Economia Geral

Natal deve ser levemente mais gordo

Fábio Becker Loppe

Levantamentos apontam que as vendas devem aumentar em relação ao último ano, mas o consumidor está mais cauteloso

Seja pelo sentimento de partilha, pelas ceias natalinas e festas de réveillon, ou simplesmente pela injeção econômica do 13º salário, o fim de ano é tradicionalmente a época aguardada com mais otimismo pelo comércio. Pesquisas divulgadas por diferentes entidades apontam que neste dezembro não será diferente. No entanto, em contraponto as perspectivas de maiores vendas, a prudência dos consumidores assinala que os presentes já não estão em primeiro lugar na destinação dos gastos para o fim do ano.

Segundo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), aproximadamente R$53 bilhões devem ser injetados na economia neste Natal, sendo que 72% dos brasileiros pretendem presentear terceiros na data. De acordo com o levantamento local feito pela Câmara de Dirigentes Lojistas de Bento Gonçalves (CDL-BG), a Capital do Vinho deve seguir a mesma tendência. Os números apresentados mostram que 67% dos lojistas esperam crescimento nas vendas de final de ano.

Para o presidente da entidade, Marcos Carbone, o otimismo apresentado pelos comerciantes é resultado do trabalho do varejo em oferecer melhores serviços e resultados. “O comércio trabalha o ano todo na qualificação do atendimento, na oferta de um mix atrativo e em diversos diferenciais para fidelizar o cliente. Agora deve colher os frutos desse esforço”, pontua.

Otimista, mas não tanto

Pesquisa do CDL-BG revela que 67% dos lojistas esperam aumento de vendas

Divulgada há 10 dias, a “Pesquisa de Final de Ano 2018” do Fecomércio-RS demonstra que, apesar de um leve crescimento nos lucros do comércio, haverá uma cautela maior da população. De acordo com a entidade, é estimado um crescimento das vendas entre 3% e 4% quando comparado com a mesma época no ano passado.

Para o presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sindilojas) de Bento Gonçalves, Daniel Amadio, os dados são um alento para os lojistas, mas estão abaixo do que se projetava. “O crescimento é quase igual o do último ano. O incremento é menor do que esperávamos, mas mesmo não sendo expressivo, para quem vinha somando só decréscimo, creio que são números interessantes para um ano de retomada”, analisa. Segundo Amadio, as vendas de fim de ano, mais do que nunca, vem para proporcionar alívio aos lojistas. “É a melhor data, pois o pessoal desembolsa para presentear as pessoas e ainda tem a chegada do 13º salário. Acreditamos que as festividades de fim de ano possam dar uma melhorada no faturamento das empresas para fechar 2018 um pouco melhor que em relação a 2017”, espera.

Apesar dos leves números positivos apontados por diferentes índices, a insegurança quanto a economia e a prudência parecem estar bem presentes. Um exemplo disso está nas compras de fim de ano da atendente Isabel Cristina Rodrigues da Silva, que visitou as lojas do centro em busca de vestuário e brinquedos, destacando, porém, que pretende gastar menos que em outros anos. “São só cinco ou seis presentes, apenas para a família mesmo. Quero gastar uns R$400 em tudo, muito menos que no ano passado”, comenta.

 

Compras X Contas

Muito além do Natal e da virada serem datas de celebração e partilha que fazem o consumidor abrir o bolso, o 13º salário é outro fator que sempre auxilia a alavancar o varejo. De acordo com o levantamento da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Sul (FCDL-RS), sete em cada dez consumidores devem aproveitar o dinheiro extra na compra de presentes.

Concomitante, porém, ao desejo do consumidor de usar o 13º para as lembranças de Natal, o estudo do Fecomércio-RS aponta que os gaúchos estão mais cautelosos. Os dados apresentados pela entidade revelam que as compras de presente aparecem apenas como quarto destino para o salário extra. Entre os entrevistados, o pagamento de contas do mês fica em primeiro lugar (48,3%), a formação de poupança em segundo (34,3%), seguido do pagamento de contas em atraso (20,4%).

Para a economista e professora da UCS Maria Carolina Rosa Gullo, essa amostra de prudência é algo a ser comemorado. “É muito positivo quando as pessoas primeiro querem pagar suas dívidas e colocam inclusive a possibilidade de guardar dinheiro. Isso é ótimo para a economia como um todo, pois o comércio também perde quando a inadimplência aumenta. Por isso, se o consumidor planejar seus gastos de forma consciente, isso deve ser festejado”, exalta. Segundo a economista, o fato não deve alterar, contudo, a crescente nas compras de Natal. Ela pontua que a retomada econômica somada à renovação das promessas políticas no campo econômico refletem em uma sensação de positividade que deve fazer com que as pessoas não deixem de ir às compras.

Diante deste paradoxo criado entre presentear ou quitar dívidas, Maria assinala que o melhor conselho é o planejamento e que reservar mesmo que uma pequena parcela do 13º para a poupança é uma iniciativa de educação econômica muito importante. “O segredo é planejar. As pessoas têm que lembrar que mesmo com esse saldo extra, a época de fim de ano é complicada. Há o IPTU e o IPVA para pagar para quem tem imóvel ou carro, aquelas famílias que têm filhos também terão custos com material escolar e matrícula, enfim, é uma série de gastos comuns nesta época que podem comprometer o orçamento familiar, quando não há planejamento”, assinala.

 

Projeções positivas para o turismo

Roteiro Caminhos de Pedra recebe mais de 100 mil turistas ao ano

Ainda em setembro, Bento Gonçalves já havia atingido a marca de 1 milhão de turistas. O levantamento foi realizado pelas associações de turismo, rede hoteleira e Centro de Atendimento ao Turismo, junto aos empreendedores vinculados às rotas turísticas. O número, que comprova o potencial turístico da Capital do Vinho, deve aumentar ainda mais, uma vez que, de acordo com entidades e pessoas do ramo, a cidade deve atrair muitos visitantes para as festas de fim de ano.

Segundo a diretora executiva do Sindicato Empresarial da Gastronomia e Hotelaria da Região Uva e Vinho (SEGH), Márcia Ferronato, mesmo diante de uma situação econômica pouco favorável, já se assinala uma presença positiva de turistas. “Para o período do Natal e Réveillon já temos hotéis com 100% de ocupação e outros com poucas reservas, acreditamos que na próxima semana se intensifique a procura, já que muita gente reserva próximo a data da viagem”, projeta.

Eduardo Farina, coordenador de marketing de um dos hotéis da cidade, comenta que a lotação nesta época costuma ser boa e que neste ano a procura deve se manter semelhante a de 2017. “Nossa tradicional ceia de ano novo já está lotada, para a de Natal restam alguns lugares, mas deve lotar também, agora que abrimos para os moradores locais”, comenta.

A consolidação da procura de Bento como destino de turismo para o ano novo aqueceu também o número de oferta e procura por apartamentos e casas para temporada. Hoje, 298 propriedades estão para locação só no aplicativo Airbnb.

A esteticista Kely Carlet, que loca imóveis na plataforma desde 2015, é prova desse sucesso. Atualmente conta com cinco apartamentos para locação e afirma que todos estão reservados tanto para o Natal quanto para a virada. “O retorno é muito positivo, a cidade teve muito aumento de turismo e a procura por nossos apartamentos aumentou junto”, comemora.

Fotos: Fábio Becker

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