Denise Da Ré

Então é Natal… de novo

Que o Natal proporciona o (re)encontro, o renascimento, a união, a comunhão, a solidariedade, a partilha, o despertar de bons sentimentos – que geralmente duram até a virada do ano – e boas ações que minimizam as desigualdades, tudo isso já foi propagado, ratificado e impresso. Que tal um outro olhar?

Primeiramente é preciso esclarecer uma situação que confunde a cabeça dos pequenos. Jesus não é Papai Noel, esta figura bonachona e barbuda que, em 1931, ganhou roupa vermelha, criada pela empresa de refrigerantes Coca-Cola e que, depois de tantas campanhas publicitárias, virou padrão. Eu sei que o “bom velhinho” fez e continua fazendo a alegria de muitas crianças, mas nem por isso ele deixa de ser injusto ao dar presentes a quem tem bens, independentemente do fazer o bem. Imaginem a mágoa das crianças pobres esquecidas pelo seu ídolo mágico! E a dor dos pais por não poderem proporcionar aos seus filhos um Natal generoso. “Vinde a mim as criancinhas” deveria ter mais significado do que “Ho, Ho, Ho”.

Feito isso, e sem qualquer recato, vamos às considerações práticas. O que a maioria de nós mais ganha, nesta época, é peso e o que mais perde é dinheiro. Os panettones e chocottones, nas prateleiras, um mês antes do Natal, ficam se oferecendo despudoramente aos clientes dos mercados. Mortais comuns até tentam desviar os olhos, mas aí dão de cara com chocolates que aliciam, com suas centenas de calorias disfarçadas em roupagens coloridas e sedutoras. E – observem a tática – a resistência até pode durar uns quinze ou vinte dias, mas dois meses ininterruptos? É muito assédio! O que barra um pouco essa loucura doce é o preço salgado. Tudo está nas alturas – e olha que nem tem inflação! Os perus e aquelas frutinhas exóticas que servem de guarda-costas nas travessas, também custam os olhos da cara.

Tem mais: ceia que se preza precisa ser temática, com bolas, velas, pinhas, laços e fitas… Sem falar nos amigos secretos – da família, do trabalho, do grupo de amigos… Haja dinheiro pra bancar tanta comemoração! Conheço uma categoria profissional que vai gastar até os centavinhos da última parcela do décimo terceiro do ano passado e a primeira deste ano só para as preliminares das festas natalinas. É mole?

Por outro lado, o comércio agradece. Para que a roda da economia gire e gere renda, o consumo é fundamental.

Afinal, isso significa aumento do PIB – Propina Interna Bruta, e todo mundo precisa colaborar, ou não serão reabastecidos os paraísos fiscais.

E aquela música “Então é Natal”, tem algo mais down? Ela é bonita, coisa e tal, mas depois de repetida um milhão de vezes pela Simone, não há ouvido que aguente. Sem contar que a versão brasileira de Happy Christmas chega também através de Sérgio Reis, Pe. Marcelo Rossi, Vítor e Leo, Roupa Nova e até de Luan Santana… John Lennon deve estar se revirando no túmulo.

Mas, vá que ainda acreditemos na possibilidade de uma festa natalina com significado… Bom, aí teremos de dar significado a ela! Algo que vá além das compras, dos presentes, dos parentes, das ceias, dos brindes, do arrependimento, do cansaço, do desperdício, do estresse, da melancolia… Há tanta coisa que pode ser feita! Mas o mais importante é começar dentro da gente. Aí, sim, então é Natal.

Sobre o autor

Denise Da Ré

Denise Da Ré

Professora, escritora e colunista do Jornal Semanário.
denisedarebg@gmail.com
www.jornalsemanario.com.br

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