Instituições como o Hospital Tacchini e a Vinícola Aurora já adotam medidas como mapeamento de riscos, suporte psicológico e capacitação de gestores

A partir de maio, empresas que operam em território nacional deverão implementar medidas de prevenção e suporte à saúde mental dos trabalhadores, conforme determina a Norma Regulamentadora 1 (NR-1), aprovada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A atualização amplia o escopo do gerenciamento de riscos ocupacionais, exigindo que as empresas considerem fatores psicossociais que impactem o bem-estar dos colaboradores. Diante desse cenário, instituições como o Hospital Tacchini e a Cooperativa Vinícola Aurora intensificam suas iniciativas para garantir a conformidade com a nova norma.

Hospital Tacchini

Renato Conci, Coordenador do SESMT e Meio Ambiente do Tacchini Saúde

Renato Conci, Coordenador do SESMT e Meio Ambiente do Tacchini Saúde, explica que desde 2015, o hospital conta com um serviço de psicologia ocupacional que implantou um projeto de mapeamento de riscos psicossociais em setores específicos. Esse processo visa identificar e mitigar os riscos psicológicos no ambiente hospitalar de forma contínua. Para isso, gestores passam por treinamentos para compreender as particularidades dos riscos e atuar preventivamente.

Segundo Conci, o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT) também disponibiliza, desde 2015, atendimento psicoterápico gratuito para todos os colaboradores, podendo ser solicitado espontaneamente ou por indicação dos gestores. “É feito monitoramento contínuo de funcionários que apresentam atestados de cunho emocional. Também são abordados todos os funcionários que passam por algum incidente no trabalho”, afirma o coordenador.

Durante a pandemia foi realizada uma força tarefa para cuidar da saúde mental dos colaboradores, devido à alta demanda enfrentada no período. “Contamos com um perfil epidemiológico do nosso funcionário. Esse perfil permite monitorar em tempo real as características do nosso público interno e quais as necessidades mais eminentes a serem trabalhadas”, explica o coordenador.

Leiza Balbinot, gerente de RH do Tacchini Saúde

Leiza Balbinot, gerente de RH do Tacchini Saúde, explica que para medir a percepção dos colaboradores sobre o desempenho institucional, são realizadas pesquisas e feedbacks coletivos. “O retorno dos funcionários tem sido essencial para a evolução da organização, garantindo um ambiente de trabalho mais alinhado às necessidades e expectativas da equipe”, explica a gerente

Leiza explica que todos os profissionais têm livre acesso aos gestores, colegas e direção. O hospital também oferece canais formais de comunicação, como o Workplace e o Comitê de Ética do Trabalhador, permitindo que os colaboradores relatem preocupações de forma identificada ou anônima.

 Compromisso com um ambiente saudável

A Cooperativa Vinícola Aurora também está se preparando para as novas exigências da NR-1. Segundo Christiane Sleiffer, Supervisora de DHO, e Júlia Mattiello, Engenheira de Segurança, a empresa já realiza o gerenciamento de agentes físicos, químicos, biológicos, de acidentes e ergonômicos, e agora passará a identificar e mitigar riscos psicossociais, considerandos aspectos organizacionais e emocionais que impactem a saúde dos trabalhadores.

Christiane Sleiffer, Supervisora de DHO

Para isso, a equipe responsável pelas áreas de Pessoas, Saúde e Segurança do Trabalhador investe em estudos e formações para garantir a plena adequação às novas diretrizes. Embora diversas ações de prevenção já sejam implementadas na empresa, a atualização da norma exige uma formalização mais estruturada desse processo.

Os profissionais explicam que a empresa realizará avaliações contínuas dos riscos psicossociais percebidos pelos trabalhadores, estabelecendo estratégias eficazes de prevenção. Os relatórios detalhados e planos de ação serão incorporados ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) da cooperativa, reforçando o compromisso com um ambiente de trabalho seguro e saudável.

Como se preparar?

Celito Panizzi, responsável por uma empresa de medicina do trabalho, explica que para atender às novas exigências, as empresas devem revisar seus planos de segurança do trabalho e medicina ocupacional. A assessoria especializada pode auxiliar na identificação de riscos psicossociais e na elaboração de estratégias personalizadas para cada setor. Além disso, é necessário promover a troca de informações internas sobre o ambiente de trabalho para avaliar a gravidade desses riscos. “Vale ressaltar que cada empresa tem sua própria cultura, e, por isso, as estratégias de gestão de riscos devem ser personalizadas conforme as necessidades específicas de cada setor e função”, destaca.

Celito Panizzi, especialista em medicina do trabalho

Panizzi explica que os métodos de prevenção devem incluir treinamentos para gestores e equipes, capacitando-os para identificar sinais de estresse e burnout. Também é essencial haver políticas claras para combater o assédio moral e sexual. “Em termos de suporte, é recomendável criar canais de comunicação confidenciais para os funcionários poderem relatar dificuldades emocionais e psicológicas. A empresa também pode oferecer atendimento psicológico profissional para casos mais graves”, exemplifica o responsável.

Impacto na medicina do trabalho

Com a nova regulamentação, Panizzi explica que as consultas admissionais incluirão um pré-atendimento para identificar sinais de risco ou alerta relacionados à saúde mental. “Atualmente, o médico de segurança do trabalho pode realizar a anamnese psicossocial, o que já é eficaz, mas a empresa também pode optar por ter esse processo feito diretamente por um psicólogo”, explica.

 Esse processo já ocorre em algumas funções específicas, como trabalhos em altura, mas agora pode ser expandido para um número maior de cargos. “No Rio Grande do Sul, por exemplo, observamos um número significativo de afastamentos por doenças psicológicas. No entanto, é fundamental que os riscos sejam avaliados conforme as particularidades de cada setor”, exemplifica o responsável pela empresa.

A tendência é que cada vez mais empresas busquem assessorias especializadas em medicina do trabalho para se adaptar às novas exigências. Panizzi explica que algumas organizações já estão ajustadas à NR-1, tanto na parte de laudos de segurança quanto na medicina ocupacional. Com a maior divulgação da norma, a expectativa é que mais empresas adotem medidas preventivas, conforme a normativa, e promovam um ambiente de trabalho mais seguro e saudável.

Dificuldades até o momento

Panizzi destaca ainda a dificuldade de definir claramente qual é o limite entre a saúde mental do colaborador, pela qual a empresa tem responsabilidade, e as questões pessoais, como a vida particular, a criação e a rotina do colaborador. Para lidar com essa questão, tem sido fundamental um diálogo contínuo entre assessorias e a realização de cursos e workshops sobre o tema. “. A adaptação às novas normas não deve ser encarada apenas como uma obrigação legal, mas como uma excelente oportunidade de criar um ambiente de trabalho mais humano, produtivo e sustentável. Investir na saúde mental dos colaboradores é, sem dúvida, investir no sucesso da empresa a longo prazo,” finaliza Panizzi.