“Existem nossas articulações, mas ainda falta a população branca enxergar a cultura indígena”, expõe o vice-cacique Alexsandro dos Santos

Entre as vinhas e montanhas de Bento Gonçalves, vive uma comunidade que carrega séculos de história, saberes e resistência: os Kaingang. Desde 2015, famílias indígenas de diferentes aldeias do Rio Grande do Sul se estabeleceram no município, formando uma pequena aldeia, ou Área de Passagem como define a prefeitura, que busca preservar sua identidade cultural sem abrir mão da inserção social e econômica. A comunidade está localizada no bairro São Roque, ao final de um caminho de chão batido depois da rua Iracy Foppa. O núcleo é formado por pequenos casebres de madeira e moradias simples.

O início dessa trajetória foi marcado pela busca por trabalho e melhores condições de vida. “Viemos para comercializar o artesanato e encontramos aqui uma região boa de serviço. A comunidade se sentiu acolhida e decidiu ficar. De onde viemos, o trabalho é escasso. Aqui conseguimos viver melhor, sem deixar de lado nossa cultura”, conta Alexsandro dos Santos, vice-cacique da aldeia. “Há alguns anos atrás, era uma terra de passagem, onde o pessoal além de vir vender seus artesanatos, fazia a colheita da uva. Eles voltavam para suas aldeias ao final deste processo. Só que fomos gostando desse lugar, onde a gente poderia trabalhar e sempre estar trazendo o sustento para nossas famílias. Esta terra de três hectares foi doada pelo município. Lá onde eu morava sobrevivíamos da agricultura”, complementa Ivolni Manoel Antonio, professor da escola local e também estudante de Pedagogia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS).

As famílias vieram de diferentes regiões, como Guarita, Tenente Portela, Charrua, e formaram uma comunidade Kaingang unificada, com 17 núcleos familiares. Hoje, o grupo mantém normas próprias, reconhecidas pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e pelo Ministério Público Federal (MPF). “Temos nossas leis internas, respeitadas pelos órgãos competentes. Buscamos viver em harmonia, mas ainda enfrentamos preconceito. A Serra Gaúcha é uma das regiões mais preconceituosas com indígenas e negros, mas aos poucos fomos conquistando respeito e nos adaptando. A minha função como vice-cacique é sempre trabalhar em conjunto com o cacique e a comunidade para melhorias, tanto na parte do município, Funai, na administração e nas normas que funcionam aqui”, explica o vice-cacique.

Alexsandro dos Santos, vice-cacique

Segundo ele, a cultura não é o cipó, não é o cocar, ela está dentro de cada indígena. “É a língua, o que é passado de um para o outro. Então aqui na comunidade de Bento principalmente, a gente viu que dá para evoluir financeiramente sem deixar a cultura de lado”, pontua.

Sobre tradições e celebrações, ele destaca que existem muitos planos para o futuro, mas que a dificuldade persiste. “Agora estamos tendo um contato com a secretaria de Cultura, mas de início a dificuldade é bem grande. Existem articulações entre nós, mas ainda falta a população branca enxergar a cultura indígena”, conta.

Sobre os principais desafios enfrentados pela comunidade, ele frisa a falta de apoio. “Principalmente dos órgãos competentes, que têm a obrigação e o compromisso com a comunidade indígena. Só conseguimos alguma coisa através do MPF, acabamos precisando da justiça para ter algo”, relata.

Há 17 famílias no local

Educação como caminho de futuro

O orgulho e a esperança da comunidade estão concentrados também em um pequeno espaço: a Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Sor Mag, criada em 2022. O local nasceu de um sonho coletivo e muita luta. “Começamos com aulas debaixo de uma lona, no calor. Trocamos de espaço três vezes, não tínhamos estrutura, mas sabíamos que não podíamos desistir, pois as crianças são o futuro da comunidade. Em abril deste ano conseguimos o decreto que oficializou a instituição como Estadual. Ainda não estamos em um local muito bom, mas seguimos lutando para ter um espaço melhor. Com a escola aqui, não tem mais o problema de ser perigoso para as crianças pequenas irem mais longe, até a pé, pela falta de transporte que havia”, recorda o professor Antonio, que pondera que o espaço é deles, nada foi doado pela Secretaria de Educação do Estado (SEDUC).

Hoje, com apenas seis alunos, ele é o único docente da escola que atende segundos e quartos anos, trabalhando com um currículo diferenciado, que une o ensino tradicional à cultura Kaingang. “Como é uma escola indígena, ela tem o ensinamento próprio. Tudo é ensinado de forma diferente. A gente ensina português, matemática e ciências, mas tudo adaptado à nossa língua e aos nossos costumes. A cultura está em tudo: nas histórias, nas marcas, nas ervas medicinais. Nosso objetivo é que as crianças aprendam sem perder a identidade indígena. Eu trabalho uma atividade com o quarto ano, mas também já adapto para o segundo ano”, explica. A diretora do colégio é Patrícia Neves.

O professor Ivolni Manoel Antonio, com seus alunos e o filho no colo

Mesmo com avanços, os desafios ainda são grandes. A escola carece de infraestrutura básica, não há refeitório, banheiros ou espaço adequado para as atividades. “Estamos sempre pedindo apoio do Estado para construir um lugar melhor. As crianças merecem aprender num espaço digno. Não temos estrutura para receber mais alunos. A partir do quinto ano, eles começam a estudar fora. Normalmente eles vão para a escola Dona Isabel, que é a mais próxima”, afirma o docente.

Segundo Antonio, alguns alunos relataram dificuldades depois que foram para outra escola. “Foi ano passado que um aluno saiu daqui e comentaram conosco sobre as dificuldades que tinha, mas não foi porque teve um ensinamento ruim. Por causa da pandemia que várias crianças tiveram essa dificuldade, não tinha como a gente segurar ele aqui, porque ele estava ótimo, só tinha algumas coisas que precisávamos retomar, pois lá é outra convivência. Quando o aluno indígena vai para uma escola de fora, ele está sozinho, não está adaptado ainda”, frisa.

Ele complementa que são passadas histórias da cultura indígena. “Na disciplina de artes também trabalhamos as caligrafias, as marcas dos indígenas kaingangs. Trabalhamos nas Ciências a natureza, a medicina dos mais velhos, passando conteúdos de ervas medicinais. Todos os componentes estão relacionados à cultura”, salienta. Segundo ele, o envolvimento em decisões do colégio parte também do cacique e lideranças, sendo passado informações sobre o aprendizado aos pais.

Espaço interno da escola

O professor também lidera um projeto de resgate da língua Kaingang, ensinando palavras e expressões tradicionais às novas gerações. “Muitas dessas crianças nasceram aqui, na cidade, e não tiveram contato direto com a língua. Estamos reconstruindo isso. É um processo lento”, evidencia.

Ele ressalta o poder do ensino e o futuro da escola. “Estou sempre dando o meu melhor, porque a gente sabe que o ensinamento que eles vão ter aqui levam para a vida toda, para o processo estudantil que eles terão lá fora também”, comenta.

Para ele, o que é mais gratificante em trabalhar com os pequenos é ajudar as crianças. “O meu sonho nunca foi ser professor, mas foi uma oportunidade não só de mudar a minha vida, mas de levar uma educação melhor para elas. Não só eles aprenderem, assim como todo dia eu aprendo com meus alunos”, afirma.

Tradição e resistência

A cultura Kaingang sobrevive no cotidiano, nas palavras, nas danças, nos esportes tradicionais e no convívio coletivo. “Temos ideia de montar um centro cultural e apresentar várias comemorações durante o ano, onde ficaria aberto para o público não indígena e também para o turista. Onde teria todas as comidas típicas, a medicina indígena, o esporte indígena, como corrida de tora, tiro de arco e flecha, cabo de ferro”, indica o vice-cacique Alexsandro.

Para ele, essa é uma forma de fortalecer o diálogo entre indígenas e não indígenas. “Gostaríamos que a sociedade branca entendesse que nós, apesar de sermos os donos da terra, a gente não está aqui para estorvar, e sim para somar com o município. Temos nossos costumes, nossas leis diferentes. Mas a gente também trabalha, buscamos evoluir. Nossas crianças estão na escola, estão buscando a faculdade, coisas que no interior nós não tínhamos. A comunidade de Bento Gonçalves, que se diz uma cidade multicultural, acho que ainda não está tendo essa atenção, principalmente com a cultura indígena, que é nativa da região”, aponta.

Liderança e união

À frente da comunidade está o cacique Neri Ribeiro, que vê na união a principal força do grupo. “Temos dificuldades na saúde, educação e habitação, mas não olhamos só para isso. Cada família trabalha, seja com artesanato ou em empresas, tirando sua renda para sobreviver. Vivemos de forma tranquila e coletiva”, afirma.

O cacique também reforça a importância do respeito mútuo. “Queremos que as pessoas nos vejam como normais. Temos amigos na cidade, e quando vêm nos visitar, veem que vivemos de forma simples, com nossos costumes, mas em harmonia”, conclui.

Cacique Neri Ribeiro

Arte para resistir

A 4ª edição do projeto “Semear – Oficinas de arte, cultura e educação” traz desta vez no dia 20 de outubro, aulas de arte indígena, que se estendem até o dia 24. As oficinas abertas têm inscrições disponíveis pelo link aqui.

Pelo quarto ano, a historiadora e produtora cultural Cristine Tedesco promove essa série de atividades gratuitas que levam diversas formas de arte a adolescentes das escolas públicas de Bento Gonçalves. Esta edição do projeto tem financiamento da Lei Complementar nº 195/2022, Lei Paulo Gustavo, Pró-Cultura RS, Ministério da Cultura e Governo Federal.

O ministrante será Isaías da Silva Kaingang. “Esse projeto vem me acompanhando no decorrer da minha trajetória e tem o objetivo de democratizar a cultura. Desde 2023 tenho oferecido oficinas de arte indígena em meus projetos culturais por meio da colaboração do artesão Isaías da Silva e da comunidade Kaingang de Bento Gonçalves”, afirma Cristine.

Além de oferecer o conhecimento, as oficinas também abrem a possibilidade de alguns deles optarem pela arte como um trabalho. O fato de estarem em contato com professores que vivem da cultura mostra que isso é possível. “É fundamental que eles conheçam artistas independentes para entenderem que essa é uma realidade que pode ser deles também. São produzidos bichinhos de madeira por meio de técnicas em que os troncos são esculpidos para formar representações de corujas, tartarugas, onças, tatus, entre outros. Num segundo, as peças recebem a queima feita com pirógrafo, em que são criadas as características específicas de cada bichinho. Além disso, são produzidos filtros dos sonhos, em que os participantes aprendem as tramas com fios e a aplicação de miçangas, sementes e penas sintéticas. O objetivo das oficinas é oportunizar espaços de aprendizado por meio da cultura indígena e respeito aos povos originários”, complementa.

Segundo ela, há elementos e símbolos específicos fundamentais neste tipo de arte. “Cada etnia indígena tem elementos visuais específicos, grafismos que remetem aos animais e plantas comuns à determinadas regiões do Brasil, pinturas corporais que aludem à sua cultura e cosmologias. Também existe a arte indígena contemporânea em que os artistas produzem por meio de recursos digitais, alcançando maior público através da internet”, evidencia.

Cristiane destaca que a prática ajuda a manter viva a memória e a tradição. “A arte colabora para o registro visual das culturas, criando condições para sua permanência na sociedade atual. É associada aos conhecimentos técnicos e saberes tradicionais dos povos originários do Brasil, podendo ser em cerâmica, madeira, pinturas corporais, grafismos, arte digital, videoarte, fotografia, etc. Valorizar a arte indígena é valorizar a ancestralidade dos povos e respeitar a diversidade de formas de existir no mundo”, reitera.

Para ela, também pode ser uma forma de resistência e afirmação cultural. “Estes povos resistiram a um longo processo de colonização, que representou a perda de vidas, apagamento de diversas culturas e línguas, além do silenciamento sobre a presença de pessoas indígenas nas famílias de descendentes de italianos, em especial mulheres. Hoje, por meio de processos de retomada, a arte tem sido um instrumento para os não-indígenas conhecerem as cosmologias. Isso também tem representado a diversidade cultural do Brasil em grandes eventos como a Bienal de Veneza e exposições de coletivos indígenas no Museu de Arte de São Paulo”, pontua.

Cristiane espera que as pessoas levem o reconhecimento do direito indígena à existência e o respeito às diferentes formas de arte, que são sempre representações com muitos significados. “Em março de 2026 haverá a exposição do projeto, em que serão apresentados à comunidade as produções de todas as 10 oficinas, com acessibilidade em Libras, audiodescrição e braille. Será realizada no Museu do Imigrante de Bento Gonçalves, com entrada gratuita.

Projeto de difusão

Neste ano também aconteceu o projeto Circuito de Histórias: Uma viagem pela Cultura Kainkang nos Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos no município. As crianças e adolescentes receberam a trupe formada pela atriz e contadora de histórias, Marina Martins, o oficineiro Isaías da Silva, e produtora cultural, Eunice Pigozzo.

O projeto teve como objetivo promover o respeito e o conhecimento sobre os kaingang, além de colaborar para ampliar a acessibilidade às narrativas sobre a produção literária indígena, que hoje, juntamente com as vozes negras, LGBTQIAPN+, femininas, autistas, entre outros, estão cada vez mais ganhando espaços no mercado editorial.

Houve uma contextualização sobre esta população existente no Brasil. Para Silva, o projeto oportunizou que as crianças e adolescentes pudessem ter contato com um representante da Cultura Kaingang. A fundação da área indígena no município faz dez anos. “Para nós é importante saberem quem somos, como trabalhamos, da nossa presença em Bento Gonçalves. Isso dá visibilidade para nós, além de explicar as diferenças dos modos de vida de antigamente e hoje”, reitera.

Após a conversa, a atriz Marina, contou a lenda “A araucária e a gralha azul”. Para melhor ambientar a lenda, foi criado um cenário experimental com símbolos indígenas e com elementos da história como o fogo, a estrela cadente, a lua e a própria gralha-azul.