Denise Da Ré

O caso do CROCS

Denise Da Ré
Escrito por Denise Da Ré

Tomei conhecimento do Crocs numa postagem de um amigo virtual. Dizia ele que, depois de seis meses de uso como saboneteira, descobriu que o presente era um par de chinelos.

Realmente, não se trata da sandália mais linda do mundo, inclusive lembra a máscara de Jason, do filme Sexta-feira, 13, mas os pés agradecem, especialmente os dedos, que ficam navegando, sem pressões. Por isso adquiri um par e passei a usar cotidianamente, o que me permitiu liberar os calos e afins de uma tortura inútil. Desisti do tamanho ideal assim como as chinesas aboliram os pés-de-lótus.

Só para lembrar: Lá pelos séculos X e XI, as mulheres chinesas se submetiam a uma prática dolorosa para atingir o padrão de beleza da época – pés com, no máximo, 10 centímetros – que lhes proporcionava status e sensualidade e, em consequência, pretendentes. A coisa toda começava quando a menina atingia três anos de idade. Os dedos dos pés eram fraturados e dobrados em direção à sola, num formato côncavo, tipo um botão de lótus (flor aquática).

Essa ideia só pode ter nascido de uma cabeça machista doentia. É pior que filme de terror, visualizar tamanha crueldade em nome da “beleza” feminina… Se bem que, em outros tempos, também andei sufocando meus “pezitos” em formas menores – nada que se compare, obviamente – só meio número a menos, que acabou sendo um, porque, no Brasil, não existe o intermediário. Parece que só para exportação.

Atualmente, liberdade total. Aboli a escravidão dos pés: Crocs neles. Faço uso diário do chinelão que me dá conforto e estabilidade, sem ligar para piadinhas familiares nos almoços domingueiros.

Então dia desses aconteceu. Talvez por imprudência, talvez por falta de habilidade, ou por distração, por desrespeito às normas do trânsito ou por qualquer outro motivo, aconteceu: acidente com vítima. Nada fora do comum ou das estatísticas, mas sempre traumático. Depois dos primeiros atendimentos, o carro da polícia foi abrindo caminho, e o SAMU, logo atrás, em direção ao Hospital, com a porta traseira, curiosamente, semiaberta.

De repente, recebo um telefonema aflito, típico de mãe, só que dessa vez era de filho, me perguntando sobre meu paradeiro. Depois de convencido de que eu estava bem, obrigada, ele suspirou fundo e revelou:

-Ah, bom! É que vi um par de pés pra fora da ambulância e pensei que eram teus…

Achei aquilo engraçado. Por que suspeitara que os pés eram meus?

–Foi pela unha encravada do dedão, ou pela falta de unha do dedinho? – brinquei.

A resposta foi inesperada:

-Pelo Crocs.

Sobre o autor

Denise Da Ré

Denise Da Ré

Professora, escritora e colunista do Jornal Semanário.
denisedarebg@gmail.com
www.jornalsemanario.com.br

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