A família Barp já está na terceira geração no tradicionalismo
Dilceo Maximino Barp, figura de inestimável importância para o Movimento Tradicionalista Gaúcho de Bento Gonçalves, é o Homenageado dos Festejos Farroupilhas de 2025 aos 56 anos de idade. O anúncio oficial reconhece uma trajetória de mais de três décadas de incansável dedicação e liderança. O tradicionalista, que já tem a terceira geração de sua família envolvida na cultura, é um exemplo vivo da preservação das tradições.
Trajetória

Nascido em Bento Gonçalves, Barp iniciou sua jornada na juventude, no extinto CTG Herança de Bravos. Sua caminhada se consolidou, no entanto, no CTG Laços da Amizade, entidade que ele define como o lugar onde “tudo de bom aconteceu”. A chegada ao Laços da Amizade foi um ponto de virada, impulsionado pela presença de seu cunhado, Zinval Martins, hoje falecido. “No CTG Laços da Amizade foi e é totalmente diferente. Ele foi fazer parte das invernadas de danças e veio morar comigo. Com o tempo, começou a levar meus filhos ‘piqueninos’ ao CTG”, relata Barp. A partir daí, o envolvimento se aprofundou, levando-o a ocupar o cargo de Patrão por três vezes e a ver seus filhos, hoje adultos, seguirem firmes e fortes no tradicionalismo.”Meu filho Vinicius Martina Barp foi Capataz Campeiro do CTG Laço Velho, os demais nos outros CTG’s. Agradeço a todas as patronagens que estão comigo até hoje”, relata.
A liderança de Barp não se limitou às fronteiras de um único CTG. Sua atuação se estende a papéis fundamentais na Associação Bento-gonçalvense da Cultura Tradicionalista Gaúcha (ABCTG) e na 11ª Região Tradicionalista. Entre 2012 e 2019, exerceu as funções de Tesoureiro, Vice-presidente e Presidente da ABCTG, e desde 2020 é o Presidente do Conselho Deliberativo da entidade, além de Diretor Financeiro da 11ª Região. Destes papéis, ele considera a presidência da ABCTG como o mais desafiador. “Você tem que ter liderança, trabalhar em equipe, manter a união dos CTGs, apoiando e buscando soluções para eventos da Semana Farroupilha, rodeios e jantares”, explica.
Momentos que leva para a vida

Um dos maiores legados de Barp é a sua contribuição para a criação da figura do “Gaúcho Homenageado” nos Festejos Farroupilhas do município. A ideia, concebida em 2015 em conjunto com o saudoso ex-secretário de Cultura Jovino Nolasco, foi aprovada na época e resultou na escolha do primeiro homenageado, o professor e conselheiro benemérito Álvaro Machado de Mesquita. “Foi criado um critério onde o escolhido é indicado pelos patrões e pelo presidente da ABCTG, e o nome é apresentado para a aprovação do secretário de Cultura e do Prefeito Municipal. Hoje sou o décimo homenageado, sou muito grato a todos por esta linda homenagem”, detalha.
A sua dedicação também lhe rendeu diversas honrarias, como a Comenda Quero-Quero do MTG e da 11ª Região Tradicionalista, e a Medalha do Mérito Farroupilha, concedida pela Câmara de Vereadores em 2023.
Manutenção da cultura
Ao discorrer sobre o papel dos CTGs na sociedade, Barp enfatiza que são os pilares da preservação da identidade gaúcha. “Os CTGs em sua maioria possuem vários departamentos: o Artístico, onde as crianças, jovens e adultos mantêm as danças tradicionais; o Campeiro, mantendo o tiro de laço, cavalgadas e gineteadas; e o Cultural, com o Peão e as Prendas cultuando as nossas tradições”, enumera.
Além da cultura, ele considera o respeito e a união como os valores mais fundamentais do Movimento Tradicionalista Gaúcho para a sociedade atual.
Os Festejos Farroupilhas de 2025 em Bento Gonçalves, que teve o tema “Ondas curtas para uma história longa” em referência ao centenário de nascimento do radialista Darcy Fagundes, prometem diversas atrações. A programação, que iniciou oficialmente com a chegada da Chama Crioula, inclui atividades artísticas, provas campeiras, bailes, trovas e praça de alimentação. Barp faz um convite especial. “Eu vou convidar o nosso povo de Bento Gonçalves, tradicionalista ou não, que vá conhecer o Parque de Rodeios, onde estão sendo realizados os Festejos Farroupilhas. São muitas atrações. Eu só tenho que agradecer a todos os patrões das entidades tradicionalistas, a diretoria da ABCTG, o presidente Carlinhos Menezes, o prefeito Diego, o secretário Evandro, minha família e todos os tradicionalistas que estiveram junto comigo nesses anos todos”, finaliza.
Entre o CTG e o dia a dia, famílias vivem a tradição
A cultura gaúcha faz parte dos ensinamentos diários de muitas famílias bento-gonçalvenses, seja pela roda de chimarrão ou pelos bailes.
A paixão pela tradição da família Copetti

A tradição gaúcha é mais do que um conjunto de rituais; é um modo de vida para a família de Grazieli Copetti, um elo que se fortalece a cada geração. O compromisso com as raízes sul-rio-grandenses é visível em seu cotidiano, permeado por hábitos que remontam à infância e são hoje transmitidos às suas duas filhas. A dedicação se materializa na participação ativa da família na invernada artística do CTG, em rodeios, acampamentos durante a Semana Farroupilha e jantares e bailes. “A tradição gaúcha está presente em nosso dia a dia através do CTG que nossas duas filhas fazem parte, dos rodeios que sempre que possível estamos presentes, dos acampamentos na Semana Farroupilha, dos bailes e jantares e também de um bom chimarrão diário”, relata Grazieli. A rotina familiar é ainda coroada com um hábito inseparável da cultura gaúcha: o churrasco de domingo, um ritual de congraçamento e celebração.
As raízes da paixão de Grazieli pela cultura remontam à sua própria infância. “Desde criança, nossos pais nos ensinaram a fazer chimarrão e a tomar com eles, como também a ajudar a fazer o churrasco nos domingos. Essa é uma lembrança muito marcante que hoje procuramos passar para nossos filhos”, compartilha. O CTG é o epicentro da vivência da família, um lugar que Grazieli define como uma segunda família. “Ali temos muitos amigos onde dividimos nossos melhores momentos, de lazer com nossas famílias. Porém, também é um lugar onde precisa de muita dedicação, pois são muitos ensaios e compromissos. Quando nossos filhos estão se preparando para algum evento se torna bem cansativo, precisa muita determinação. Mas vale muito, pois soubemos que estamos ensinando o melhor para nossos filhos. Temos muito orgulho de ser gaúchos e seguir a tradição”, afirma, enfatizando que apesar dos desafios, ela se orgulha de estar transmitindo o que considera o melhor para as filhas.
A paixão, contudo, convive com uma preocupação crescente. Grazieli sente que a cultura gaúcha enfrenta desafios significativos, especialmente no que tange ao incentivo e à valorização fora do ambiente dos CTGs. “Sentimos muita falta de eventos fora do CTG que nos proporcione viver a cultura. Bento Gonçalves valoriza muito a tradição italiana, deixando de lado a cultura do nosso estado. Não temos eventos realizados pelo município, apenas de entidades tradicionalistas”, lamenta.
A falta de apoio, segundo ela, se estende à comunidade escolar e aos governantes, deixando a responsabilidade de manter a tradição viva quase que exclusivamente nas mãos dos pais, o que acaba enfraquecendo a cultura. “Infelizmente a cultura gaúcha não está sendo valorizada, não tem incentivo para os jovens. Falta muito o incentivo da comunidade escolar , e também dos nossos governantes municipais. Hoje essa responsabilidade de manter a tradição está somente para nós pais, pois a cultura gaúcha está cada vez mais fraca”, afirma.
O amor de suas filhas pela dança e pela música gaúcha é resultado direto do entusiasmo e apoio familiar. “Tenho duas filhas que amam dançar, são apaixonadas pelas músicas gaúchas e sei que isso só é porque nós pais gostamos e incentivamos muito. Infelizmente cada vez menos pessoas se encantam por esse meio. Amamos dançar em bailes e como é triste ver que neles já não temos mais jovens. Lembro que quando nós éramos adolescentes, os bailes gaúchos eram cheios de jovens dançando, todos com muito respeito com as prendas, hoje só tem pessoas de mais idade nesses locais. Cadê nossos jovens?!”, finaliza Grazieli.
O cotidiano gaúcho da família Da Ré

Para a família de Rodrigo Da Ré, a tradição gaúcha não se limita aos Festejos Farroupilhas ou a eventos pontuais, mas se manifesta no dia a dia, em cada hábito e em cada gesto. Em um sítio em Bento Gonçalves, a vida rural se mescla com o tradicionalismo, com a família cuidando de ovelhas, galinhas e cavalos todas as manhãs, antes de seguir para o trabalho e a escola. Esse cotidiano, enraizado na lida campeira e nos costumes, serve de alicerce para uma identidade cultural que se transmite de geração em geração.
As vestes, a culinária e as práticas diárias da família Da Ré reafirmam seu compromisso com as origens. A bombacha, mais do que uma peça de roupa festiva, é usada com frequência. O chimarrão, símbolo de união, é consumido diariamente. O churrasco, aos domingos, é um ritual sagrado de confraternização. Rodrigo e sua família são membros ativos de um CTG e se envolvem em atividades que ressaltam a sua cultura. Para eles, a Semana Farroupilha não é apenas uma celebração. “É a nossa vida diária, convivemos todos os dias como gaúchos de verdade”, afirma Da Ré.
A imersão na cultura gaúcha se reflete no envolvimento da família em atividades artísticas e campeiras. Rodrigo participa de rodeios no tiro de laço, uma modalidade que exige destreza e precisão. Sua filha, Tainá, é membro da invernada mirim do CTG Laços da Amizade, seguindo uma tradição que já se perpetua na família, com a dança sendo transmitida “de mãe para filha”. O compromisso com a tradição se estende à esfera musical. “Todos os dias ouvimos música gaúcha na rádio, e a Tainá ensaia em casa as músicas da invernada”, relata.
Da Ré destaca a fusão cultural presente em sua vida, conciliando as raízes gaúchas com a ascendência italiana. “Somos italianos e gaúchos, lidamos também com parreiral e gostamos de um bom vinho”, diz, demonstrando a coexistência de ambas as culturas em sua identidade.
Apesar da dedicação de sua família, Da Ré manifesta uma preocupação quanto ao futuro do tradicionalismo. Ele percebe uma desconexão entre os jovens e adolescentes com a cultura, algo que se evidencia pela falta de interesse e encantamento. O cenário atual contrasta com o envolvimento de crianças e adultos mais velhos, que continuam a ser os pilares da tradição. A observação de Da Ré levanta um questionamento sobre os desafios que o movimento enfrenta para atrair e reter as novas gerações, garantindo a continuidade de um legado construído ao longo dos séculos.
Programação da Semana Farroupilha
•6 de setembro: 20h – Jantar-baile de abertura com Os Bertussi;
•11 de setembro: 14h – Baile da Terceira Idade com Grupo Tranco Véio;
•12 de setembro: 19h – Tertúlia Livre. 20h – Show com Os Guri do Conjunto e jantar;
•13 de setembro: 9h – Apresentações de invernadas artísticas na Via Del Vino , 12h – Almoço, 15h – Tertúlia livre, 17h – Show com Marcas da Serra, 22h – Show com Saudade Serrana;
•14 de setembro: 8h – Apresentações de invernadas artísticas , 12h – Almoço, 13h30 – Continuação de invernadas artísticas, 14h – Gineteada, 15h – Tertúlia livre;
•16 de setembro: 20h – Show com Nunes e Grupo Parceria e jantar;
•17 de setembro: 20h – Show com Grupo Paiero e jantar;
•18 de setembro: 20h – Show com Grupo Brasão do Rio Grande e jantra;
•19 de setembro: 20h – Show com Grupo Chama Nativa e jantar;
•20 de setembro: 7h – Início da Copa Bento de Laço, 8h – Início da 1ª Vindima do Verso Gaúcho, 9h – Saída da Cavalgada Cristo Rei (Igreja Cristo Rei → Parque de Rodeios), 11h – Chegada da cavalgada e missa campeira, 12h – Almoço, 13h – Continuação da 1ª Vindima do Verso Gaúcho e da Copa de Laço, 22h – Baile com Grupo Surungaço
•21 de setembro: 8h – Continuação da Copa Bento de Laço, 8h – 1ª Vindima do Verso Gaúcho, 12h – Almoço, 16h – Show com Márcio Lima e Grupo Marca Missioneira