O consumo de suplementos sem orientação médica ou nutricional tem se tornado cada vez mais comum, especialmente entre jovens que buscam ganho de massa muscular e pessoas atraídas por promessas de melhora na saúde, estética e imunidade. No entanto, especialistas alertam: a suplementação não substitui uma alimentação equilibrada e pode trazer riscos quando feita sem acompanhamento profissional.
Segundo a nutricionista e professora do curso de Nutrição da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Bruna B. Nicoletto Gehrke, os suplementos devem ser vistos exatamente como o nome indica: uma forma de complementar a dieta, nunca substituir hábitos alimentares saudáveis. “Nenhum suplemento vai ser capaz de contrapor os efeitos de uma alimentação ruim, isso é bem importante. As pessoas muitas vezes acabam buscando isso por algum objetivo específico, mas se a gente não mexer na base, que é a alimentação, provavelmente isso não vai ter o efeito esperado”, afirma.

da UCS, Bruna B. Nicoletto Gehrke
Bruna destaca que, em condições gerais, pessoas saudáveis não necessitam de suplementação. Casos específicos, como a gestação, em que há maior necessidade de nutrientes como o ácido fólico, podem justificar o uso. Fora dessas situações, grande parte das demandas pode ser suprida pela própria alimentação. “Mesmo praticantes de atividade física, na maioria dos casos, conseguem atingir a quantidade necessária de proteína na alimentação de maneira fácil. Claro, pode haver alguma questão de praticidade, mas a alimentação sempre vai ser a base”, explica.
O apelo do mercado de suplementos vai além das proteínas. Vitaminas, minerais e compostos vendidos como aliados da beleza ou da imunidade são consumidos sem critérios claros. Para a nutricionista, esse é um ponto de atenção. “Muitas vezes os suplementos trazem promessas de melhorar cabelo, unha, imunidade. São um mix de vitaminas e minerais que até podem ter uma relação com os mecanismos propostos, mas na prática não têm como ser direcionados especificamente para uma parte do corpo. A alimentação vai contribuir ainda mais do que o suplemento em si”, afirma.

É possível avaliar se uma pessoa precisa ou não de suplementos em três etapas, segundo a especialista. “Primeiro, a gente tem que avaliar o consumo alimentar, ou seja, quanto essa pessoa realmente obtém de um nutriente da alimentação, sendo que o nutricionista tem diversos instrumentos para fazer essa avaliação, sempre baseados numa boa conversa, numa anamnese (entrevista detalhada com um profissional de saúde) bem estruturada, que identifique a alimentação dessa pessoa em relação ao aporte desse nutriente. A gente também tem que identificar como é que estão as reservas, ou seja, como é que está o status desse nutriente no corpo. Muitas vezes alguns exames laboratoriais podem ser importantes, uma avaliação de exame físico para entender alguns aspectos. E o terceiro ponto são as necessidades, entender o quanto realmente essa pessoa precisa, tem de demanda além do usual. Fazemos um balanço para entender realmente se existe uma necessidade de suplementação ou não, e isso vai ser sempre individual. Dessa forma, não tem como ter uma promessa de um suplemento que todo mundo deveria usar. É difícil que essa afirmação seja verdadeira, porque a gente precisa olhar para a individualidade”, reforça.
Riscos da automedicação nutricional
O uso indiscriminado de suplementos pode sobrecarregar órgãos como fígado e rins, além de causar efeitos colaterais e até mascarar doenças. “Quando utilizamos um nutriente em suplementação, temos que lembrar que ele também vem da alimentação. É provável que esse valor total ultrapasse os níveis recomendados. Isso pode interagir com medicamentos e gerar riscos maiores em idosos, que muitas vezes já fazem uso de vários remédios e têm alterações naturais do metabolismo do envelhecimento”, alerta Bruna.
Desconfiar de promessas milagrosas
Com o crescimento da indústria de suplementos, não faltam produtos que prometem resultados rápidos e soluções fáceis. Para a nutricionista, esse é um sinal claro de alerta. “Suplementos que prometem cura ou resultados rápidos devem ser vistos com desconfiança, porque caminho fácil não existe nem milagre. O ideal é sempre buscar acompanhamento de nutricionista e médico, fazer uma avaliação para a pessoa entender se realmente há necessidade e como chegar ao resultado desejado da maneira mais adequada”, finaliza.