O setor vitivinícola de Bento Gonçalves e região inicia a colheita da safra de uvas com uma perspectiva de aumento no volume produzido, mas sob o alerta de instabilidades climáticas que interferem na qualidade final do fruto e na remuneração direta ao produtor
Após um ciclo de desenvolvimento considerado normal, a expectativa de produção para a uva destinada à indústria supera os números registrados no ano anterior. O Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis) trabalha com dados que indicam uma colheita entre 5% e 10% maior que a de 2025, podendo ultrapassar a marca dos 800 milhões de quilos de uva processada.
Luciano Rebellatto, presidente do Consevitis, explica que o desenvolvimento das videiras transcorre dentro da normalidade desde o inverno, que registra horas de frio adequadas. Segundo ele, o período de setembro a janeiro apresenta condições tranquilas, o que garante uvas com boa sanidade e expectativa positiva para a maturação plena. Embora a primeira quinzena de janeiro apresente episódios de chuva, o presidente ressalta que não há registros de grandes impactos até o momento. As variedades colhidas nesta fase inicial apresentam resultados satisfatórios, superando as estimativas iniciais de volume.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal também mantém otimismo quanto a previsão, e indica uma elevação de 10% a 15% no total colhido em relação ao ciclo anterior. Entretanto, o ganho real das famílias rurais permanece incerto devido ao excesso de umidade registrado nas últimas semanas. O atual cenário revela um atraso médio de 15 dias no cronograma de colheita comparado aos anos anteriores, fator que exige atenção quanto à sanidade dos parreirais e ao ponto de maturação das variedades.
Postal observa que, embora o volume seja superior, as condições meteorológicas adversas desde a metade de dezembro impactam diretamente a composição química da uva. “Só não se sabe ainda se o ganho real do produtor vai ser o mesmo, porque estamos tendo problema com o clima, excesso de chuva. Então a graduação vai ser menor, menos teor de açúcar e a remuneração, por consequência, é menor”, explica. Essa redução no grau Brix, medida que determina a concentração de açúcar, é uma preocupação central, pois é este índice que define o valor pago pelas indústrias aos viticultores.
Para Rebellatto, no âmbito econômico e político, o aumento da safra em 2026 deve refletir na estabilização dos preços. Com o valor mínimo da uva Isabel fixado em R$1,80 por quilo, a regulação do valor pago ao produtor ocorre pela lei da oferta e da procura. Rebellatto lembra que nos últimos dois anos a baixa produção elevou os preços acima do mínimo, mas para este ano o cenário é de regularidade. “O setor não está tão otimista com um incremento de valores para a matéria-prima, mas sim com o aumento de produção. O ganho poderá vir através desse acréscimo de volume e não pela valorização excessiva do produto”, explica. Esse incremento na quantidade colhida permite que o produtor invista em modernização tecnológica e que a indústria aprimore a qualidade final dos derivados que chegam ao mercado.
Condições climáticas
A análise do ciclo produtivo demonstra um contraste rigoroso entre as estações. O inverno e o início da primavera apresentaram condições consideradas excelentes pelo setor, com um acúmulo de horas de frio necessário para a dormência das plantas e chuvas dentro da normalidade, o que garante, inicialmente, uma sanidade elevada aos vinhedos. Contudo, a intensificação das precipitações no final do ano altera o prognóstico. Postal pontua que o processo de chuva constante resulta em muita água nos cachos, o que diminui o açúcar e compromete o aproveitamento industrial para determinadas linhas de produtos.

Para as variedades precoces, como a Chardonnay destinada à elaboração de espumantes, a colheita ocorre dentro dos parâmetros ideais de acidez e frescor. Rebellatto pontua que a uva para suco também apresenta maturação dentro do esperado. “Aguardamos o sol e que a previsão para fevereiro seja de chuvas abaixo do normal, o que é muito positivo para o setor, pois faz com que as uvas amadureçam com maior concentração de açúcar e sabor”, analisa o presidente. De acordo com Rebellatto, a evolução tecnológica no campo permite que os impactos climáticos sejam menos sentidos do que em décadas passadas, garantindo a entrega de bons produtos ao consumidor em um curto espaço de tempo.
O comportamento das variedades tardias, como a Cabernet Sauvignon, depende da incidência solar no mês de março. Rebellatto observa que as uvas tintas mais encorpadas possuem uma influência muito direta do clima de final de ciclo, mas mantém o otimismo baseado no cenário atual. Ele reforça que cada safra imprime características únicas ao vinho, respeitando as particularidades de cada região e Denominação de Origem (DO). No entendimento do presidente, a diversidade de terroirs no Brasil elimina a existência de produtos com defeitos técnicos, oferecendo, em vez disso, vinhos com perfis sensoriais distintos conforme sua origem geográfica.
Além da questão qualitativa, o excesso de chuva causa danos estruturais severos em propriedades da região segundo Postal. O peso excessivo da vegetação e dos frutos, somado ao solo encharcado, provoca a queda de parreirais. Estima-se que entre 40 e 45 hectares de áreas produtivas na região de abrangência do sindicato sofram perdas totais ou parciais por este motivo. Esse fenômeno gera um prejuízo que ultrapassa o ciclo atual, pois danifica a estrutura física e exige a reposição de plantas, o que compromete a produtividade de safras futuras. Sobre a ocorrência de granizo, Postal relata que as perdas são pontuais e atingem regiões específicas, como o município de Monte Belo do Sul, sem causar um impacto percentual significativo no volume global da safra.
Falta de safristas

A gestão da mão de obra configura-se como outro desafio estrutural para a viticultura contemporânea. A dificuldade de encontrar trabalhadores para o período de colheita é acentuada pelo envelhecimento da população rural e pela redução do tamanho das famílias, que dispõem de menos membros para o trabalho braçal. A questão é agravada por entraves burocráticos na formalização dos contratos. Segundo Postal, há uma resistência por parte dos safristas em registrar a carteira de trabalho e inserir dados no sistema e-Social, motivada pelo receio de perder benefícios sociais ou por questões relacionadas à manutenção da condição de segurado especial junto à previdência. Para suprir essa lacuna, o setor registra um fluxo crescente de trabalhadores estrangeiros, com destaque para a vinda de argentinos que atuam temporariamente nas propriedades locais.
Uvas em destaque

No que tange à composição das variedades cultivadas, Postal explica que o panorama regional mantém a predominância de uvas destinadas à elaboração de sucos e vinhos de mesa. A variedade Isabel permanece como a mais produzida, seguida pela Bordeaux. Atualmente, cerca de 50% da produção total de uva é destinada exclusivamente à fabricação de suco, mercado que sustenta boa parte da economia rural de Bento Gonçalves. As variedades comuns e as linhagens BRS, desenvolvidas por programas de pesquisa, também ocupam espaço relevante na destinação para sucos e vinhos de mesa. Já as uvas finas, conhecidas como vitis viníferas, representam entre 10% e 12% do volume total, sendo essenciais para a produção de vinhos finos e como base para a elaboração de espumantes, produto que mantém o prestígio da região.
Em relação ao mercado, Rebellatto identifica mudanças no perfil do consumidor brasileiro. Pesquisas realizadas pelo Consevitis em parceria com o Sebrae mostram uma procura crescente por produtos com menor teor alcoólico, desalcoolizados, vinhos brancos e moscatéis. Esse movimento é impulsionado principalmente pelo público jovem e pelas mulheres, que buscam bebidas mais leves e de fácil consumo. Apesar dessa tendência de modernização, o vinho tinto suave de mesa continua a deter o maior volume de vendas no país. Rebellatto cita como exemplo a preferência nacional por vinhos com maior dulçor, característica que também explica a aceitação de rótulos importados de países vizinhos que possuem legislação distinta sobre o teor de açúcar.
Sobre a geografia da produção, a Serra Gaúcha permanece como o centro produtivo do país, concentrando cerca de 90% da vitivinicultura nacional. Embora novas regiões surjam com força, como os vinhos de dupla poda no Sudeste e Centro-Oeste e a produção contínua no Nordeste, a infraestrutura industrial está consolidada em solo gaúcho. Rebellatto destaca que empresas de grande porte, como as concentradoras de suco que processam cerca de 20% da produção estadual, estão estabelecidas em Bento Gonçalves, o que mantém a região como o núcleo do setor.
A expansão de novas áreas de cultivo encontra barreiras geográficas, legais e urbanas. Postal indica que a área total de produção se mantém estável, sem grandes avanços territoriais. Os motivos para essa estagnação incluem o rigor das legislações ambientais para a supressão de vegetação, a topografia acidentada característica da Serra Gaúcha e o avanço contínuo das áreas urbanas sobre o cinturão agrícola. Diante dessa impossibilidade de crescimento horizontal, a estratégia dos produtores concentra-se na renovação constante dos parreirais existentes. Quando os vinhedos atingem o declínio produtivo, são substituídos por novas mudas, seja da mesma variedade ou por novas opções que apresentem melhor desempenho técnico ou comercial, garantindo a viabilidade econômica das propriedades a longo prazo.
A análise dos números da safra varia conforme a base de dados utilizada. Rebellatto esclarece que, ao observar apenas a uva processada pela indústria, o montante deve ultrapassar os 800 milhões de quilos, superando os cerca de 770 milhões de 2025. Ao considerar o Cadastro Vitícola, que inclui a uva comercializada in natura em supermercados, a marca pode atingir 900 milhões de quilos. Já os dados do IBGE, que englobam a produção informal e trocas diretas entre produtores, sugerem um volume ainda maior, aproximando-se de 950 milhões de quilos em 2026. Para o planejamento setorial, o Consevitis foca no volume industrial.