientização é essencial. Manter o hábito de doar é uma forma de cuidar uns dos outros e fortalecer toda a comunidade”, conclui Amanda.

Risco da incompatibilidade
Diante do alerta nos estoques do Hemocentro, é fundamental compreender a complexidade do sistema de tipagem sanguínea. A compatibilidade é a chave para a segurança das transfusões, um processo que envolve dois sistemas principais: ABO e Fator Rh.
A capacidade de um indivíduo doar ou receber sangue depende da presença, ou ausência, de antígenos específicos nas superfícies das hemácias (glóbulos vermelhos).
O sangue é classificado em oito tipos principais, resultantes da combinação dos sistemas ABO e Rh: A+, A-, B+, B-, AB+, AB-, O+ e O-.
•Doador universal: O tipo O- é o doador universal, podendo fornecer sangue para pessoas de qualquer tipo sanguíneo. Ele é crucial em emergências, quando não há tempo para a tipagem completa do paciente. Contudo, o O- só pode receber sangue de outro O negativo.
•Receptor universal: O tipo AB positivo (AB+) é o receptor universal, aceitando sangue de todos os outros tipos. Em contrapartida, só pode doar para receptores do tipo AB positivo.
•Fator Rh: O fator Rh também é determinante. O sangue Rh negativo (Rh-) pode doar tanto para pacientes Rh positivo quanto para Rh negativo. No entanto, quem é Rh negativo só pode receber sangue Rh negativo. Já o sangue Rh positivo (Rh+) só pode doar para outro Rh positivo, mas recebe tanto de Rh positivo quanto de Rh negativo.

Consequências
Receber sangue do tipo errado desencadeia uma reação hemolítica transfusional, um evento adverso grave e potencialmente fatal. O sistema imunológico do paciente receptor, ao identificar as hemácias do doador como “invasoras” por possuírem antígenos estranhos, produz anticorpos que promovem a destruição imediata dessas células.
As consequências desse erro, embora raras devido aos rigorosos protocolos de checagem, são sérias e incluem:
•Destruição das hemácias (Hemólise): A reação imunológica destrói os glóbulos vermelhos, liberando hemoglobina no plasma.
•Choque e colapso circulatório: O organismo produz substâncias vasodilatadoras, resultando em uma queda brusca da pressão arterial (hipotensão) e comprometimento da oxigenação dos órgãos, podendo levar ao choque. O coração acelera para tentar compensar a pressão baixa.
•Danos renais: O processo de destruição celular sobrecarrega os rins, que tentam filtrar grandes quantidades de hemoglobina liberada. Isso pode causar insuficiência renal aguda, um quadro que pode ser fatal. A urina do paciente tende a ficar escura devido à presença de hemoglobina (hemoglobinúria).
•Sintomas imediatos: Os pacientes podem manifestar febre, calafrios, mal-estar, dor intensa no peito e nas costas (na região dos rins) e, em casos mais graves, dificuldades respiratórias.