A colheita da uva em Bento Gonçalves e na Serra Gaúcha registra, nos últimos anos, uma transformação significativa no perfil da mão de obra utilizada nas propriedades rurais
A presença de imigrantes estrangeiros deixa de ser um fenômeno sazonal isolado para se consolidar como a base de sustentação da safra. Entre as nacionalidades que buscam trabalho na região, os argentinos representam o maior percentual, embora o fluxo envolva trabalhadores de diversas origens que se deslocam para atender não apenas a viticultura, mas também as culturas da maçã, da erva-mate, da batata e do tomate.
O Sindicato Rural da Serra Gaúcha observa que a presença de imigrantes, embora liderada por argentinos, já abrange paraguaios, bolivianos e outras etnias que ocupam postos de trabalho não apenas na colheita da uva e do pêssego, mas também em redes de supermercados, indústrias e no setor de serviços.
Para o presidente do Sindicato, Elson Schneider, entre os motivos de atração para esse contingente estão a valorização salarial e a perspectiva de estabilidade que a região oferece em comparação às localidades de origem. “O principal fator são questões de valores propiciados pela nossa região. Os estrangeiros, têm um salário melhor do que no país de origem deles. Então é a questão salarial e oportunidade futura de trabalho, e também estabilidade familiar”, pontua.
O impacto dessa migração é classificado pela entidade como positivo, servindo de resposta direta à crise de sucessão familiar e à escassez de mão de obra brasileira no campo. Com a migração de jovens da área rural para os centros urbanos e a redução do tamanho das famílias, as propriedades enfrentam dificuldades crescentes para suprir a demanda operacional necessária para o aumento da produção. Segundo Schneider, o mercado de trabalho local encontra nesses imigrantes uma oportunidade de fixar novos colaboradores que garantem o dinamismo econômico e social da região.

Acolhida aos novos trabalhadores
Para assegurar que essa transição ocorra dentro dos parâmetros legais, o sindicato estruturou uma equipe profissional dedicada ao suporte administrativo tanto de produtores quanto de trabalhadores. O auxílio abrange desde o custeio de passagens e registros de CPF até a realização de exames médicos e segurança social. Um dos diferenciais dessa atuação é a contratação, pela própria entidade, de uma profissional argentina e o suporte jurídico em países vizinhos para facilitar o processo de residência dos estrangeiros, amparado pelas normas do Mercado Comum do Sul (Mercosul).
A regularização documental é vista como o principal mecanismo de segurança para a propriedade rural. “Eu sempre cito muitas vezes que o problema não é o Ministério do Trabalho, mas sim o acidente de trabalho, processos judiciais, pessoas que vêm até a propriedade que desconhecemos. Então, o formato de segurança da propriedade é mediante registro de carteira assinada, que é a CLT”, explica Schneider.
O diálogo com vinícolas, cooperativas e empresas terceirizadas também é uma prioridade na agenda da entidade. O objetivo é garantir que todas as etapas da contratação sigam rigorosamente a legislação vigente. Para estreitar esses laços diplomáticos e técnicos, o sindicato promove, inclusive, visitas de representantes consulares às propriedades da região. “Nos próximos dias estará presente conosco aqui o Cônsul argentino, a convite do próprio sindicato, visitando propriedades e cooperativas para podermos estreitar essa relação e esclarecer sobre o funcionamento da safra, como estamos atuando em nossa região para dar o suporte a todos esses trabalhadores e amparando todos os empregadores”, revela o presidente. A estratégia da entidade busca desmistificar a contratação de estrangeiros e transformar o suporte linguístico e documental em uma ferramenta de inclusão.
Suporte técnico: CPF e nota eletrônica no WhatsApp
No Sindicato, a rotina é intensa para garantir que o produtor não fique na ilegalidade. Eduarda Fiotini e Laura Blanco lideram a recepção e a regularização documental. O trabalho envolve desde a emissão de CPFs para os argentinos até o suporte em RH, com folhas de pagamento e contratos enviados diretamente pelo WhatsApp. “A demanda está altíssima todos os dias. Chegava a ter dias que eu vinha às 6 horas da manhã”, conta Eduarda.
Paralelamente, a transição para a Nota Fiscal Produtor Eletrônica (NFP-e) também avança. Gabrieli Brino, responsável pelo setor, explica que a adesão tem sido calma, em parte porque algumas cantinas ainda aceitam o talão de papel. “Talvez na safra que vem seja um pouco mais puxado, mas agora, como ainda tem o talão, está bem fácil”, projeta, destacando que capacitações realizadas pelo sindicato e por vinícolas como a Aurora têm preparado o produtor para a digitalização total do campo.

Auxílio ao produtor
A dificuldade em encontrar trabalhadores brasileiros dispostos a atuar na colheita transformou o perfil das propriedades em Garibaldi e Bento Gonçalves. Para o produtor Cristiano Brigolini, de Garibaldi, a transição para a mão de obra argentina, que já chega ao terceiro ano, foi uma necessidade de sobrevivência do negócio. Ele observa que o trabalhador vizinho é atraído pela remuneração e pela natureza do serviço, que curiosamente consideram leve. “A questão dos argentinos é que eles são acostumados a trabalhar com a erva, então é um serviço pesado. A uva se torna um serviço mais leve porque lá eles trabalham expostos ao tempo, no sol, e aqui na uva é um trabalho na sombra, e que não tem muito segredo”, explica Brigolini. O produtor também destaca a importância de oferecer uma estrutura completa, incluindo todas as refeições e lavagem de roupas pessoais, para que o safrista foque exclusivamente na colheita e o fruto seja recolhido com agilidade, permitindo que no tempo livre os trabalhadores possam descansar.
Logística e o impasse do alojamento feminino
Embora o desempenho das mulheres na colheita seja elogiado pelos produtores, principalmente pelo cuidado com a uva, a logística de infraestrutura impõe restrições. Tanto Brigolini quanto Gustavo Minozzo, do distrito de Tuiuty, apontam que a necessidade de alojamentos e banheiros separados torna a contratação mista inviável para pequenas propriedades. “Não é por preconceito, é por questão de logística. Teríamos que refazer tudo num espaço, é investimento que não dispomos no momento”, afirma Brigolini, reforçando que, na realidade do agricultor familiar, as adaptações para garantir a privacidade feminina são complexas para um período temporário.
Gustavo Minozzo relata que a resistência dos brasileiros em trabalhar na safra está diretamente ligada ao medo de perder benefícios sociais. “Tive muito problema com Bolsa Família. Quando você fala em contratação formal, eles pulam fora, por terem receio de perder o benefício”, lamenta o produtor de Tuiuty. Diante desse cenário, a perspectiva para o futuro é pragmática: “Enquanto tiver trabalhadores argentinos, a gente vai aproveitar. A partir do momento em que terminar, teremos que optar pela máquina, porque acho que voltar a ter mão de obra aqui no Brasil vai ser difícil”, reflete com pesar.
Fiscalização e orientação
Um ponto de alívio para os produtores nesta safra tem sido a postura do Ministério do Trabalho. Após os escândalos envolvendo empresas terceirizadas em anos anteriores, os agricultores que optaram pela contratação direta e formalizada via sindicato relatam visitas fiscais mais compreensíveis. “Eles veem que não é uma empresa. E que exigir de um agricultor familiar a mesma coisa que se exige de uma Tramontina, por exemplo, como manter todo mundo com o calçado fornecido, não tem lógica. No dia da visita, tinha um rapaz que havia tirado a botina que fornecemos para os trabalhadores, e por algum motivo ele decidiu ir de tênis”, conta Brigolini. Segundo ele, os fiscais têm focado na orientação: “Eles foram super compreensivos, afinal sou só eu para fiscalizar a colheita e não consigo olhar todos os safristas ao mesmo tempo. Não tinha visto que ele havia tirado a botina. Os fiscais orientaram o rapaz, ressaltaram para mim a importância do equipamento adequado e tudo certo. Agora sempre reforço com os trabalhadores que precisam estar com o equipamento completo antes deles saírem de manhã”, reflete sobre um caso recente.

Integração e desafios
A trajetória de Yakeline Rocio Senger exemplifica a nova realidade do mercado de trabalho na Serra Gaúcha, onde a imigração argentina deixa de ser apenas sazonal para se tornar um projeto de vida. Natural de San Vicente, na província de Misiones, Yakeline reside em Bento Gonçalves há um ano e três meses. Sua jornada na região iniciou na linha de frente da viticultura e, atualmente, ela atua no atendimento comercial e receptivo turístico da Vinícola Cainelli.
O fluxo migratório, segundo Yakeline, é uma resposta direta à instabilidade financeira no país vizinho. “Claramente o econômico não está muito legal. Dessa forma, para buscarmos mais recursos para uma vida mais tranquila, nós, lamentavelmente, temos que sair”, explica. Diferente de muitos compatriotas que chegam sem rede de apoio, ela contou com o suporte de familiares, mas observa uma evolução na logística de recepção dos safristas. “Hoje em dia já tem os ônibus, as vans que vão e buscam. Eles já não vêm com uma mão na frente e outra atrás, sem saber onde vão dormir ou com aquele medo”, pontua.
A imersão na cultura do vinho foi um processo de aprendizado prático e curiosidade pessoal. “Como todo argentino que se respeita, o amor pelo vinho é notável. Eu nunca tive contato direto com a produção, tudo o que sei hoje é de forma empírica, lendo e perguntando para o nosso enólogo para ter uma base sólida”, afirma. Durante oito meses, ela trabalhou diretamente na produção, onde adquiriu conhecimento técnico sobre desengasse, prensagem e transferência de tanques. “As pessoas veem a garrafa ali, mas não sabem todo o processo. Hoje, posso passar todo esse conhecimento para quem visita a loja e o turismo”, destaca.
Apesar da rápida adaptação às funções laborais, Yakeline enfrenta, assim como outros imigrantes, a morosidade do Estado brasileiro na regularização documental. A obtenção da residência permanente é descrita como um processo exaustivo, que pode durar mais de um ano devido ao gargalo de agendamentos na Polícia Federal. Sem o Registro Nacional de Estrangeiro (RNE), o imigrante vive em um estado de “menoridade” civil. “Sem o CPF é como se você fosse um menor de idade; você tem que depender de outra pessoa para ter benefícios básicos, como alugar um apartamento ou abrir conta em banco”, relata.
A burocracia institucional impacta diretamente a segurança social, uma vez que a digitalização de sistemas como o FGTS exige documentação regularizada para o acesso a direitos trabalhistas. Para Yakeline, a falta de agilidade governamental é um dos principais riscos para a manutenção da legalidade. “A legislação faz com que as pessoas fiquem clandestinas, porque elas não conseguem vencer os prazos. Tem pessoas que vêm com filhos pequenos e é essencial ter acesso à saúde, mas sem o documento tudo fica mais difícil e demorado. Sem dinheiro, acabam aceitando empregos informais e moradias precárias, que não exigem contrato com imobiliária”, alerta.
Mesmo diante dos entraves, o sentimento é de gratidão pela acolhida na comunidade de Bento Gonçalves. Adaptada aos “bailões” e aos costumes que assemelham a Serra Gaúcha à sua fronteira natal, Yakeline reforça o compromisso de honrar a oportunidade recebida.
Experiências e perspectivas
Apesar das barreiras institucionais, a experiência de Yakeline no cotidiano de Bento Gonçalves é de integração. Adaptada rapidamente ao clima e à cultura local, que ela descreve como familiar devido à proximidade da fronteira com costumes brasileiros, “A gente é muito bem acolhido aqui. É um lugar muito bom para se trabalhar, para viver, para ter lazer”, afirma, reforçando o desejo de permanecer no Brasil.
Para ela, a mensagem aos compatriotas é de lealdade e respeito ao país que os acolhe: “Sempre respeitando e honrando o país onde estão agora, que no caso é o Brasil. Honrando e respeitando as pessoas que abriram as portas para a gente com confiança”, finaliza.