A chegada do inverno, com suas temperaturas mais baixas e dias mais curtos, transforma a paisagem e impõe um novo ritmo à natureza. Para o universo das plantas, essa estação não significa apenas um período de dormência, mas sim um ciclo vital de adaptação e preparação para o florescer da primavera. Seja na fruticultura, onde a colheita cede lugar à poda e ao planejamento, ou no mundo das flores, que revela sua resiliência em espécies que desafiam o frio, o inverno é um capítulo fundamental na vida vegetal. Entender como as plantas se comportam e o que fazer para auxiliá-las é crucial para garantir um futuro próspero e florido quando a estação gelada se despedir.
De acordo com Thompsson Benhur Didoné, extensionista rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater/RS-Ascar), as culturas da região já são adaptadas ao clima frio. “Temos que lembrar que em junho, julho e até metade de agosto é comum termos tempo frio, chuvoso e com geadas no decorrer desse período”, explica.

Culturas da região
Didoné destaca a rica variedade das culturas frutíferas região. “Temos dois tipos de fruticultura bem distintos em todo território”, explica. Um grupo é o das frutas que perdem as folhas, conhecidas como plantas caducifólias, que entram no período de dormência no inverno. “Caducifolhas são aquelas que perdem as folhas, como é o caso da videira, que é o maior cultivo do município. Há a pereira, há o pêssego, ameixa, maçã, e a pera”, exemplifica.
Em contrapartida, há as plantas que não perdem as folhas, como laranja, bergamota e limão, principalmente as cítricas. “Então, temos esses dois tipos de frutas”, aponta Didoné, ressaltando as diferentes estratégias da natureza para enfrentar o frio. “Essas culturas sofrem com o frio, sim, e dependendo se o frio for muito intenso, pode haver queimaduras nas folhas. Porém, os citros, na nossa região, são cultivados também em locais mais quente”, ressalta o extensionista.
Além desses dois grupos, existe um terceiro conjunto de frutas, mais adaptadas a climas quentes. “É o caso do abacate, da banana, que são cultivadas no nosso município, na região de microclima”, afirma o extensionista. Essas variedades são produzidas em territórios ao redor da costa do Rio das Antas, que possui um clima mais ameno e é menos suscetível a geadas.
A olericultura, outro setor agrícola importante em Bento Gonçalves, abrange o cultivo de hortaliças como alface, repolho, entre outras, complementando a diversidade produtiva do município. “No inverno, existe uma diminuição no plantio dessas culturas porque a maioria delas não tolera climas frios. Normalmente, sob cobertura plástica, ou seja, estão embaixo de estufas, onde conseguimos um controle térmico. Dentro dessas estufas, é possível armazenar calor durante o dia, o que minimiza o efeito do frio à noite”, cita.
O caqui, outro fruto muito produzido aqui, também é uma cultura do inverno. “Ele necessita de uma certa quantidade de horas de frio, abaixo de 7,2 graus Celsius, que é uma soma térmica para que a planta complete o seu ciclo de dormência, porque embora a planta esteja praticamente parada, ela continua completando o desenvolvimento das gemas, que é aquela parte da planta que irá brotar para o próximo ciclo vegetativo”, afirma.
A maçã e a pera, Didoné explica, necessitam de até mais de 400 horas de frio acumuladas nesse período de inverno. “Para que a planta consiga completar o seu ciclo e faça uma boa emissão de brotação, tenha uma boa florada e, consequentemente, uma boa produção. Então, o frio não vai causar prejuízo nenhum para essas plantas. Muito pelo contrário, vai aumentar a soma térmica e será benéfico para a frutificação no próximo período vegetativo, ou seja, na primavera”, alega.

Cultivo e manejo das plantas no inverno
Os cuidados com as plantas abrangem um conjunto de práticas e conhecimentos essenciais para garantir o desenvolvimento saudável e produtivo de qualquer tipo de vegetal, desde pequenas hortaliças em vasos até grandes lavouras. “O principal objetivo do cultivo e manejo de plantas de cobertura de solo é conter a erosão, evitando que a água leve a camada fértil do solo. Por isso, fazemos o manejo de plantas de cobertura de solo e também as plantas de cobertura de solo contribuem para a maior infiltração de água da chuva e, com isso, aumentamos o nosso reservatório de água no solo, que depois no verão fica como reserva”, explica.

Controle de pragas
As temperaturas baixas, especialmente as geadas, atuam como um fator limitante para a sobrevivência de muitas espécies de insetos e patógenos que causam doenças nas plantas. “Às vezes, temos altas infestações de alguns tipos de insetos, das próprias cochonilhas, que são insetos sugadores de tronco das plantas, seja de pêssego, de ameixa, de videira, entre outros. O frio é benéfico para diminuir a população de insetos e até o controle natural de ervas daninhas no vinhedo”, aponta o especialista.

Usar materiais para proteger as plantas adianta?
Didoné explica que a utilização de materiais para cobrir as plantas no frio só funciona caso tenha geada. “Se fizer a cobertura, por exemplo, de folhagens com plástico ou algo que impeça que esse frio atinja diretamente a planta, haverá uma redução da possibilidade de geada nessas plantas”, conclui.