Conhecida nacionalmente como a Terra da Longevidade, o município vem consolidando uma política que integra patrimônio, arte, turismo e participação comunitária.

A museóloga Giovana Veiga, do Museu Municipal, explica que a preservação da memória começa ainda na escola. Projetos como “Pulando Janelas” e “Minha Cidade, Minha História” aproximam crianças e jovens da história local por meio de aulas práticas, passeios e atividades que estimulam o pertencimento. “Tem como objetivo ir além da sala de aula, provocando inovação e apropriação da realidade de maneira criativa e dando uma nova dinâmica às aulas, com o intuito de buscar a qualificação, capacitação e sensibilização para a preservação e a valorização do patrimônio cultural, natural, artístico e afetivo das comunidades envolvidas, além de fortalecer o desenvolvimento sustentável da atividade turística em nosso município. Ademais, o segundo projeto promove aulas teóricas e práticas que abarcam a história e geografia do município, a fim de sensibilizar e capacitar os alunos sobre seu potencial turístico, através da valorização do patrimônio histórico-cultural”, afirma.

Outra ação feita é a distribuição do livro infantojuvenil “Era uma vez em Veranópolis”, escrito por Léia Cassol, que apresenta a história, a cultura e a memória do município de forma lúdica e acessível. Além disso, há visitas guiadas que o Museu Municipal oferece para as escolas de ensino fundamental e médio.

Pórtico da antiga entrada

Símbolos que contam a formação da cidade

Entre os principais bens tombados, a Casa Saretta, único patrimônio tombado pelo Estado, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (IPHAE), é um dos mais visitados. Construída em estilo chalé, com lambrequins e telhas de madeira “scandole”, típicas da arquitetura de imigração italiana e polonesa, ela já abrigou residência, coletoria federal e serviços postais. Hoje, funciona como a Loja do Artesão, onde são comercializados produtos artesanais locais e regionais.

Já a Casa da Cultura Frei Rovílio Costa, tombada a nível municipal, abriga o Museu Municipal (MUMVER) e o Centro de Atenção ao Turista, funcionando como um local de memória e de manifestações artísticas, já que também se tornou a Casa da Cultura. O prédio foi sede da Sociedade Alfredochavense, que promovia a seus associados ações e eventos de caráter social e cultural.

Outros marcos importantes incluem o Portal Monumento, homenagem aos 125 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul (inaugurado em 2000, a figura representada é composta por três gerações de imigrantes italianos, e do lado oposto, a maçã que simboliza seu pioneirismo no plantio da fruta no Brasil, sendo o marco da entrada da cidade), e os Arcos de Acesso, que foram erguidos ao Sul e ao Norte da principal avenida, visto que demarcavam os limites da cidade na década de 1950. “A distância entre os dois é de 1.100m, a medida de extensão das primeiras colônias italianas. Nos arcos há as inscrições “Bem-vindo amigo” e “Feliz viagem amigo”. Com a ampliação da cidade e ocupação dos espaços urbanos, não estão mais demarcando os limites da cidade, mas se encontram na região central e simbolizam a prosperidade e longevidade dos veranenses”, destaca a museóloga.

Monumento em homenagem aos imigrantes

Completa a lista o Castelinho da extinta Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), tombado pelo município e mantido pelo Estado.

Sabores, saberes e modos de vida

Na legislação municipal há a previsão do reconhecimento de patrimônios imateriais do município, porém ainda não possui registro. “Visto isso, atualmente estamos com um projeto em andamento que tem como objetivo compreender o ofício das doceiras de Monte Bérico e Lajeadinho, relacionado à produção de doces de maçã, principalmente a torta. Dessa forma, será realizada uma pesquisa histórica científica abarcando a origem e os saberes envolvidos na produção dessa iguaria, por meio de registros históricos e depoimentos de moradores e produtores locais. Este projeto, permite compreender o valor simbólico da torta de maçã para Veranópolis e avaliar sua relevância enquanto patrimônio cultural imaterial do município”, ressalta Giovana.

Preservação

O acervo do Museu Municipal de Veranópolis é um dos mais expressivos da região. São mais de 2 mil itens tridimensionais, que retratam a vida no campo, o cotidiano doméstico, os inventos industriais, os equipamentos de trabalho, a vida religiosa, os costumes dos imigrantes, dentre outras temáticas. Soma-se a isso a coleção proveniente do acervo do fotógrafo Elígio Parise, que segundo Giovana, é um expoente na região, visto que seus mais de 13 mil itens ilustram a cultura, os modos de vida, as transformações urbanas e rurais do município e região. “O museu, assim como os demais equipamentos culturais da cidade, possui a responsabilidade em salvaguardar as diversas memórias que compõem a trajetória do município. Dessa forma, a instituição elabora exposições de curta duração com temáticas que trabalham diferentes olhares sobre a região, além de palestras, eventos e visitas guiadas com os visitantes espontâneos e os grupos agendados”, explica Giovana.

Novos espaços culturais e ampliação das atividades

Segundo ela, a administração municipal vem modernizando os centros culturais, ampliando programações e diversificando os espaços de convivência. A Casa da Cultura e o MUMVER passam por melhorias de infraestrutura, enquanto o Espaço de Cultura e Arte de Veranópolis (ECAVE) oferece suporte a grupos e entidades culturais locais.

Além disso, programações ao ar livre e parcerias com escolas e entidades ampliam o acesso da população às atividades culturais e fortalecem o vínculo entre cultura e turismo. Além disso, há a ampliação das programações culturais em praças e espaços comunitários, transformando esses locais em pontos de encontro e convivência da população, como afirma a museóloga. “Ainda, contamos com a integração entre cultura e turismo, com eventos que valorizam o patrimônio histórico, artístico e natural do município. A gestão também estimula a democratização do acesso e o fortalecimento da identidade cultural”, evidencia.

De acordo com Gisele Martins, do setor de turismo, Veranópolis se destaca pela variedade de atrativos ligados à natureza, à história e à espiritualidade. O turismo cultural, reforçado pelos patrimônios tombados e pelos museus, recebe milhares de visitantes anualmente.

Casa Saretta é um dos pontos mais visitados

A longevidade, marca registrada do município desde os estudos iniciados nos anos 1990, integra políticas públicas de saúde preventiva, estímulo à atividade física, alimentação saudável e bem-estar comunitário. Essa característica tornou-se também um produto turístico e identitário, presente no Natal da Longevidade, em roteiros temáticos e na comunicação institucional. A expectativa de vida é de aproximadamente 75,3 anos, de acordo com dados de 2010 da Fundação de Economia e Estatística.

Incentivo à arte

O município também investe no fortalecimento da produção artística local. Programas como o Momento Cultural, visam promover e difundir a cultura em suas diversas formas, como música, dança, teatro, literatura, artes visuais, entre outras, realizando diversos eventos durante o ano. O programa busca abrir espaço para artistas locais e regionais, oferecendo oportunidades de visibilidade, formação de público e integração da comunidade por meio da arte. Há ainda editais da Lei Paulo Gustavo, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), voltado ao apoio a produtores, grupos e coletivos culturais, como o edital nº 151/2024, destinado à seleção de projetos culturais locais e o Fundo Municipal de Cultura (FMC), previsto em legislação municipal e que permite o repasse de recursos para o financiamento de atividades culturais, manutenção de equipamentos e apoio a entidades e profissionais do setor.

Casa da Cultura Frei Rovílio Costa

A formação cultural é destaque entre crianças e jovens. Espaços como a Escola de Música Matilde Cagliari (local de formação continuada que oferece aulas de instrumentos musicais, contribuindo para o desenvolvimento técnico e artístico), os Corais Infantil e Juvenil, o Teatro Literário (iniciativa que integra literatura e artes cênicas, estimulando a leitura, a expressão corporal e o protagonismo juvenil por meio de oficinas e apresentações culturais) e as oficinas do CTG Rincão da Roça Reúna (aulas de dança, Chula e declamação, que preservam e difundem as tradições gaúchas, fortalecendo o vínculo com o regionalismo), garantem que novas gerações mantenham vivas as tradições e desenvolvam suas habilidades artísticas.

Memória que segue viva

No município, a arte, museus, eventos, saberes tradicionais, patrimônios arquitetônicos e os projetos educativos compõem um mosaico que fortalece a identidade. “Essas iniciativas reafirmam o compromisso da gestão com a preservação do patrimônio imaterial, o incentivo à arte local e a valorização da cultura como elemento de pertencimento”, finaliza a museóloga.

Fotos: Arquivo da Prefeitura de Veranópolis e Letícia Fracasso.