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Internação compulsória: “são as políticas públicas que nos mantêm vivos”

Elisa Kemmer
Escrito por Elisa Kemmer

Relato de um ex-dependente químico: a droga, ela não reparte o usuário com ninguém, é muito possessiva. Quando a gente está usando, não quer saber de ninguém. Eu não queria minha esposa, minha mãe, minha filha, só queria uma bucha de cocaína na minha mão. Quem diz isso é Igor Jacob Klering, 38 anos, que foi internado compulsoriamente, fato que acontece quando a família do dependente busca ajuda nos serviços públicos. Conheça a história de alguém que passou pelo tratamento e entenda como funciona a internação compulsória e o que mudou na lei.

O primeiro contato de Klering com substâncias psicoativas aconteceu ainda na infância. Aos 11 anos, ele começou cheirar cola, depois fez uso de outros inalantes, como benzina e rapé. Mas a sua “paixão” mesmo chegou aos 13 anos: a cocaína. Como a mãe trabalhava o dia todo e se ocupava com os afazeres da casa à noite, não notou a mudança de comportamento do filho, que, aos 15 anos, descobriu sua mistura perfeita: cocaína e bebida alcoólica. Ele atribui o fato de ter começado a usar drogas cedo ao meio onde vivia. “Morava no Conceição. Meu sistema social, o que tinha como cultura, para mim, era tráfico, roubo. As pessoas que conviviam comigo eram desse meio”, declara.

A mãe descobriu que ele estava utilizando essas substâncias quando o filho estava com 17 anos, pois uma amiga dela viu Klering ir até o traficante, porém ela não acreditou que ele era dependente químico. Um ano mais tarde, ele foi chamado para prestar serviço militar, o que não o impediu de consumir entorpecentes. Depois de nove meses, foi dispensado do exército devido ao problema. Como a inalação da cocaína fazia seu nariz escorrer, Klering começou a injetar a droga, potencializando ainda mais seus efeitos. “Aos 22 anos tinha uma namorada, que eu gostava muito, mas eu usava muita porcaria e ela não. A lembrança que tenho é de estar pendurado com uma mão só na ponte da Embrapa, dizendo que ia me jogar. Tenho flashes com essas imagens. Isso me deixou muito abalado, então decidi parar por conta. Aí encontrei apoio nos Alcoólicos Anônimos”, lembra.

Depois disso, foram seis anos “em pé”, como ele define. Nesse tempo, usou apenas maconha, tentando diminuir os danos, também se mudou e deixou os antigos amigos de lado. Conseguiu fazer faculdade, arrumou emprego, casou e teve uma filha. Porém depois recaiu e voltou para o vício por mais quatro anos. Foi então que sua família resolveu procurar ajuda no Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPSad). Através do serviço, ele foi encaminhado para internação hospitalar. “No primeiro momento, fiquei bem recluso. Eu não queria tratamento. Fiquei 15 dias no Tacchini, mas convenci o médico que eu estava bem e não precisava mais usar drogas”, relata Klering.

Mas esse período de internação compulsória não foi suficiente. “Quando descemos do ônibus, ali no Aparecida, onde estava residindo, dei a sacola de roupas para minha mãe e disse ‘vou ali no cara’ (o traficante) comprar maconha, para fazer redução de danos. Mas era mentira, eu estava me manipulando para usar cocaína”, analisa. Chegou o momento em que a família não conseguia mais dar suporte. “Minha esposa disse: ou você para ou eu vou embora e você nunca mais vai ver a nossa filha”, recorda.

Foi nesse momento que ele decidiu se internar na Comunidade Terapêutica Rural. “Fiquei seis meses, mas fui com a ideia de ficar só um mês, pois imaginava que a minha família iria esquecer. Eu estava devendo para quatro traficantes e um dono de bar. Acreditei que todos iriam esquecer de mim minha família iria me receber novamente de braços abertos e eu continuaria minha vida bem tranquilo”, relata.

Mas não foi isso que aconteceu, depois do primeiro mês, ele diz ter convertido a sua vida. Hoje faz cinco anos que está “de pé”, sem usar drogas e trabalha na Comunidade Terapêutica ajudando outras pessoas. “Agora entendo que a dependência é uma doença incurável. A qualquer momento pode haver uma recaída. Quando acordo, digo para mim mesmo: aconteça o que acontecer, hoje eu não vou usar drogas”, ressalta. Mesmo assim, as marcas da dependência ficam. Ele ainda lembra com detalhes a cor da carteira do homem que lhe deu a primeira dose de cocaína, a nota de um real que ele enrolou o canudo pra inalar o entorpecente, o cheiro do perfume que ele usava.

“Para quem tem dependência, o primeiro contato com a droga desperta o gatilho. Eu teria roubado, me prostituido, faria qualquer coisa para conseguir a droga. Eu não respirava sem a cocaína, não conseguia nem levantar da minha cama sem uma dose”, lembra. Para manter o vício, ele passou a traficar. Mas, com o tempo, não conseguiu mais, não saia de casa, pois tinha alucinações, achava que alguém queria matá-lo.

O fato de estar vivo, ele atribui ao CAPSad e às políticas públicas de combate às drogas. Sem elas, ele não acredita que teria sido possível fazer o tratamento. “Quando levamos esse choque, que somos tirados do meio e internados, nos convertemos. É uma nova filosofia de vida, na entrada da Comunidade Terapêutica tem uma frase de Platão que é fantástica, ela diz que a maior conquista do ser humano é uma conquista de si próprio. Temos que nos redescobrir”, finaliza.

“Intervenção hospitalar é o último recurso”

No CAPSad, quando a família busca ajuda contra a vontade do paciente, é dado início ao processo para encaminhamento judicial para tratamento do dependente. A assistente social do Centro, Cristiane Ferronato, diz que nesses casos se trabalha muito com a família, para que ela possa dar suporte. Mas nem todas as situações se tornam internação. O paciente é avaliado por um psiquiatra, que analisa individualmente. De setembro a dezembro de 2018, 11 pedidos de intervenção foram encaminhados pelo CAPSad. No primeiro semestre desse ano, foram oito casos, mas dois ficaram em tratamento ambulatorial, sendo acompanhados por profissionais do Centro, e não precisaram de internação hospitalar.

A coordenadora do CAPSad, Juliana Carvalho, ressalta que a internação acontece somente quando se esgotaram todos os recursos, que se observa que o paciente não vai aderir a nenhum outro tipo de tratamento e sua vida está em risco. “A gente pensa muito no vínculo que esse paciente precisa criar com o serviço. É um tratamento para a vida toda. A internação funciona para fazer desintoxicação, tirar o paciente do ambiente de risco, mas não define cura, é o início de algo e não a salvação” alerta.

Mudança na Lei

O governo federal sancionou a Lei 13.840, que autoriza a internação compulsória de dependentes químicos sem a necessidade de autorização judicial. Antes, para realizar a intervenção, a família precisava de autorização de um juiz. A norma diz ainda que a internação deverá ser feita em unidades de saúde e hospitais gerais, com aval de um médico e prazo máximo de 90 dias. Para tratamento em comunidades terapêuticas, o paciente deve aderir ao tratamento de forma voluntária.

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